OPINIÃO

Na Caparica de Carlos do Carmo não havia fado, havia rock’n’roll

Carlos do Carmo vai subir amanhã, 11 de agosto, ao palco do festival Sol da Caparica. E essa é uma boa oportunidade para uma viagem no tempo – foi, afinal, na Costa que o fadista passou a infância e a juventude, mais uma boa parte da vida adulta. Conversa sobre outros verões, aqueles em que a praia era o faroeste, a povoação era belíssima e a banda sonora para tanta alegria era rock'n'roll.

Entrevista Ricardo J. Rodrigues Fotografia Jorge Amaral/Global Imagens

A praia mais bela da Europa», diz Carlos do Carmo assim que chega ao Miradouro dos Capuchos, admirando do alto toda a linha de areal que se estende da Trafaria ao cabo Espichel.

A Costa de Caparica, na margem sul do Tejo, é-lhe tudo menos indiferente. Foi ali que passou os melhores dias estivais da sua vida, desde a infância até ter os filhos criados. Verão, para ele, é esta paisagem. «O problema é que a partir dos anos oitenta deixei de reconhecer a Caparica. Foi muito maltratada em termos urbanísticos, foi invadida de uma forma selvagem e então zanguei-me, passei a fazer férias no Algarve, e nunca mais voltei.»

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Na próxima sexta, 11 de agosto, a reconciliação vai finalmente dar-se, quando subir ao palco do festival Sol da Caparica. Mas esta é uma história em privado, que aconteceu uma semana antes da atuação, quando o fadista aceitou revisitar esse passado de ondulação e areia. A vida que foi, pelas palavras do próprio.

A Costa era uma outra Costa, diferente do que é hoje. «Era de uma pacatez extraordinária. Antes da construção da ponte sobre o Tejo»

Carlos do Carmo nasceu em 1939 e, nos anos quarenta, a sua ideia de paraíso era uma jogatana de bola, 11 contra 11, na areia molhada do que é hoje a praia do CDS, bem no centro da cidade. «Não havia pontões nem rochas como há hoje, nem sequer esta estrada marginal. As dunas eram mais largas, agora é só gente apinhada a disputar espaço para um chapéu-de-sol.»

Os tios é que o traziam, todos os verões, e ficavam sempre alojados no Grande Hotel da Caparica, junto ao principal eixo da cidade, a Rua dos Pescadores. «Na altura não era mais do que um vilarejo. De manhã fazia-se praia, à tarde íamos para o campo. Jogávamos futebol uma parte do dia e às escondidas no outro, no que é hoje a zona de São João. Em ambos os casos, era uma alegria.»

A Costa era uma outra Costa, diferente do que é hoje. «Era de uma pacatez extraordinária. Antes da construção da ponte sobre o Tejo, a Costa de Caparica era frequentada apenas por algumas famílias burguesas, aristocráticas, que vinham com uma visão terapêutica. As águas e o iodo tinham caraterísticas medicinais e as pessoas obedeciam aos banhos por prescrição médica.»

Nos anos da II Guerra Mundial também acorria uma imensidão de refugiados, ele lembra-se bem das famílias austríacas que tinham fugido ao nazismo. Nesse tempo privilegiavam-se as temporadas longas, mais do que as visitas diárias. «Exceto ao domingo. Nessa altura, vinham grupos populares passar o dia, armados com o farnel e isto tornava-se uma confusão.» Casas térreas na maioria, no máximo de dois pisos, um emaranhado de paredes brancas e açoteias em vez de telhados.

Nos anos quarenta, a ideia de paraíso de Carlos do Carmo era uma jogatana de bola, 11 contra 11, na areia molhada do que é hoje a praia do CDS. «Mas a partir dos anos oitenta deixei de reconhecer a Caparica», diz.

Chegar de Lisboa à Caparica demorava bem mais de duas horas, daí ser destino das elites – aos pobres faltava tempo e dinheiro para o veraneio. Tomava-se o barco para Cacilhas e depois um autocarro que atravessava Almada, subia e descia montes, até desaguar no centro, junto ao mercado. «A descida a partir daqui era um pesadelo», e o fadista indica com o dedo o percurso que descia dos Capuchos à entrada na povoação, serpenteando a colina por um caminho que já não existe senão na sua memória. Ali, no alto do miradouro, impressiona-se com o que a Caparica foi e com o que ainda consegue ser.

«A história da Costa é a do país inteiro. De um bando de patos bravos e autarcas corruptos que tentaram a determinada altura estragar o país mas de um país que é tão profundamente belo que a tudo isso consegue resistir.» Olhando para o centro urbano veem-se prédios desordenados, nenhuma coerência urbanística. Mas a extensão imensa que rodeia o casco preserva a beleza imaculada da arriba fóssil, tanta duna, tanta mata e tanto mar.

«Se formos a reparar bem, a circunstância da capital portuguesa é única: uma cidade luminosa que tem ao lado uma praia de 20 quilómetros.» Carlos do Carmos dirige-se agora à praia do Dragão Vermelho e espanta-se com o recuo dos bares e restaurantes para trás do passadiço. «Isto era tudo areia e depois havia as barraquinhas na praia. Aqui parava um nadador-salvador que me ensinou a nadar e também aos meus filhos. Um africano que toda a gente conhecia, porque nesse tempo as pessoas conheciam-se todas.» Apesar de ser território estival da burgesia, a Costa sempre foi terra de pescadores. A mistura decorria naturalmente, aos pontapés a uma bola não havia classes sociais.

