Como educar as crianças para o otimismo?

Magda Gomes Dias, especialista em educação positiva, diz-lhe o que fazer e a importância de se criar miúdos otimistas.

Texto de Ana Pago

O que é o otimismo?
Há quem diga que é a nossa capacidade em ver o copo mais cheio ou mais vazio. Depois, há quem nos diga que temos de esperar o melhor das coisas e olhar para elas de forma positiva. E há aqueles que nos aconselham a acreditar com muita força que as coisas boas virão. Só que o otimismo não é nada disto. Se fosse, era fácil: bastar-nos-ia ter uma postura inerte e tudo aconteceria na mesma. Um otimista é aquele que, tendo fé no futuro, acredita que todos os dias são uma nova oportunidade.

E que ele próprio saberá tornar esse dia numa nova oportunidade?
Com as suas ações e palavras, sim. Ser-se otimista é também uma escolha – e isso é determinante porque nos ajuda a encontrar pontos positivos numa experiência negativa e encará-la, por si só, como uma aprendizagem. Finalmente, acredito que o verdadeiro otimista tem um profundo conhecimento de si. Não vai cair em crenças sem fundamento, nem dar um passo maior do que a perna.

Todos nós nascemos com um certo nível de contentamento? Ou, pelo contrário, de tendência para a depressão?
Sabe-se hoje que a depressão é hereditária, por isso é válido dizer que nascemos com um certo nível de contentamento mais ou menos elevado. Contudo, não é isso que nos define e sim a nossa atitude, o nosso livre-arbítrio em relação ao que nos acontece. Sonja Lyubomirsky, que é uma das investigadoras mais proeminentes na área da felicidade e do otimismo, diz no seu livro The How of Happiness (Como Ser Feliz – A Receita Científica Para a Felicidade, ed. Pergaminho) que 50 por cento têm carga genética, são herdados. Há ainda 40 por cento de intenção/atitude, ou seja, todo um mundo a explorar, e apenas 10 por cento dependem das circunstâncias.

Pais otimistas, crianças felizes? Ou não é bem assim?
Não é necessariamente assim. Podemos não nascer otimistas e tornarmo-nos pessoas positivas, mas isso dependerá, como já disse, da sorte – de termos uns pais que nos ajudem a elevar-nos – e da nossa atitude. Está provado que se eu quero ser mais otimista e feliz, uma das atitudes urgentes a desenvolver é o sentido de gratidão. Vou aprender a olhar para as coisas por um outro prisma, a alargar a minha flexibilidade cognitiva. É importantíssimo para o crescimento humano.

Como se educa um filho para o otimismo quando os próprios pais se mostram bastante pessimistas a encarar a vida?
Os pais precisam, também eles, de alargar a sua flexibilidade cognitiva e tornarem-se atores principais da sua vida. O povo diz, e bem, que viver não custa, custa é saber viver, e um otimista é-o por escolha e decisão. Sublinho que não nascemos otimistas, mas temos tanta margem para aprender que seria uma pena se não o fizéssemos. Ainda assim, parece haver um ponto positivo em ser-se pessimista – pelo menos um bom pessimista, que é aquele que acha que tudo pode correr mal e, portanto, irá explorar todos os pontos de uma questão para que tal não aconteça. Pelo contrário um mau pessimista, se é que podemos usar esta expressão, nunca fará nada porque imagina à partida que vai correr mal.

Preocupamo-nos com a escola, os deveres, as atividades extracurriculares, e nem nos apercebemos de como uma boa dose de otimismo faz maravilhas pelas nossas crianças. O que não estamos a fazer enquanto educadores – e devíamos?
Estamos a focar-nos nas matérias e não no desenvolvimento das pessoas que temos em sala. Não olhamos para o potencial delas, o qual não se resume a letras e números, ainda que sejam uma parte importante. É urgente trabalharmos competências sociais e emocionais na escola – voltar atrás para apanhar o papel que deixámos cair, ou ajudar um aluno a integrar-se porque é novo – e podemos fazê-lo a todo o momento, não precisamos de uma disciplina específica para isso. Poderíamos trabalhar a capacidade de adaptação, dar mais autonomia aos miúdos para desenvolverem projetos da forma que entenderem. Se não complicarmos, estas soft skills são aprendidas – logo, também ensinadas – de forma quase subliminar. Tenhamos nós, gente grande, olho e atenção para o fazermos.

