OPINIÃO

A longínqua província de Śhimadzu

O que o fez decidir-se, e por muito estulto que pareça, foi, todavia, algo tão diminuto como um insecto – mais concretamente uma bela abelha operária, de um amarelo saudável e muito vivo, que teve o atrevimento de picar o senhor plenipotenciário da propriedade em cujo espaço aéreo se achava a voar, em flagrante arroubo de desrespeito e desafio à única autoridade do lugar.

Quando Matthias Razumnov adquiriu por um preço módico a propriedade rústica em Brołjastinę, província de Śhimadzu, não havia ainda decidido que destino dar aos trinta hectares devolutos e invadidos por mato bravio. Coçou o cocuruto da cabeça um par de vezes enquanto caminhava entre as silvas, esfregou o queixo e apertou o nariz sem que alguma ideia lhe ocorresse.

O que o fez decidir-se, e por muito estulto que pareça, foi, todavia, algo tão diminuto como um insecto – mais concretamente uma bela abelha operária, de um amarelo saudável e muito vivo, que teve o atrevimento de picar o senhor plenipotenciário da propriedade em cujo espaço aéreo se achava a voar, em flagrante arroubo de desrespeito e desafio à única autoridade do lugar.

Ágil e possesso, Matthias esborrachou com um só golpe a abelha no pescoço, espalhando na epiderme o que ainda restasse da dolorosa apitoxina. Só depois deu um urro que decerto foi escutado nas propriedades vizinhas e talvez na província de Depieniężne. Conteve-se, porém, quase imediatamente, creio que por temer atrair a atenção de algum ecologista que pudesse andar nas imediações e escandalizar-se pelo inopinado e violentíssimo assassinato da abelha.

Foi esse o momento, posso asseverá-lo, em que Matthias Razumnov deliberou constituir na propriedade, ainda erma, um reino só seu e muito perfeito, onde não houvesse lugar para ecologistas nem abelhas, já para não falar de todos os outros aborrecimentos provocados pela livre circulação de pessoas e bens.

Se bem o pensou, melhor o fez: mandou vir um bispo e ali mesmo, entre duas árvores descarnadas, jurou a Bíblia e a origem divina do reino acabado de nascer. Ainda o clérigo não tinha desaparecido entre as colinas e já Matthias Razumnov decidira demarcar rigorosamente os limites soberanos do reino, erguendo nessa fronteira uma cerca electrificada e capaz de emitir ondas magnéticas que afastassem todos os indesejados, incluindo as abelhas.

Edificou depois um muro de pedra rija colado à cerca, cuidando de não deixar brechas por onde os curiosos pudessem espreitar e invejar. Só quando terminou o trabalho, unindo o último troço do muro ao que primeiro tinha erguido, Matthias reparou que tinha ficado preso no lado de dentro do seu reino.