OPINIÃO

Desconfiados, este livro é para vocês

Dietas sem glúten, teorias da conspiração, fenómenos paranormais ou medicinas alternativas. Estas são alguns dos temas que não escapam à Comunidade Cética Portuguesa. Quatro membros deste coletivo de desconfiados por natureza escreveram um livro onde desmontam argumentos que damos como adquiridos no nosso dia a dia. Com humor e provas concretas. Das científicas.

Entrevista (por e-mail) de Ana Patrícia Cardoso

Afinal, vocês acreditam em alguma coisa?
Comunidade Cética Portuguesa: Sim, somos só um bocadinho mais exigentes em relação à qualidade e quantidade das provas, especialmente se estivermos a falar de algo que parece bom demais para ser verdade. O truque é ter a mente aberta o suficiente para aceitar ideias novas, mas não tão aberta ao ponto de o cérebro cair no chão.

Como surgiu a ideia de criar a Comunidade de Cética Portuguesa?
CCP: Surgiu em 2012. Nós já nos conhecíamos de blogues e fóruns online sobre o ceticismo e achávamos que fazia falta uma associação do género em Portugal, um pouco à semelhança do que já existia noutros países. O objetivo era denunciar os casos de pseudociência, isto é, daquilo que é promovido como ciência sem o ser, mas também o negacionismo de ciência – que nada tem a ver com o movimento cético – como o negacionismo das vacinas ou das alterações climáticas.

Diana Barbosa (bióloga), Leonor Abrantes (guia-intérprete), Marco Filipe (mestre em biotecnologia) e João Lourenço Monteiro (biólogo) membros da Comunidade Cética Portuguesa e autores do livro Não se Deixe Enganar.

Qual é a vossa definição de ceticismo?
CCP: Nós damos algumas definições de ceticismo no livro. Normalmente quando nos pedem uma versão resumida citamos uma frase popularizada pelo cientista Carl Sagan: “afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias”. Os céticos também dão uma grande importância à ciência porque este é um método projetado para reduzir as probabilidades de chegarmos a conclusões erradas. Mas não é preciso ser cientista para se ser cético. Afinal, até o saber popular nos adverte para as virtudes do ceticismo com provérbios como “nem tudo que luz é ouro”.

Divertem-se a desmontar teorias que as pessoas dão como adquiridas?
CCP: Depende do assunto. Existem teorias tão disparatadas que é difícil não retirar um especial prazer enquanto as desmontamos. Em relação à reação das pessoas geralmente é um espetro que varia da frustração à sensação de dever cumprido. Por vezes é cansativo ouvir continuamente argumentos que já foram refutados por diversas vezes, por outro, é compensador quando recebemos mensagens de incentivo e sabemos que temos um impacto positivo na vida de algumas pessoas.

Já alguém veio contradizer algum texto vosso?
CCP: Quase sempre, mas nem sempre da melhor maneira. Nós não nos arrogamos donos da verdade, é muito provável que algumas das nossas posições venham a mudar com novas evidências, porque é simplesmente isso que nós pedimos antes de acreditar em algo. Também é assim que a ciência funciona, não existem verdades absolutas, tudo está aberto à mudança desde que seja apoiado em provas objetivas e verificáveis por todos.

O glúten é uma proteína que existe em alguns grãos como o trigo, não é uma “toxina” como dizem alguns livros e páginas da internet, caso contrário, o ovo também seria uma “toxina” por existirem pessoas alérgicas às proteínas do ovo.

Recebem ameaças?
CCP: Felizmente não, mas existem alguns casos a nível internacional. Por exemplo, pessoas que se deixam enredar em teorias da conspiração tendem a acreditar que estão a lutar contra um mal absoluto – do qual os céticos também fazem parte – e que isso justifica até a violência. Mas regra geral a maior ameaça que um cético enfrenta é o de um processo em tribunal. Vendedores de produtos e terapias alternativas dúbias utilizam com frequência esta tática para tentar silenciar as críticas e proteger os seus negócios.

Ser cético e ter fé é incompatível?
CCP: Não necessariamente, até porque nós, seres humanos, somos muito bons a compartimentar valores e ideias contraditórias na nossa mente. Alguns céticos e até cientistas acreditam em coisas para as quais não existem provas objetivas. E não faz
mal desde que exista respeito e humildade, isto é, um reconhecimento de que essas coisas são sustentadas apenas pela fé e que quem não partilha dessa fé não é obrigado a aceitar alegações sem provas.

Como foi o processo de escrita deste vosso primeiro, livro Não se deixe Enganar?
CCP: Foi um misto de entusiasmo com muito stress, até porque tínhamos prazos a cumprir. Dividimos os temas entre os autores conforme os interesses e conhecimentos de cada um, mas todos deram o seu feedback e sugestões na elaboração dos capítulos, incluindo o nosso editor, Rui Couceiro, que foi uma preciosa ajuda em todo o processo.

