OPINIÃO

No mar ou no rio, conheça os seus limites

Os perigos existem, os afogamentos acontecem, todo o cuidado é pouco. Não vire as costas ao mar, frequente praias vigiadas, não subestime as correntes do rio. Falámos com o diretor do Instituto de Socorros a Náufragos sobre as principais precauções que devemos ter quando vamos a banhos.

Texto de Sara Dias Oliveira

A época balnear já começou e todo o cuidado é pouco: não vire as costas ao mar, olhos bem abertos nos passeios à beira da água, sobretudo na areia molhada, nadar paralelamente ao areal se for apanhado por um agueiro, atenção às correntes dos rios. Não arrisque, não facilite. No caso das crianças, máxima atenção. E frequente sempre praias vigiadas.

Portugal tem 118 quilómetros de praias vigiadas, 482 quilómetros não vigiados, e mais de 5300 nadadores-salvadores certificados, que todos os anos têm uma responsabilidade grande – até ao fim de setembro são esperados 75 milhões de visitas às nossas praias, 63 milhões de portugueses, 12 milhões de turistas.

Falámos com o diretor do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN), o Capitão de Mar e Guerra Paulo Sousa Costa, sobre cuidados a ter, vigilância, formação, afogamentos. A instituição, que completou 125 anos em abril, será condecorada com a Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços prestados.

Paulo Tomás de Sousa Costa, Capitão de Mar e Guerra, director do Instituto de Socorro e Náufragos (ISN).

«As pessoas, muitas vezes, arriscam e devem conhecer os seus limites», avisa o diretor do ISN. Ir ao mar ou ao rio sabe sempre bem, mas cada pessoa deve conhecer os seus limites. Se sabe ou não sabe nadar. Até onde pode ir. Isso é fundamental. Se o mar não estiver propício a umas braçadas, se as correntes do rio estão fortes, então o melhor é ficar em terra. Não convém arriscar e pôr o pé na água.

Outro aviso: «Nunca se deve virar as costas ao mar e sobretudo não caminhar descontraidamente nas zonas onde a areia está molhada porque se está molhada a onda foi lá», diz o responsável. Se há um golpe do mar, se não nada bem ou não se sente confortável na água, é meio caminho andado para um acidente. No caso das crianças, todos os olhos são poucos. Não conhecem os perigos, os pais podem distrair-se, e basta um segundo para irem para a borda de água e serem apanhadas por uma onda. Vigilância permanente nos mais pequenos.

«Nunca se deve virar as costas ao mar e sobretudo não caminhar descontraidamente nas zonas onde a areia está molhada porque se está molhada a onda foi lá.»

Nas praias, é preciso especial atenção aos agueiros, essas correntes de retorno perigosas que é conveniente evitar. Se olhar para o mar e localizar uma área em que a água está com uma cor mais acastanhada, é sinal de que há ali zonas de correntes que revoltam a areia. Nesses locais, há fundões, declives maiores, fica-se rapidamente sem pé, é-se puxado pela corrente. «A primeira tendência é começar a nadar contra a corrente para vir para terra, o que é um erro. É preferível descontrair, boiar, deixar-se ir e tentar nadar paralelamente à praia para sair dessa zona do agueiro. Depois de sair dessa corrente pode nadar calmamente para a praia», diz Paulo Sousa Costa. «Muitos dos acidentes mortais nos agueiros acontecem exatamente por isso, porque as pessoas tentam lutar contra a corrente, o que é um erro crasso.»

Outro conselho importante: frequentar praias vigiadas. Sem nadadores-salvadores por perto, está por sua conta e risco. Nos rios, já se sabe, de um momento para o outro, perde-se o pé e a corrente não dá tréguas. Não deve nadar junto às barragens por causa da abertura das comportas que provocam correntes mais fortes e puxam quem estiver na água. E o lodo que se acumula no leito pode ser traiçoeiro. «Muitas vezes, nas praias fluviais, uma pessoa anda três ou quatro metros, uma coisa mínima, e afunda logo, perde o pé muito rapidamente», avisa o diretor do ISN. «É impossível pôr um nadador-salvador atrás de cada pessoa», sublinha.

Portugal tem 899 unidades balneares vigiadas e 281 não vigiadas. São 118 quilómetros de praias vigiadas e 418 quilómetros não vigiados. Há uma portaria que define o início da época balnear, que difere de praia para praia, de zona para zona. No Sul, começa mais cedo normalmente a 15 de maio, no Norte é mais tarde, a 15 de junho (regra geral arranca a 1 de junho), e pode terminar no final de setembro ou esticar um pouco mais. Isto tem uma explicação. «A frequência das nossas praias não é igual em todo o país.»

«Muitas vezes, nas praias fluviais, uma pessoa anda três ou quatro metros, uma coisa mínima, e afunda logo, perde o pé muito rapidamente.»

Nesta altura do ano, os afogamentos voltam à ordem do dia. O diretor do ISN diz que é preciso tratar bem a informação e perceber do que se fala. «Desde que começou a época balnear, em praias vigiadas temos zero mortes. De facto, morreram vinte pessoas antes da época balnear, desde janeiro até agora.» Ou seja, antes de haver nadadores-salvadores nas praias. No ano passado, na época balnear, morreram quatro pessoas em praias vigiadas e nove em não vigiadas. Há dois anos morreu uma e há três anos também uma em zonas vigiadas. Com 75 milhões de visitas às praias, os números mostram que o sistema funciona, defende o diretor do ISN.

segundo o diretor do ISN Portugal precisa, em números redondos, de cerca de dois mil nadadores-salvadores e tem neste momento 5332 nadadores certificados. As certificações têm a validade de três anos, muitos nadadores são estudantes que exercem a atividade um ou dois verões. Segundo a lei, a contratação é da responsabilidade dos concessionários de praia. Onde não há concessões, não há nadadores-salvadores, embora alguns municípios entendam que ter vigilância nas suas praias é bom para o turismo e asseguram esses serviços.

A lei prevê dois nadadores-salvadores por 100 metros de praia e mais um nadador por cada 50 metros. Ou seja, uma praia com 150 metros tem de ter três nadadores-salvadores. Mas pode haver uma redução deste número. Os concessionários podem juntar-se e proporem um plano integrado de salvamento ao capitão de porto. A proposta é remetida ao ISN que emite um parecer vinculativo. Nalguns casos, é então possível reduzir o número de nadadores-salvadores naquela praia.

Em Portugal, a formação dos nadadores-salvadores é feita em escolas privadas. Para exercerem a atividade têm de fazer o exame específico de aptidão técnica, feito pelo ISN. Se passam recebem o cartão de nadador-salvador e estão aptos.

Como sobreviver a um agueiro

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