OPINIÃO

Ao contrário do fim

Na praia da minha infância havia uma loja pequena em que os biquínis e o cheiro a protetor solar se misturavam com livros. Não era sequer uma livraria, mas um cruzamento inesperado entre mar, areia e letras. No primeiro verão em que já sabia ler, os meus pais compraram-me um livro d’Os Cinco, convencidos de […]

Na praia da minha infância havia uma loja pequena em que os biquínis e o cheiro a protetor solar se misturavam com livros. Não era sequer uma livraria, mas um cruzamento inesperado entre mar, areia e letras. No primeiro verão em que já sabia ler, os meus pais compraram-me um livro d’Os Cinco, convencidos de que aquela imensidão de linhas impressas me manteria ocupada ao longo de todas as férias. E foi a imaginar o que seriam scones, a desenhar o Tim à minha medida e a desejar viajar para uma ilha que me fiz devoradora de livros.

Nessa altura tinha um vício sempre que iniciava uma leitura. Virava o livro ao contrário, para verificar o número de páginas e ler o último parágrafo. Como se o princípio tivesse sempre de abrigar a inquietação com o fim. Acontecia as últimas frases desvendarem demasiado ou desiludirem. Acontecia enganar-me com o que imaginava ter lido. Acontecia fazer cálculos sobre o tempo que demoraria a ler. Pensava que a paixão com que virava as páginas nada perdia com o rigor matemático das contas aos livros que tinha pressa em conhecer. A cada novo verão fazia listas dos autores que haveria de tratar por tu durante as férias. E fazia questão de as cumprir religiosamente.

O tempo, quando somos miúdos, tem uma elasticidade absoluta. Temos pressa de crescer, porque achamos que a vida só vai realmente começar quando formos grandes. Vamos ser ousados, criativos, profissionais de sucesso, felizes e sem o cinzentismo que vemos nalguns adultos à nossa volta. Vamos saber mais, viajar muito, aproveitar os mundos abertos pela ciência e tecnologia. Um dia.

Quando se insiste no fim, é difícil interromper o caminho. Durante décadas, não me lembro de desistir de um livro. Se o tinha agarrado como meta, não haveria de o deixar cair. Quanto menos gostava, mais acelerava o ritmo. Como um profissional metódico que despacha as tarefas chatas para não deixar que elas afetem a produtividade. Porque a seguir acertaria na obra que me encheria as medidas. Um dia. Depois.

O tempo perde elasticidade à medida que o acumulamos. Não apenas porque o nosso ritmo de vida se tornou mais acelerado e passamos os dias a correr. Mas porque começamos a perceber que somos finitos. As comunicações são cada vez mais imediatas, já podemos dar a volta ao mundo em poucas horas, somos bombardeados com notícias e palavras, tudo em redor grita opiniões e juízos rápidos. O vórtice da aceleração torna o instante um bem escasso.

Aprendemos a ler quando não interessa antever o fim. Quando sentimos o prazer de saborear cada palavra. Descobrimos que podemos parar se o livro não nos estiver a encher as medidas. Que não há um caminho único para a leitura e se pode entrar na página que mais apetecer. Ou recuar e avançar à medida da vontade. Por mais infinita que seja a literatura a que nunca chegaremos, não há nada de desperdício em repetir e voltar aos livros que nos dão abrigo. Ou às frases que nos criam raízes.

Aprendemos que pode haver mais poesia numa página do que em 300. Que temos de ser nós a sentir as histórias – não o que nos dizem as críticas e recomendações. Que os bons livros ressoam na nossa cabeça, no nosso corpo, na nossa alma. Dentro de nós.

Levamos a vida toda à procura das palavras certas, num mundo cada vez mais cheio delas, mas o raro é encontrar palavras nossas. Nos livros, como na vida, só há caminho. Mas a sabedoria que nos ensina a gozá-lo chega devagar.

[Publicado originalmente na edição de 12 de março de 2017]