OPINIÃO

Lisboa é chinesa

A capital portuguesa foi tomada para as celebrações da chegada do Ano do Galo. Até domingo, há festa no Largo do Martim Moniz, a maior de sempre da comunidade chinesa.

A capital portuguesa foi tomada para as celebrações da chegada do Ano do Galo. Até domingo, há festa no Largo do Martim Moniz, a maior de sempre da comunidade chinesa. História de um desfile, da multidão que veio vê-lo passar e de como o amor a uma cidade pode ser pronunciado nos mais inesperados sotaques.

Pum, pum, pum, pum, e os 17 tambores começam a marcar o ritmo aos passos. Splash, splash, um miúdo intercala esse ritmo com um som mais agudo, batendo dois pratos metálicos um no outro. Ding, ding, ding, e o som dos braços de três raparigas a agitarem-se para fazerem soar pequenos sinos. Ainda o cortejo não arrancou e já a batida ecoa pela avenida Almirante Reis, em Lisboa. São quase onze da manhã de sábado e, daqui a minutos, a comunidade chinesa vai desfilar rua abaixo. É a festa mais importante do ano, e é a maior de sempre na capital portuguesa. Uma mulher dá a palavra de ordem, e os grupos avançam ordenados. É agora. Arrancou o Ano do Galo.

Oficialmente, a passagem de ano só acontece no próximo fim de semana. «Mas esta época marca o maior êxodo humano do planeta. Milhões e milhões de chineses no exterior regressam a casa para visitar as famílias e, por isso, decidimos antecipar as celebrações uns dias», diz Shu Jianping, conselheiro cultural da Embaixada da China e organizador do evento. «Não queremos deixar de celebrar a nossa tradição com os portugueses, que nos acolhem maravilhosamente. Esta é uma festa de toda a gente. Mais do que quererem mostrar-se, os chineses querem misturar-se.»

À cabeça do cortejo seguem os músicos, e logo atrás deles cinco figuras de animais míticos, cada uma precisa de dois dançarinos para funcionar. Um é verde, outro rosa, mais um vermelho, um azul e outro amarelo. Rodopiam levantando e baixando as cabeças, numa coreografia ordenada e colorida. Depois há um buraco e vem a estrela da festa. Um enorme dragão, manipulado por 19 homens com varas de madeira. A cada centena de metros, param e cumprem uma corrida estudada, fazendo a figura circular, erguer-se ameaçadoramente e depois cair sobre o público, como um animal em plena emboscada. Um grupo de miúdos distribui papéis, cachecóis e balões. «Feliz Ano Novo, Feliz Ano Novo» e a avenida está a tornar-se uma festa.

Já os primeiros grupos estão a chegar ao Martim Moniz e ainda há conjuntos a largar da Igreja dos Anjos, o ponto de partida. É quase um quilómetro de China a tomar uma das principais ruas da capital.

Portugueses, muitos, nepaleses e paquistaneses juntam-se para ver passar o Império do Meio a partir dos passeios – e pode contar-se a audiência por uns largos milhares, sobretudo famílias. Atrás da dança do dragão as entidades oficiais, e depois crianças e mais crianças. Há doze vestidas de animais, uma por cada signo do zodíaco chinês. Há uma série de crianças mascaradas de galo. Há homens e mulheres com vestes tradicionais, e vão cantando à medida que palmilham o alcatrão. De repente, dois ranchos folclóricos bem portugueses, minhotos e pescadores da Figueira da Foz no meio dos olhos em bico. «Fomos convidados pela comunidade chinesa», diz uma noiva de Viana, «um dia também haveremos de ir à China mostrar a cultura portuguesa.»

Lisboa, 21/1/2017 - Tomás Trindade, Chen Shi qiang e Dinis Penedo no final do desfile de comemoração de ano novo chinês entre a Avenida Almirante Reis e o Martim Moniz. No próximo dia 28 de Janeiro comemora-se a entrada no novo ano chinês, a mais longa e importante festividade do calendário lunar. Este será o ano do Galo de Fogo. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
Tomás Trindade, Chen Shi Qiang e Dinis Penedo

Tomás Trindade e Dinis Penedo têm 14 anos, são ambos de Odivelas. Estão no nono ano e, juntamente com Chen Shi Qiang, formam um trio de amigos inseparável. «Conhecemo-nos na escola, gostávamos dos mesmos jogos de computador e andamos sempre juntos», explicam os portugueses. «Estamos sempre em casa uns dos outros e, quando o Chen disse para virmos à festa da comunidade deles, juntámo-nos.» O chinês ri-se e atira-lhes num português perfeito: «Só vieram porque não tinham nada melhor para fazer.» Mas depois conta que tem muito orgulho na sua cultura e faz questão de mostrar isso aos companheiros. «Também gosto quando vêm jantar a minha casa e podem comer comida chinesa tradicional, por exemplo. Da mesma maneira, quando vou à China, falo das tradições e da maneira como os lisboetas gostam da vida. Aqui sou chinês, lá sou português.»

