OPINIÃO

Não, o relógio biológico não dá horas

Não há alterações hormonais, nem tiquetaques que lhe anunciem o desejo de ser mãe. Há, isso sim, pressão para ter filhos.

Relógio biológico para ser mãe? Na ciência, o conceito não é utilizado. Não há um relógio que toca quando uma mulher quer ter filhos, nem hormonas que saltitam de um lado para o outro. O que há é pressão social. Ainda assim, a expressão entrou no vocabulário e há quem sinta um relógio a dar horas quando dispara o desejo de ser mãe.

Mas se não há alterações físicas, há pormenores no comportamento. Não há grávida que se cruze no caminho que escape a um olhar mais demorado. As antenas ficam no ar quando o assunto gira em torno da maternidade. As imagens de bebés provocam uma ternura que não era habitual. A disponibilidade para cuidar dos mais pequenos começa a disparar. Os problemas das crianças incomodam e demoram mais tempo a ser digeridos. Sinais de alarme para começar a preparar um ninho.

Há algumas décadas, feminilidade e maternidade andavam de mãos dadas, eram praticamente sinónimos. Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo, não esquece as mulheres que, nesse tempo, lhe confidenciavam, com um fio de voz e olhos baixos, que não se achavam destinadas a serem mães. «Hoje trata-se de uma escolha no projeto de vida das mulheres», comenta. «Desejar um filho pode ou não acontecer e até variar com a idade ou o tipo de relação, mas não é um atestado de ‘normalidade feminina’», diz.

Os anos passam, o relógio atrasa-se. «Se antes os 30 eram a barreira invisível e angustiante, agora os 40 assumiram esse estatuto pelo receio de complicações originadas por alterações nos óvulos.» Há vários fatores que são colocados nesta balança: melhor altura para a primeira gravidez, razões profissionais, estabilidade financeira, tipo de relação, avançar ou não para um segundo filho, projetos individuais de maternidade. E há também mudanças neste processo. «A modificação mais importante é o progressivo atenuar do imperativo cultural de ser mãe, bem expresso na maior parcimónia de utilizar a expressão “instinto maternal”», observa Júlio Machado Vaz.

Há relógios biológicos em vários momentos da nossa vida. Relógio para entrar na puberdade, relógio para entrar na menopausa, relógio mensal da menstruação, relógio para facilitar o acordar e o adormecer. Mas não há relógio biológico associado ao desejo de ser mãe. «Não existe. O que existe é uma pressão puramente social e contextualizada aos momentos que vivemos», refere Jorge Dores, médico endocrinologista do Centro Hospitalar do Porto e professor no ICBAS – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Não há, portanto, mudanças hormonais, nem tiquetaques internos. Há pressão social e cultural. Veja-se o exemplo das mulheres ciganas que são mães bastante cedo.

«Relógio biológico é o nickname para um conjunto de circunstâncias ou motivações que levam a mulher a ponderar ser mãe», diz Marcela Forjaz, ginecologista e obstetra. Mas se houvesse um relógio a bater ao ritmo certo, então o alarme devia soar por volta dos 25 anos. «Nem demasiado novas, em que o corpo parece não estar ainda completamente aperfeiçoado para essa função, nem demasiado velhas, em que a matéria-prima para a procriação vai perdendo qualidade», descreve.

A idade pesa nesta questão da maternidade. A idade média para o primeiro filho anda nos 30,2 anos, há um momento a partir do qual a fertilidade diminuiu, e a qualidade dos ovócitos tem tendência a deteriorar-se com o passar dos anos. Marcela Forjaz junta outros ingredientes à conversa. «Ao desejo de ser mãe – sejam quais forem as motivações – sobrepõem-se vários fatores que fazem que este seja adiado, inibido, substituído. À pulsão que possa existir com génese emocional, quem sabe biológica, no sentido da maternidade, sobrepõem-se a decisão, a análise consciente de fatores externos que podem condicionar a sua realização.»

Há incertezas, escolhas, momentos, prioridades. «Existe um relógio biológico que vai sendo ignorado, em que individual e socialmente os parâmetros são redefinidos de forma artificial desrespeitando a natureza mais primitiva, substituindo a definição biológica pela conveniência individual», comenta a obstetra, sublinhando que isto não é uma crítica «no sentido de que existe um egoísmo generalizado em que só depois de se cumprir determinados objetivos e confortos se alargam as perspetivas à aceitação da maternidade, mas antes ao reconhecimento da preocupação, eventualmente excessiva, de reunir as melhores condições para esse fim.»

Ser mãe faz parte de um desenho familiar tradicional. «A mulher portuguesa é educada tendo como referência o modelo familiar tradicional de que, naturalmente, fazem parte os filhos», diz Cláudia Vieira, presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade. Os tempos mudaram e há fatores e razões que agora se misturam quando a conversa anda à volta de ter ou não ter filhos. Há questões que têm de ser ponderadas. Estabilidade financeira, investir numa carreira profissional, escolher um parceiro para partilhar um projeto de parentalidade. Há quem se preocupe com o adiamento da maternidade. A partir dos 35 anos, os óvulos perdem qualidades, há maior probabilidade de infertilidade, os riscos de complicações na gravidez aumentam, há mais hipóteses de partos prematuros ou de malformações no bebé. E há quem não dê importância a essa educação tradicional.

«Embora menos frequente e mesmo reunidas todas as condições materiais, algumas mulheres não se sentem emocionalmente atraídas pela maternidade. Os motivos são vários e, em momento algum, deverão servir para julgamentos de valor. São mulheres, na sua maioria, com um papel bastante válido que contribuem ativa e positivamente para a sociedade», comenta Cláudia Vieira. Vivemos em sociedade, o que implica aceitar a diferença e a diversidade para que, sublinha, «mulheres, mães ou não, se sintam respeitadas pelo papel que desempenham.»