OPINIÃO

Nesta casa há sete filhos…e os pais ainda não deram em doidos

Um pai, uma mãe, sete filhos, dois cães, dois burros, dois patos, três galinhas. Mariana d’Avillez escreveu um livro para contar a experiência da família numerosa e da ginástica que tem de fazer para garantir que há tempo, espaço e dinheiro para chegar ao essencial.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gustavo Bom/Global Imagens

Do lado de fora, antes de entrar em casa, ouvem-se os risos de crianças. Ao fundo, o vento nas árvores e os animais. Mais longe, o ruído do mar. É aqui, quase a chegar à Praia das Maças, em Sintra, numa casa com um quintal a perder de vista, que Mariana e Miguel educam os filhos e os veem crescer. Junto à natureza, com espaço para correr, para ter burros e galinhas e até acampar ao ar livre nos dias de verão.

A maioria dos estudos atuais aponta para um ou dois filhos por casal, mas Mariana d’Avillez e Miguel Arrobas fazem parte da exceção à tendência. Têm sete filhos. A Leonor foi a primeira. Hoje tem 14 anos. Depois veio o Miguel (12), o Vasco (9), a Marta (7), o Pedro (5), o Francisco (3) e a bebé Teresa, com 8 meses. E o número pode – ou não – ser definitivo. «Estou sempre a dizer que é o último, mas desta vez, depois da Teresinha, acho que é mesmo. Vou fazer 42 anos, se calhar é tempo de pendurar os ovários», diz a mãe.

Miguel e Mariana casaram-se em 2000 e o plano sempre foi ter a casa cheia. Ela sempre disse que queria ter pelo menos quatro filhos. «Principalmente para os jogos de mesa. Eu tenho dois irmãos, três nunca chegavam para jogar aos pares. Por isso, sempre apostei para a mesa completa», brinca. Ambos têm famílias grandes. O avô materno era o quinto de dez filhos e a avó a mais velha de oito. A sogra de Mariana é a quarta em doze irmãos. É natural que estejam habituados a festas de família com muita confusão.

Esta «escola» foi importante para Mariana. «Vi as minhas tias e primas tornarem-se mães. Vi como lidavam com as situações e falávamos muito. Isso trouxe-me uma certa calma quando assumi esse papel pela primeira vez.»

Mariana diz que a família não tem luxos. Reciclam roupas e brinquedos e contam com a família que também lhes dá muita coisa.

«Não existem guias na maternidade, cada caso é um caso e vamos aprendendo à medida que as coisas vão acontecendo», diz ela. Mas, ainda assim, ela resolveu partilhar a sua história. No pouco tempo que tem entre o emprego (é veterinária) e os filhos, Mariana foi escrevendo pequenos textos onde dava conta da sua experiência. O resultado chama-se Mãe de Sete (ed. Livros Horizonte) e é «uma ajuda, não é um guia». O que tem aprendido nos últimos 14 anos mostrou-lhe que «se for descontraída, as coisas acabam por encarrilar».

Pela formação em veterinária, nunca se assustou com sintomas de doenças. «Um espirro ou um arranhão não me levam para o hospital. Uma criança tem de cair, tem de se sujar, tem de aprender a levantar-se.» Quando começam a gatinhar, a primeira preocupação é ensinar-lhes a descer as escadas de costas. «Quem tem uma casa com escadas sabe que esta é a prioridade. Assim que aprendem, fico mais descansada».

E como se faz com as contas? Como se estica o dinheiro? Há várias perguntas que estes pais ouvem muitas vezes, mas esta é recorrente (e por isso dá título a um capítulo do livro): «É preciso ser rico para ter muitos filhos?» Mariana garante que não. Em vez disso, defende uma gestão cuidada do orçamento. Miguel é jurista, diretor municipal na Câmara de Cascais e Mariana é veterinária, trabalha em vários sítios e gere o tempo para estar mais horas em casa.

Foi este o acordo. «Não temos luxos, reciclamos roupa e brinquedos e felizmente existem os primos que nos dão coisas.» O tema é abertamente discutido no livro, onde a mãe explica que têm um documento de Excel onde anotam cada cêntimo gasto. «Até o café ali na esquina.» Todas as despesas são apontadas e no final do ano podem perceber onde estão a gastar mais. «Aproveitamos todas as promoções, não me lembro da última vez que comprei detergente pela totalidade do preço.»

