OPINIÃO

Joel Neto: «A frase mais tonta da contemporaneidade é “não me arrependo de nada”»

Joel Neto sempre quis ser um escritor açoriano e, depois de 20 anos nos jornais em Lisboa, voltou para a ilha e passou a viver da e para a escrita. O romance «Arquipélago» valeu-lhe rasgados elogios. Não se ficou por aí. O próximo ano trará novidades.
Joel Neto

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de António Araújo

A primeira coisa que comprou na vida foi uma máquina de escrever. Custou 19 contos e ainda a guarda lá em casa. «Continuo a não saber fazer mais nada que não seja escrever.» Joel Neto está com um novo romance que sairá no próximo ano e tem o Faial, Nova Iorque e Lisboa como pano de fundo. «É um diálogo dos Açores com o mundo.»

A personagem principal também se chama José (à semelhança do rapaz de Arquipélago, 2015). «Como dizia a Agustina (Bessa-Luís), e bem, escrevemos sempre sobre a mesma personagem». Sempre quis ser um «escritor açoriano».

Viveu em Lisboa 20 anos – de 1992 a 2012 –, mas vivia na capital a pensar nas ilhas. Veio para o continente estudar Relações Internacionais porque a rapariga mais bonita de Angra do Heroísmo escolheu esse curso. «Se ela tivesse escolhido Medicina, eu andaria por aí a matar pacientes em algum canto.»

O sucesso de Arquipélago já lhe valeu elogios rasgados dos pares. João de Melo – um dos grandes da escrita açoriana – disse-lhe, uma vez: «se não escreveres mais nada, já escreveste este livro.»

Não teve futuro – nem com o curso, nem com a moça – e optou pelo jornalismo. Guarda os arrependimentos naquele lugar privado dos grandes ensinamentos. «A frase mais tonta da contemporaneidade é “não me arrependo de nada”. Isso significa que não olhaste para a vida duas vezes. Que triste deve ser.»

O sucesso de Arquipélago já lhe valeu elogios rasgados dos pares. João de Melo – um dos grandes da escrita açoriana – disse-lhe, uma vez: «se não escreveres mais nada, já escreveste este livro.» É o reconhecimento de uma vida, mas a caneta não está pousada. A comparação não o assusta, afinal, «o que seria de nós sem essa pressão para nos superarmos?». José, até para o ano.

4 » Amizade

Melville, o cão que, há quatro anos, encontrou na rua e que se tornou o seu melhor amigo. «Que injustiça os cães viverem menos tempo do que nós.»

2 » Casamento

Casou duas vezes, com Estela e Catarina (a atual mulher). As duas mulheres foram determinantes para o percurso do escritor que acredita na vida vivida a dois.

21 » Jornais

A idade em que começou a trabalhar na imprensa e a primeira vez que sentiu autonomia financeira.

1980 » Terramoto

Ano do terramoto nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa. «Foi aqui que a minha geração soube o que era uma tragédia.»

38 » Casa

O regresso aos Açores com 38 anos. «Não existiria Arquipélago se não tivesse regressado.»