OPINIÃO

Tem saudades de dormir?

Está comprovado que resistimos melhor à fome e à sede do que ao sono. Se não dormimos, morremos. Se dormimos mal, a saúde ressente-se. Bebe álcool e fuma antes de se deitar? Tem televisão no quarto? Não devia. Falámos com o psiquiatra Miguel Bragança, e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, sobre hábitos e asneiras.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

Não há volta a dar. O sono é essencial à vida, a humanidade resiste melhor à fome e à sede do que ao sono e se não dormimos morremos. Se não dormimos bem, a saúde ressente-se, e se não fazemos o ciclo sono-vigília como deve ser, há doenças que espreitam e atacam.

Há medicamentos para dormir, pois há, mas são um triste remedeio como diz o povo. Mas há hábitos que podem ser alterados e que podem contribuir para noites bem dormidas, mais descansadas, dias mais tranquilos. Tem televisão no quarto onde dorme? Pois, não devia.

Quem dorme mal, tem mais riscos de ter hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares.
Miguel Bragança, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, está habituado a falar do assunto. «Dorme-se mal porque se cometem erros», avisa. Ter televisão no quarto é um grande disparate. O corpo está deitado, a cabeça atenta ao que se passa no ecrã, e não basta desligar o botão para dormir como um anjo. O cérebro continua a processar o que viu, os olhos podem demorar a fechar, o sono pode não ser retemperador. «Televisão no quarto é um grande inimigo do dormir», garante o médico.

É preciso dar tempo ao dormir e, segundo o psiquiatra, há mais asneiras que podem significar noites mal dormidas. Beber álcool à noite, um whisky para relaxar antes de ir para cama, beber café depois do jantar, fumar, são hábitos que não ajudam nada. «As bebidas alcoólicas estragam a arquitetura do sono», alerta.

«As pessoas estão muito disponíveis para tomar comprimidos para dormir e muito pouco disponíveis para mudar hábitos da vida diária», diz.

E as insónias acontecem, pois claro, e com elas vêm as cefaleias (dores de cabeça), as doenças crónicas, a fadiga, os problemas de memória, o absentismo. E, nas clínicas, há quem peça comprimidos para dormir. «As pessoas estão muito disponíveis para tomar comprimidos para dormir e muito pouco disponíveis para mudar hábitos da vida diária», diz.

É a lei do menor esforço. Então o que fazer? «Tudo vale desde que a pessoa se sinta bem, desde ioga para relaxar, tomar banho antes de ir para a cama, meditar, mindfulness.» Depende de cada um. Antigamente, lia-se e rezava-se, agora há outras estratégias para chamar o sono, desde ondas sonoras, a camas feitas de determinada maneira, a banhos mais prolongados. Fazer exercício físico também é bom, desde que seja na dose certa, nem quase nada, nem em demasia.

É complicado definir as horas exatas de sono de uma pessoa. O habitual é entre sete a oito horas por noite. Mas há quem durma muito e acorde cansado, há quem durma pouco e acorde bem-disposto. «O mais importante é a sensação subjetiva ao acordar, como nos sentimos ao acordar», revela Miguel Bragança. Se o corpo e cabeça recuperam durante o tempo que passam de olhos fechados. Se as funções recuperadoras do sono são ou não cumpridas.

Dormimos menos porque vivemos mais. Em 100 anos, a esperança de vida duplicou e com o envelhecimento, temos menos necessidade de dormir porque os dias se tornam «menos cansativos.»

O sono interfere no dia a dia, retempera a vida. Mexe com a formação e consolidação da memória, com a energia, o metabolismo, o sistema imunitário, a produção de hormonas. «O sono ajuda a regular todos estes processos físicos, metabólicos, neurológicos.» Mexe com a cabeça. «Desintoxica o cérebro, faz uma limpeza dos processos tóxicos que o dia provocou», refere o psiquiatra.

A verdade é que dormimos menos porque vivemos mais. Em 100 anos, a esperança de vida duplicou e com o envelhecimento, há menos necessidade de dormir porque os dias se tornam «menos cansativos, menos desgastantes.» «A insónia é um custo que pagamos por vivermos mais», comenta.

Dormimos menos também pelo que acontece à nossa volta. «Há uma enorme cultura de trabalho, de competição, de lazer.» Há muita coisa a acontecer ao redor e depois há o stress, a ansiedade, a urgência, as pressas. «As pessoas vão perceber que o sono faz parte da vida, não há um sem o outro. Só vivemos bem se dormimos bem, só dormimos bem se vivemos bem».

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