A partir de meados da década de cinquenta, os pais compraram uma casa. Aqui passava as férias um Carlos do Carmo em plena puberdade, que encontrava nos três meses de descanso vários colegas do Liceu Passos Manuel. «Formámos um grupo de amigos muito engraçado, com gente de várias idades. Eu, a Manuela Rodrigues, o Ferro Rodrigues, a quem chamávamos Fefé.»

Em 1960, com a abertura do Transpraia, o comboio que ainda hoje circula pelas dunas até à Fonte da Telha, aventuravam-se para novos destinos, longe dos olhares adultos. Foram os anos dos primeiros amores, incursões de amigos pela Mata dos Medos, e o fim da tarde em passo de corrida para ainda apanhar aberta a casa que tinha inventado o Claudine, um bolo de massa folhada com creme de pasteleiro que se tornou símbolo da cidade, mas que agora se vende noutras paredes – as originais foram derrubadas.

Passagem pela Rua dos Pescadores, para experimentar a memória provando o doce. O fadista olha em volta e reconhece muita coisa, aqui era a sala de matraquilhos, acolá as bancas das ciganas, mais à frente as mercearias que tinham tudo, «mas mesmo tudo». Ao fundo da rua havia um casino, e foi lá que ele ganhou um concurso de rock’n’roll. «Faziam-se bailes e era o som do momento. Passávamos os dias a ouvir e a dançar rock em casa uns dos outros. Eu, imagine, a dançar rock. Nesse tempo, nesses verões, o fado ainda era uma miragem.»

A mãe, Lucília do Carmo, era fadista. O pai era dono d’O Faia, casa de fados mítica do Bairro Alto. Só depois de o rapaz ter ido estudar para a Suíça e ter tomado conta do negócio paterno é que se aventuraria pela fadistagem, mas na adolescência era rock e depois Frank Sinatra e depois Tony Bennett. «Foi na Costa de Caparica que os descobri a ambos. Um amigo mais velho, que percebia muito de música, trouxe-nos uns discos deles e eu fiquei maravilhado. Tanto um como outro, se virmos bem as coisas, eram fadistas extraordinários. À sua maneira, mas eram fadistas.»

Isto era tudo areia e depois havia as barraquinhas na praia. Aqui parava um nadador-salvador que me ensinou a nadar e também aos meus filhos.

Mesmo quando viveu na Suíça, mesmo quando lançou a voz ao fado, mesmo quando casou, a Caparica continuou a ser o refúgio de verão. «Comprei esta casa nos anos setenta», e vamos lá visitá-la, num bairro de vivendas simpáticas, mas ele prefere que não a fotografemos – já não lhe pertence. A Costa, no entanto, estava a mudar. A Ponte 25 de Abril trazia gente aos magotes, erguiam-se prédios e destruíam-se histórias, mas para todos os efeitos aquela ainda era a melhor praia da Europa, pelo menos aos seus olhos. Os filhos haviam de banhar-se nas mesmas águas. «Com cuidado, que o mar da Caparica sempre foi traiçoeiro.»

Depois começaram a construir-se pontões, triplicou-se a altura dos prédios, abriram-se estradas por cima das dunas. «Fui assistindo à destruição de um lugar lindíssimo e um dia não aguentei mais. As filas e o trânsito, as praias sem areia, gente e mais gente. Aquilo já não era a minha Caparica e decidi ir embora.» Até hoje, nunca tinha voltado a pôr os pés na cidade («já é cidade?»). E fê-lo num misto de deslumbramento e mágoa, vieram-lhe saudades e veio-lhe uma certa conformação.

Há um fado que Carlos do Carmo canta escrito por Pedro Homem de Melo, que o poeta lhe enviou uma mão-cheia de vezes por carta convidando-o a cantá-lo. «Eu nunca percebi a letra dele, nem sequer o remetente, por isso não liguei. Um dia ele disse-me que me tinha escrito um fado e eu, envergonhadíssimo, musiquei-o imediatamente.»

A letra começava assim: Aquela praia ignorada, aquela praia-contraste, entre a liberdade e lei. E agora o fadista lembra-se de um areal onde havia um regime que vigiava conversas e medidas de fato de banho, mas onde era permitido descobrir amores e rock e Sinatra. E então essa praia ignorada, essa praia-contraste, era a Costa de Caparica.

«Vai ser bonito, vai»

Ao início teve dúvidas, «que raio vou eu fazer num festival?». Mas Carlos do Carmo aceitou o repto, vai tocar no segundo dia do festival Sol da Caparica, que dura de 10 a 13 de agosto. Entre os artistas que sobem ao palco estão nomes como Matias Damásio e Manuel Cruz, HBM e Criolo, Os Tubarões e Carlão. «Eu toco na mesma noite que os Xutos & Pontapés
[11 de agosto]. Gosto muito deles, muito mesmo, mas fico aqui a pensar que são públicos muito diferentes, com expectativas muito díspares. Mas bem, o meu filho, que é meu agente, convenceu-me com o argumento da diversidade. Vai ser bonito, vai.»

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