A avó costumava dizer-lhe «cada filho vem com um pão», e Mariana adotou a filosofia. Sempre que vem outra boca para alimentar, têm surgido oportunidades de trabalho – chegou a escrever mensalmente para uma publicação – e aos poucos foram-se adaptando a esta ginástica financeira. Onde se gasta mais? «Sapatos para rapazes, é impossível, eles não param de crescer.»

Esta é já uma máquina oleada, afinal são sete filhos em 14 anos. Os horários, as atividades extracurriculares são estudadas no início do ano letivo, «a única altura do ano em que algum deles pode ficar pendurado».

Durante a conversa, as crianças estão por perto, brincam umas com as outras, sobem à grande árvore onde estão pendurados os baloiços, deitam-se nas camas de rede. Não há sinais de telemóveis. «A Leonor e o Miguel, os mais velhos, são os únicos que têm telemóvel. Tentamos que eles não fiquem presos à tecnologia tão cedo.» Têm-se uns aos outros para brincar. E esse elo vale para todos os momentos.

Até mesmo de manhã, quando os pais ainda estão a dormir, os mais velhos já cuidam dos mais novos, assumindo a responsabilidade do pequeno-almoço. «No fim de semana, se nos ligarem às oito da manhã a acharem que já estamos acordados porque temos sete filhos, podem apanhar-nos ainda a dormir.»

Houve situações em que os dois perceberam que os irmãos já têm uma autonomia, como aquela vez em que o Pedro recebeu uma bicicleta pelos anos e os pais não tiveram tempo para ensiná-lo. Quando repararam, estava a andar perfeitamente porque a irmã Marta o tinha incentivado: «Pedro, costas direitas e andar para a frente.» Mas, como em todas as famílias, também há discussões.

Mariana aborda o tema no livro. Há que perceber o que é embirração de irmãos ou é realmente preocupante. E também dar a entender às crianças que chamar a atenção sem motivo sério não é aceitável. «Aqui em casa eles sabem que para chamar a mãe «precisa de haver sangue ou perda de consciência».

Há que arranjar horas, escapadelas (como casamentos de amigos em que vão uns dias para fora). Só assim conseguem separar «o pai do marido e a mãe da mulher».

Esta é já uma máquina oleada, afinal são sete filhos em 14 anos. Os horários, as atividades extracurriculares são estudadas no início do ano letivo, «a única altura do ano em que algum deles pode ficar pendurado». Depois, torna-se automático, e tanto o pai como a mãe se desdobram para não falhar nenhum momento. Os avós são também uma grande ajuda, aliás, merecem um capítulo inteiro no livro.

É com eles que a prole fica quando Mariana e Miguel saem para uma noite a dois. Esses momentos são extremamente importantes para a relação do casal, garante. Há que arranjar horas, escapadelas (como casamentos de amigos em que vão uns dias para fora). Só assim conseguem separar «o pai do marido e a mãe da mulher».

Apesar de ter a casa sempre cheia e do horário completo, Mariana procura encontrar tempo para estar sozinha. «Normalmente, em dias de escola, depois do almoço, tenho uma hora para mim, para me organizar e limpar a cabeça para o resto do dia.» Para esta mãe de sete, é essencial este silêncio momentâneo para ganhar energia. «Cada mãe gere o tempo da sua maneira, mas penso que todas concordarão comigo neste ponto.»

Não existe a receita perfeita ou o número ideal de filhos para cada casal. «Há casais criticados por não terem filhos, outros por terem filhos a mais.» Para esta mãe que, quando a entrevista acabar, vai preparar almoço para todos, ter filhos «é ainda acreditar que este mundo pode melhorar, afinal estamos a educá-los para isso. Isso incomoda as pessoas? Talvez incomode. É um sinal ostensivo de otimismo, não é?»

FAZER CONTAS À VIDA

Quando há sete filhos e nove bocas para alimentar, poupar é a palavra de ordem – em roupa, brinquedos ou comida. A roupa vai passando entre irmãos, sem ser necessário ir às compras cada vez que muda a estação do ano. Os brinquedos são reciclados ao máximo, principalmente até aos 3 anos, uma idade em que se fartam rapidamente dos presentes.
Compram-se pilhas novas, limpa-se o pó, faz-se um embrulho e a boneca, o piano ou o carrinho estão como novos. Na comida, a gestão é praticamente diária. Correr atrás das promoções, aderir às marcas brancas e comprar apenas o indispensável para as refeições da semana. Ensinar as crianças a valorizar o dinheiro é muito importante! Filhos conscientes que sabem partilhar facilitam bastante a vida dos pais.

 

MÃE DE SETE
MARIANA D’AVILLEZ
Livros Horizonte
197 páginas 16,60 euros

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