Mil quilómetros na Amazónia

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Durante um mês, quatro portugueses desceram o Beni, um isolado rio da Amazónia boliviana, num pequeno barco, ao longo de mil quilómetros.

Durante um mês, quatro portugueses desceram o Beni, um isolado rio da Amazónia boliviana, num pequeno barco, ao longo de mil quilómetros. Em total autonomia, atravessaram, durante a época das chuvas, uma das mais inóspitas regiões do globo. O objetivo: documentar o quotidiano das populações ribeirinhas. O livro dessa aventura chegou agora às lojas.

Sob uma chuvada torrencial que caía do céu escuro, tornando o fim da tarde ainda mais sombrio, o pequeno barco dirige‑se para a margem onde apenas se vislumbra a maciça parede verde da selva tropical. Entre uma apreensão crescente e olhares de soslaio para Eddy, o nosso «comandante», acostamos com um solavanco na barreira lamacenta. O suor colava a roupa ao corpo, o que não facilitava os movimentos. «Hoje dormimos aqui!» Ali, no meio do nada, sem qualquer presença humana num raio de dezenas de quilómetros, a confiança que havíamos depositado no boliviano de bigode ralo e tez escura seria posta à prova, enquanto, em meia hora, montava de improviso um acampamento na clareira recém-aberta à catanada.

Os planos começaram uns meses antes. Eu, o Tiago Costa e o Inácio Rozeira, três viajantes de diferentes origens mas unidos pela colaboração como líderes na agência de viagens de aventura Nomad, encontramo‑nos várias vezes para tentar perceber o que encontraríamos se nos lançássemos na aventura de atravessar a Amazónia de barco, fora dos circuitos turísticos habituais, ao longo de um mês. O objetivo seria documentar em fotografia, vídeo e texto o quotidiano das populações ribeirinhas num projeto multimédia (www.nomad.pt/amazonia). Queríamos mostrar não a realidade folclórica das piranhas ou dos índios, mas a vivência de pessoas normais, tenazes, que sobrevivem num ambiente hostil, sob o inclemente clima dos trópicos. O foco estaria num rio na Bolívia, de que ouvíramos falar em tempos, o Beni, que cruza grande parte da floresta amazónica boliviana, de sul para norte. O Google Earth não nos mostrava mais do que esparsos telhados à beira da água, conjuntos de 15 a 20 casas. As informações na Internet eram escassas e vagas. Fizemos contas de merceeiro quanto à duração da viagem, com três ou quatro dias de margem para algum imprevisto.

No tramo boliviano encontrámos um paradigma social difícil de imaginar nos dias de hoje: a moeda não surge no dia‑a‑dia, rede elétrica não existe, não há água potável ou saneamento, rede de telemóvel e internet são miragens e os cuidados médicos são escassos – cruzamo‑nos apenas com um médico, uma enfermeira e um polícia! A caça e a pesca são ainda fundamentais.

A viagem começou em Rurrenabaque, já em plena Amazónia. Precisámos de quatro dias para encontrar o barco, o guia e acertar o preço da viagem (que rondou os 800 euros), comprar 500 litros de gasolina contornando o sistema (é proibido comprar tanto combustível de uma só vez), água, comida, um gerador para alimentar os carregadores dos computadores e das baterias, caixas estanques para proteção do material eletrónico, além da bagagem propriamente dita – o que culminou numa carga de 1,5 toneladas.

Navegávamos seis a sete horas por dia, até escolher uma aldeia onde acampar. Por causa dos mosquitos dormíamos sempre dentro de tendas, mesmo que montadas sob um teto. Assim que desembarcávamos fazíamos uma ronda rápida pela aldeia, num primeiro contacto com os habitantes, e depois desenvolvíamos os conteúdos – fotografia, filmagens e entrevistas, com captação de áudio. Cada um tinha tarefas bem definidas: o Inácio era o responsável pela logística, fazendo também de relações-públicas do grupo, o Tiago estava encarregue do vídeo, o Eduardo Gomes Madeira (que se juntou inesperadamente ao grupo na véspera, em La Paz, enquanto fazia uma longa viagem de dez meses pela América do Sul) tratava da recolha de informação, entrevistas e textos. Eu fotografava. O Eddy, ajudado pelo Juan Pablo, o marinheiro‑cozinheiro que nos acompanhou, cozinhava.

Os almoços eram no barco, pelas 12h00, em movimento, à base de saladas e alimentos frios… lavados no rio, barrento, das chuvas, claro! A verdade é que nenhum de nós teve problemas. À noite, com duas botijas de gás e um velho fogareiro, comíamos pratos quentes, nos primeiros dias baseados em carne – mantida graças ao gelo guardado em espessas caixas de esferovite – e que progressivamente se tornaram mais espartanos, com massa e tomate, para o final. As bananas estavam sempre presentes, mas não encontrámos a variedade esperada de fruta ao longo da viagem. Não havia lojas em todo o percurso e só muito perto do destino encontrámos uma espécie de mercearia, pelo que todos os mantimentos tiveram de ser levados no barco. O risco de não os encontrar era grande, pelo que nos preparámos para viajar em total autonomia: connosco seguiram oitenta litros de água potável, massa, arroz, farinha, laranjas, couves, batatas, 48 ovos, várias galinhas. E 72 cervejas!

De todas as localidades onde parámos, Puerto Cavinas talvez tenha sido a mais interessante. Encavalitada numa falésia de argila, contava com um insólito edifício: um quartel da marinha boliviana. Nada de mais, não fosse o país não ter mar! Mas fomos ali recebidos pelo alferes Flores, um jovem de 25 anos que tinha a seu cargo 12 recrutas e era encarregue do vídeo, o Eduardo Gomes a única autoridade em mil quilómetros de rio. Acolheu‑nos no aquartelamento na noite mais confortável de toda a viagem, com direito a ver filmes em DVD pirateados numa televisão alimentada por um painel solar!

Nessa tarde, porém, conhecemos a pessoa mais marcante desta longa viagem. Ricardo, médico criado e formado na capital e que para ali fora por opção, tinha um sentido de missão muito claro. Construíra o único centro de saúde digno do nome na zona, fazendo magia com tão poucos recursos. Soubemos por ele, mais tarde, que poucos dias depois da nossa passagem toda a região tinha sido castigada por chuvas fortíssimas que destruíram casas, plantações e desalojaram centenas de pessoas.

 

MIL E QUINHENTOS QUILOS DE CARGA

• 500 l de gasolina

• 80 l de água potável

• 48 ovos

• 72 cervejas

• Várias galinhas

• 1500 kg de carga total

• 1 gerador para carregar máquinas

e portáteis

• 4 jornalistas

• 2 tripulantes

• 2500 euros: custo total por pessoa. Lisboa – La Paz – Manaus – Belém – Lisboa, incluindo voos

• 6 meses de preparação

• 1 mês de travessia total

• 5000 fotos

• Centenas de GB de filmagens

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