Falemos de alguns capítulos do livro. Afinal, uma dieta sem glúten não é muito aconselhável?
CCP: Os alimentos sem glúten são saudáveis e até um imperativo, mas apenas para uma percentagem muito reduzida da população que sofre de uma doença autoimune chamada doença celíaca. Para todas as outras pessoas, uma dieta sem glúten é um desperdício de dinheiro uma vez que os produtos sem glúten são geralmente mais caros. O engraçado é que existem pessoas que decidem eliminar o glúten da dieta sem sequer saberem do que se trata. O glúten é uma proteína que existe em alguns grãos como o trigo, não é uma “toxina” como dizem alguns livros e páginas da internet, caso contrário, o ovo também seria uma “toxina” por existirem pessoas alérgicas às proteínas do ovo.

Ao contrário do que muitas pessoas assumem, o fato de um produto ser de origem natural não nos diz nada acerca da sua segurança.

Não são adeptos das medicinas alternativas, pois não?
CCP: Quando se fala de medicina alternativa aquilo de que se está realmente a falar – apesar do marketing afirmar o contrário – é de práticas para as quais não existem provas científicas credíveis, ou até de práticas para as quais existem provas abundantes de que não funcionam. Para que as pessoas possam realmente tomar decisões informadas sobre saúde é necessário que estejam conscientes desse facto. Não temos qualquer problema em aceitar uma prática alternativa a partir do momento que esta seja submetida ao mesmo tipo de escrutínio e avaliação que é exigido à medicina moderna, só que aí deixa de ser uma medicina alternativa para se tornar apenas em medicina.

Qual é o grande problema das teorias de conspiração?
CCP: Há teorias da conspiração e também há conspirações genuínas, a diferença é que quem defende as primeiras não possui realmente provas da suposta conspiração, está antes a tentar “adivinhar” uma conspiração antes desta ser revelada ao público. E existem várias falhas a apontar no pensamento conspiratório, uma dessas falhas é que as teorias da conspiração nunca estão erradas: se não existem provas é porque “eles” andam a escondê-las; se existem provas contraditórias é porque são um embuste criado pelos conspiradores.

A «guerra aos químicos» é exagerada?
CCP: Exageradíssima. A “quimiofobia” é hoje amplamente explorada de forma comercial e é preciso cuidado: nem todos os produtos são realmente naturais como é anunciado ou, sendo naturais, não quer dizer que sejam isentos de risco. Ao contrário do que muitas pessoas assumem, o fato de um produto ser de origem natural não nos diz nada acerca da sua segurança. Os produtos naturais também contêm químicos pois são constituídos por átomos e moléculas. E existem até substâncias que podem ser benéficas ou tóxicas dependendo da dose.

Atribuem parte da culpa do culto do paranormal ao meios de comunicação. Andamos a pregar ao oculto?
CCP: Achamos que por vezes a preocupação com o entretenimento é superior à preocupação com a verdade e que isto pode ter consequências negativas. Quando existem programas de televisão que promovem diariamente o paranormal e pseudociência, essas ideias acabam por ser legitimadas apesar de não possuírem qualquer fundamento. E geralmente quem sofre as consequências é quem já se encontra num estado vulnerável.

Qual o tema que ficou de fora deste livro?
CCP: Gostávamos de ter desenvolvido o tema das previsões do fim do mundo e como são exploradas comercialmente por pessoas sem escrúpulos. Aliás, a Comcept foi fundada em 2012, o ano do temido Apocalipse Maia que, como todas as outras previsões do fim do mundo, também estava errada. Mas isso não impediu que muitas pessoas vendessem tudo o que tinham ou até decidissem por termo à própria vida. Estas coisas podem parecer uma excentricidade ridícula para quem não acredita, mas isso não significa que não tenham um elevado custo humano.

Quem vai normalmente aos encontros organizados pela Comunidade Cética?
CCP: Nós organizamos regularmente tertúlias em Lisboa e no Porto em torno de diversos temas, a maioria das pessoas são céticas, mas também conseguimos atrair alguns curiosos. Já a ComceptCon, uma conferência anual para a qual convidamos diversos especialistas, tem tido uma excelente adesão por parte de todos. Na última ComceptCon que realizamos na Nazaré foi muito bom ver pescadores a participar e a fazer perguntas aos oradores. Estes eventos são gratuitos e abertos a todos.

Saiba mais sobre a Comunidade Cética Portuguesa aqui.

Não se deixe enganar
de Diana Barbosa, Leonor Abrantes, Marco Filipe e João Lourenço Monteiro
Ed. Contraponto, 2017
16,60 euros