OPINIÃO

Justa e José Nobre: juntos na vida e pela comida

Começaram a trabalhar juntos num restaurante em Lisboa há quarenta anos. Neste tempo todo, apesar dos altos e baixos, conseguiram construir uma marca de referência. E uma família feliz.

Texto Catarina Guerreiro Fotografia Orlando Almeida/GlobalImagens

Na cozinha, ela tentava fazer que os pratos saíssem o mais rápido possível. Na sala, ele esperava ansioso por poder servir os clientes que esperavam há demasiado tempo. O dia não tinha começado bem e o stress instalou-se entre o casal. Justa tinha 21 anos, José tinha 24. Era o primeiro dia de trabalho juntos no restaurante 33, na Avenida Alexandre Herculano, em Lisboa, para onde tinham sido desafiados pelo empresário Luís Vaz, até então patrão de José numa empresa de automóveis, e que sabia do jeito da mulher do funcionário para a cozinha.

«Não é fácil marido e mulher trabalharem juntos», diz a chef. O marido concorda, mas garante que nunca se arrependeu de ter dedicado a vida à área da restauração.

«O Nobre e o Luís Vaz decidiram ir às compras à última hora e quando os clientes começaram a chegar, não havia comida feita», diz Justa, recordando a ansiedade enquanto os pratos não ficavam prontos. «Estavam os dois nervosos a espreitar pelo óculo da porta da cozinha.» José lembra-se bem do que sentiu. «Estive para me ir embora», confessa. «Eu é que no fim pus os dois em sentido», atira Justa. Ele ri-se. Aquela segunda-feira, 14 de agosto de 1978, não foi apenas de stress. Foi também uma grande lição para a chef que antes trabalhava numa tipografia. «A partir daí fui eu sempre que tratei das compras.»

Aquele tornou-se também no primeiro dos milhares de dias em que Justa e José têm trabalhado juntos, ao longo de quase quarenta anos. «Não é fácil marido e mulher trabalharem juntos», diz a chef. O marido concorda, mas garante que nunca se arrependeu de ter dedicado a vida à área da restauração.

Desde que começaram, já passaram por diversos restaurantes e partilharam várias vitórias e derrotas. Mas garantem que tudo isso os fortaleceu. Depois do restaurante 33, onde ficaram oito anos, estiveram um ano no Iate Ben, em Carcavelos. Em 1988 abriram o restaurante deles, o Constituinte, na Rua de São Bento, um espaço pequeno. Foi aí que o casal começou a dar nas vistas. Por um lado, José decidiu ir à Assembleia da República e, com «ajuda de um contínuo, o senhor Delfim», escreveu uma carta a cada deputado a dar a conhecer o novo restaurante da vizinhança, que depressa passou a ser frequentado pelos parlamentares.

Por outro lado, o casal conquistou o paladar de José Quitério, antigo crítico gastronómico do jornal Expresso, uma referência na época, que tinha o poder de lançar ou destruir um estabelecimento. «Ele foi lá várias vezes e à quinta vez quis conhecer a Justa e disse quem era. Eu fiquei muito nervoso», descreve José, lembrando o alívio que sentiu quando leu a revista Única do Expresso: «Ele deu-nos um voto de aclamação.»

A partir daí não pararam. Em 1990 abriram o primeiro restaurante Nobre, na Ajuda, que começou a ser frequentado pela classe política, nomeadamente Mário Soares, na altura Presidente da República. «Iam lá políticos do governo e da oposição», diz José Nobre. Em 1998, inauguraram o Nobre da Expo, que foi um grande sucesso mas os fez viver uma das fases mais difíceis das suas vidas. Nessa altura arranjaram uns sócios que, contra a vontade do casal, decidiram expandir a marca Nobre e passaram um mau bocado. «Ficámos sem nada. Perdemos tudo», recorda Justa.

Mas não desistiram e voltaram a começar do zero: foram os dois trabalhar para o Lisboa Vista do Tejo, um barco que fazia jantares a bordo. «Mas a Justa não aguentava cozinhar no barco porque estava sempre a tremer.» Depois apostaram num restaurante no Montijo e em 2008 acabaram por ficar a explorar um espaço junto ao Campo Pequeno, onde ainda hoje se encontram, tendo como sócias duas irmãs da chef.

Preparam-se agora para um novo projeto: em setembro vão abrir o restaurante À Justa, na Calçada da Ajuda, onde a chef vai confecionar comida portuguesa.

Pelo meio de todo este percurso gastronómico, a família cresceu. Justa ficou grávida em 1982 e Filipe nasceu quando estavam no 33. «Ela foi quase direta da cozinha para o parto», diz José. Têm três netos (Mariana, Gabriel e Mónica) e este mês, ela com 60 anos e ele com 63, completam 41 de casamento.

Como sócios, expandiram a marca Nobre (em 2014 abriram o Nobre do Estoril) e Justa desenvolveu o conceito de Bitoque no Ponto (restaurante em centros comerciais), lançou livros e até participou num programa de televisão [MasterChef]. Mas manteve-se sempre na cozinha. Já ele, nunca saiu da sala. Sabe com detalhe os nomes e gostos de todos os clientes. «Conheço-os até pela voz ao telefone», desvenda. «Sim, ele é um anfitrião do melhor», admite Justa. Elogiam-se um ao outro, mas também discutem. «Como todos os casais.»

Preparam-se agora para um novo projeto: em setembro vão abrir o restaurante À Justa, na Calçada da Ajuda, onde a chef vai confecionar comida portuguesa. O que faz na perfeição, diz José, que não consegue optar quando tem de dizer qual o prato de Justa que mais aprecia: «Gosto da sopa de santola, da perninha de cabrito assado, das iscas à portuguesa, do arroz de pato, do leite-creme… tudo… Até o frango assado dela sabe bem.»

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