A procissão ainda vai no adro. Centenas de alunos da Escola Chinesa de Lisboa caminham agora pela avenida, e depois ainda hão de vir associações de amizade dos dois países. O governo chinês apostou forte nas celebrações em Portugal e enviou para o outro lado do mundo um enorme grupo de alunos da Escola Secundária Pui Ching, de Macau, além de uma companhia de Ópera Wu, que atuarão no domingo no palco montado no Largo do Martim Moniz. «Há uma equipa a gravar esta festa para a CCTV e o que está a acontecer em Portugal vai passar no maior canal de televisão do mundo. Neste momento, há mais de 400 festas do Ano Novo Chinês em 130 países do mundo. Lisboa tem o sexto maior festejo na Europa», diz Jianping, o homem que montou o evento.

Lisboa, 21/1/2017 - Shen Dianping, conselheiro cultural da embaixada da China no final do desfile de comemoração de ano novo chinês entre a Avenida Almirante Reis e o Martim Moniz. No próximo dia 28 de Janeiro comemora-se a entrada no novo ano chinês, a mais longa e importante festividade do calendário lunar. Este será o ano do Galo de Fogo. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
Shu Jianping, conselheiro cultural da embaixada da China.

A comunidade chinesa em Portugal está longe de ser uma das maiores do continente. São 20 mil pessoas, «mas estão enraizadas de uma maneira muito profunda no país. É um dos lugares onde sentimos que, quem vem, quer ficar e integrar-se no país, em vez de sonhar com o regresso a casa», diz o adido cultural da embaixada. «Isto é um fenómeno recente. Nos anos noventa veio muita gente, de classes baixas e fraca educação. Queriam ganhar dinheiro e voltar às suas terras para montar lá os negócios. Agora temos uma comunidade empenhada em construir relações duradouras com a sociedade portuguesa.» E atira um exemplo: «O financiamento deste Ano Novo foi quase todo suportado pelos chineses que vivem cá. Contribuíram as empresas, contribuíram as famílias, contribuíram muitos chineses a título individual. As pessoas empenharam-se mesmo nesta festa.»

O lugar onde o desfile desagua, no Martim Moniz, está agora cheio de gente. É aqui que acontece o resto da festa, sábado e domingo, das dez da manhã às cinco da tarde. Pelo palco desfilarão todos os grupos do cortejo, e até uma fadista e um grupo coral português. Há bancas onde se vende artesanato, este ano a embaixada trouxe artistas da região de Ningxia – onde se produzem bonecos de tecelagem em cânhamo, esculturas de argila, recortes e teatros de sombras. Na sexta feira, a organização esperava dez mil visitantes. No final da manhã de sábado, a expetativa tinha subido para o dobro.

Muitos portugueses juntaram-se aos celebrações e, quando passou o grupo da escola Chinesa de Lisboa, era impossível não reparar nas crianças europeias que marchavam com trajos tradicionais da China. «Dos oitocentos alunos da escola, mais de uma centena são portugueses», disse Yu Cheng, professora bilingue. «Há um crescimento muito grande do interesse na aprendizagem do mandarim. Por um lado, muitos pais têm relações comerciais com a China e percebem que o país vai ser um ator mundial muito importante na economia global – e tentam preparar os mais novos para esse futuro. Mas também há quem ache que é uma língua divertida, com uma caligrafia muito especial. Então matriculam as crianças por acharem que a língua chinesa é divertida.»

Lisboa, 21/1/2017 - Carla Madeira com os filhos Diogo e Inês, todos alunos da escola chinesa, posam no final do desfile de comemoração de ano novo chinês entre a Avenida Almirante Reis e o Martim Moniz. No próximo dia 28 de Janeiro comemora-se a entrada no novo ano chinês, a mais longa e importante festividade do calendário lunar. Este será o ano do Galo de Fogo. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
Carla Madeira, com os filhos Diogo e Inês.

Diogo Reis tem 5 anos, sabe escrever olá em mandarim mas não em português. Ele, a irmã Inês, de 11, e a mãe, Carla Madeira, são todos alunos de mandarim. O pai é treinador de futebol e foi há um ano trabalhar para Oriente. «Se um dia também nos juntarmos, é bom que estejamos preparados», diz a progenitora. «E, à medida que aprendemos chinês, começamos a saber mais e a deixarmo-nos fascinar por uma cultura que é muito rica e muito antiga.» A filha dá-lhe razão: «Estamos todos muito empenhados em saber mais coisas.»

De todos os signos do zodíaco, o Galo é o mais extrovertido dos animais. Gosta de dar nas vistas, é vaidoso.

«Este ano é bom para os nativos de porco e dragão», diz Sin Man Lee, uma macaense de 21 anos que vive em Lisboa há quatro. «Não é um ano de ruturas nem de novidades, mas de teimosia, de insistir nos projetos e levá-los até ao final. Os signos com mais energia ficam beneficiados com o Galo.» À entrada da praça onde decorrem todos os festejos foi instalada uma estátua gigante do galináceo, feita em materiais recicláveis. E parece justo que assim seja. No ano do mais vistoso dos signos, os chineses montaram a mais vistosa das festas. Seja em que língua for, e use-se o sotaque que se quiser, a frase do dia é esta: Feliz Ano do Galo.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens