OPINIÃO

A moda africana vem passar o fim de semana a Lisboa

Sábado e domingo, 21 e 22 de janeiro, a segunda edição da MODAAFRICA vai fazer desfilar as criações de designers africanos no Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico. São quinze os criadores que irão apresentar as suas propostas para 2018, num evento que pretende ser um retrato da criatividade africana. Sofia Vilarinho é a mentora […]

Sábado e domingo, 21 e 22 de janeiro, a segunda edição da MODAAFRICA vai fazer desfilar as criações de designers africanos no Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico. São quinze os criadores que irão apresentar as suas propostas para 2018, num evento que pretende ser um retrato da criatividade africana.

Sofia Vilarinho é a mentora da MODAAFRICA – Et(h)nical Fashion Week, um evento que teve a sua primeira edição em 2015 e que se afirma como uma plataforma de marketing e comunicação da criatividade africana. O interesse de Sofia pela moda daquele continente começou no doutoramento que dedicou à análise do pano africano e através do qual descobriu um sistema de moda completamente diferente dos ciclos que lhe tinham sido apresentados na faculdade.

As grandes diferenças prendem-se sobretudo com o trabalho artesanal e com o processo e o espaço criativo, explica Sofia: «A primeira grande diferença é que a moda é muito mais exposta do que na Europa. Em África, vemos os alfaiates a criar na rua, o que dá origem a uma moda muito mais de streetwear e para as pessoas. Assistimos a um processo criativo ao ar livre que é fascinante, o nosso é muito mais fechado nos ateliês. Mas também tem um lado muito cosmopolita porque os estilistas viajam muito, compram panos noutros países dentro e fora de África, aí percebemos que não é um sistema tão local nem atrasado em relação à Europa. Para além disso, a moda africana traz muito essa ideia de sustentabilidade: está muito virada para as comunidades, com a roupa a ajudar ao desenvolvimento das comunidades desfavorecidas e os materiais a tenderem também a ser mais naturais ou reciclados.»

Uganda, Quénia, África do Sul, Namíbia, Moçambique, Angola e Costa do Marfim são alguns dos países representados nesta edição da MODAAFRICA, que assim consegue retratar a diversidade criativa do continente, que se percebe através dos acabamentos artesanais e elementos simbólicos aplicados à roupa. Mas nem todos os designers que desfilam no próximo fim de semana em Lisboa vêm de longe. Exemplo disso são Irina Diniz Ferreira, fundadora da Ikilomba, Sandra Bravo da Rosa Luís, criadora da marca Joan Auguni, e a estilista Lubetina Mak, que estão sediados na capital portuguesa apesar das suas origens africanas.

Além da divulgação dos criadores da moda africana com maior destaque internacional, estes dois dias têm também como objetivo dar visibilidade ao projeto social Atelier de Alfaiates Africanos (AAA), que visa dar formação e apoio aos alfaiates africanos imigrados em Portugal. Uma iniciativa que teve início há seis anos, como explica Sofia Vilarinho: «O AAA começou desde 2011 com uma parceria com o Modatex. Faz um trabalho de formação, com um grande respeito pela cultura e pelo conhecimento destas pessoas, que são alfaiates desde a infância. Criámos um sistema de educação em que todos aprendemos, com uma grande partilha cultural e de métodos para fazer roupa. Dos vinte alfaiates formados, tivemos cinco que
conseguimos legalizar e fazer que encontrassem emprego na área da moda.»

Para apoiar esta iniciativa os visitantes da MODAAFRICA podem fazer um donativo, que reverterá para a compra de materiais e para a criação de melhores infraestruturas para o projeto. Uma iniciativa que mais uma vez destaca o caráter sustentável da moda africana que será apresentada de forma abrangente mostrando que o sistema de moda africano é tão global como o europeu e o oriental.

Margarida Brito Paes
Fotografia Paulo Alexandrino/Global Imagens