Há espaço para críticas também?
Por que razão não haveria? Confunde-se otimismo com facilidade e com a capacidade de se ver tudo pelo lado mais positivo, mas acontece que por vezes ele não existe. As críticas – ou observações, como prefiro chamar-lhes, a palavra «crítica» tem um tom muito negativo – são o inicio da resolução. Um otimista olha para a situação e pensa: «Bom, isto é o que é. Agora vamos lá ver o que podemos fazer para solucionar, prevenir, remediar.»

De que serve às crianças serem otimistas?
Diz que ficamos mais protegidos e vivemos mais tempo – há uma ligação entre a fortificação do sistema imunitário de um otimista e a prevenção de certas doenças, nomeadamente as coronárias. Temos mais amigos, melhores empregos, até mais dinheiro. Como assim, perguntam? Ninguém quer pessoas muito pessimistas no seu trabalho e os otimistas têm uma energia que contagia outros. Não têm medo de correr riscos nem de se aventurarem em novos projetos. E por isso vão crescendo no contexto laboral, eventualmente com uma remuneração superior. Ainda assim, um otimista é feliz com o que tem.

Existe o risco de se poder ser demasiado otimista?
Existe o risco de não se ser um verdadeiro otimista, como expliquei anteriormente. Então aí corremos o risco de dar frequentemente tiros nos pés.

E agora que já nos ensinou como criar filhos felizes, o que é que eles podem ensinar-nos também em matéria de confiança?
Temos sempre muita coisa a aprender uns com os outros: no caso dos miúdos, trazem-nos uma contínua capacidade de encanto pela vida. Estão no presente, vivem intensamente o momento. Neste ponto, lembro-me sempre da máxima carpe diem do filme O Clube dos Poetas Mortos, aquela expressão seize the day que significa aproveitar o dia como se não houvesse amanhã. As crianças têm a capacidade de passar rapidamente a outro assunto quando resolvem uma situação menos positiva.

 

6. DÊ OPÇÕES ÀS CRIANÇAS

Permita-lhes escolher e ensine-as a assumir as consequências das suas decisões, sejam elas boas ou más.

5. INCENTIVE-LHES A CRIATIVIDADE

Deixe-as dar largas à imaginação com diversos materiais e brincadeiras, e elogie o resultado. Os bons resultados na vida começam porque os pais aplaudiram os seus primeiros rabiscos num papel, os desenhos que se seguiram, a atenção com que viam um livro.

4. EXIJA E CONFIE NO SEU FILHO

Ensine-o a distinguir entre um favor que lhe pede e uma ordem a cumprir, elogiando o que faz bem sem enfatizar os erros. Muitas vezes, na relação entre pais e filhos, as palavras de uns não significam o mesmo aos ouvidos dos outros. Acima de tudo, para ajudar um filho é preciso perceber o que está a sentir, o que faz e porquê. Sem excessos de preocupação, que também não ajudam à mudança dos mais novos.

3. SEJA MAIS POSITIVO DO QUE NEGATIVO

Diga (e mostre) com frequência às suas crianças que lhes valoriza as qualidades, elogiando-as diante de terceiros. Nunca diga a um filho que é imaturo, irresponsável, desajeitado, inútil, desastrado, alguém em quem não se pode confiar e que nunca vai ser ninguém. Além de passar a impressão de que os pais estão a desistir dele, são atitudes que desmotivam e o fazem crer que a sua falta de eficácia nunca terá solução, por mais que tente.

2. ESCUTE

Ainda que diga coisas sem grande sentido ou se disperse, está provado que as crianças mais otimistas aprenderam a ser ouvidas nas suas opiniões e a serem interpeladas com seriedade pelos adultos. Peça ao seu filho que fale abreviadamente de algo que viu (um filme, uma brincadeira, uma ida a qualquer lado) e incentive-o a contar histórias.

1. DÊ O EXEMPLO

Mais do que falar, é esta a melhor forma de mostrar às suas crianças e jovens aquilo que espera deles, e de eles verem que é possível consegui-lo sem dramas. Os filhos aprendem quem são e como são na relação com os outros. A relação com os pais, em particular, assegura-lhes os limites e referências que os apoiam nas mudanças.