OPINIÃO

João Gil: «Se soubesse o que sei hoje, os Trovante não tinham acabado»

Começou com os Trovante mas o nome dele está marcado nos últimos quarenta anos da música em portugal, com algumas canções que se tornaram o espelho de uma geração. João Gil, 61 anos, lança agora um álbum novo para cantar novamente canções antigas e comemorar quatro décadas de carreira. Uma vida contada em letras que não nos saem da memória.

Entrevista Ana Patrícia Cardoso | Fotografia Gerardo Santos/Global Imagens

Estamos na Pastelaria Sílvia, na Avenida de Roma. Foi um pedido seu. Porquê?
É uma longa história. Uma história que me une ao João Monge [músico, membro dos Trovante]. O Monge é o meu primeiro amigo da segunda infância. Vim da Covilhã para Lisboa com 14 anos e ele foi das primeiras pessoas que conheci. A primeira vez que o vi, ele estava ali num jardim a tocar uma música do George Harrison. Passámos muito tempo aqui, era o nosso ponto de encontro. O Monge escreveu a Esplanada para os Trovante aqui. E os Loucos de Lisboa também foi inspirada no Vitinho, que parava aqui ao lado. Ele era um dos loucos de Lisboa. Havia vários, cada um com a sua história.

O João Monge é uma das grandes amizades da sua vida.
É mesmo. O João, além de ser uma pessoa extraordinária, ri-se de si próprio, uma particularidade muito boa dos alentejanos. Acima de tudo, é alguém com um sentido de observação do mundo incrível. Somos cúmplices de geração, fomos cúmplices no movimento de esquerda que se vivia na altura, andámos a colar cartazes aqui na zona quando ainda não era permitido. Quando descobrimos que nos completávamos também na música, nunca mais nos largámos. Até hoje.

Estávamos em 1975. E é nessa altura que surge a primeira banda?
Ah, foi uma brincadeira. Sim, por aí. Devia ter uns 17, 18 anos. Os Soviete do Areeiro. Mas, a brincar, a brincar, foi a primeira vez que pisei um palco. Obrigou-nos a ensaiar e a trabalhar em conjunto. Tocámos música chilena e sul-americana. Até usámos sombreros! Lembro-me que, nessa altura, a revolução chilena foi uma coisa muito marcante. O Salvador Allende e a morte dele. Havia uma atração muito forte pelo Chile, por aquela tentativa falhada de democracia. Na altura, para nós, os jovens, gerava uma revolta enorme. Estávamos antes do 25 de Abril, havia a sombra da guerra, de sermos obrigados a ir para a guerra. Isso acordou-nos…

… para o que se passava à vossa volta.
Sem dúvida. Se havia a possibilidade de ir para a guerra, nós queríamos saber porquê. Era diferente de hoje, ganhávamos uma consciência política e social muito cedo. Entretanto aconteceu o 25 de Abril.

Havia um conjunto de regras que caraterizava os Trovante que nós respeitávamos escrupulosamente. Disciplina, processo de trabalho, diálogo, trabalho coletivo que era devidamente discutido e partilhado.

Pouco tempo depois nasce o projeto Trovante. Como se conheceram todos?
Conhecemo-nos numa festa de estudantes. O Luís [Represas] estava a tocar uma música do Sérgio Godinho, Cão Raivoso, e eu cheguei com o Artur [Rocha]. Começámos a falar, a tocar, a passar férias todos juntos, e foi assim. O Luís namorava a filha do Francisco Viana, que acabou por escrever os nossos primeiros textos.

Tornaram-se um sucesso enorme. Em 15 anos encheram o Coliseu dos Recreios, gravaram um CD ao vivo no Campo Pequeno, tocaram várias vezes no Avante!. Eram muito jovens, na altura. Como lidaram com essa popularidade?
Não foi um sucesso repentino, ainda demorou alguns anos a acontecer. É engraçado pensar na nossa história. Quem estudar a história dos Trovante entende também a história de Portugal, pelo menos numa determinada fase. Nós crescemos muito como pessoas, fizemos muitas experiências, encaixámo-nos naturalmente. Eu aprendi a compor canções nos Trovante. Quer dizer, eu já compunha, escrevia música como quem brinca. O Luís acabou por se tornar o vocalista, não era uma coisa que estava já definida. Toda a gente aprendeu a ocupar o seu espaço. Havia um conjunto de regras que caraterizava os Trovante que nós respeitávamos escrupulosamente. Disciplina, processo de trabalho, diálogo, trabalho coletivo que era devidamente discutido e partilhado.

E também eram muito amigos?
Muito amigos mesmo. Chorámos muito uns com os outros. Uma família. Hoje, já não temos o dia-a-dia, mas cada vez que nos encontramos para ser os Trovante outra vez voltamos a essa família.

Então os Trovante nunca acabaram?
Nunca. E estão vivos. Ainda no outro dia tocámos e tínhamos o mesmo vigor de há trinta e tal anos.

Lembra-se do momento em que compuseram Timor?
Lembro-me. Lembro-me perfeitamente. A música teve várias fases. A minha irmã, Margarida Gil, convidou-me para fazer a música do telefilme Flores Amargas, sobre Timor. Era um assunto tabu, era incómodo à esquerda, ao centro, à direita. Eu fui investigar para tentar perceber o que se passava, queria entrar na paisagem de Timor. Estávamos dois anos antes do massacre [de Santa Cruz, onde 250 pessoas foram mortas por militares indonésios, em 1991]. Não fomos «atrás do prejuízo», é importante deixar isto claro. Aquilo começou a incomodar-me muito. Fui falar com o Monge e disse-lhe que devíamos escrever alguma coisa sobre o que se passava.

E puseram mãos à obra.
Depois do telefilme, fizemos a canção. Atacámos em duas frentes, queríamos fazer a denúncia. E quando houve o massacre, as pessoas precisavam arranjar uma Grândola, Vila Morena e escolherem a nossa música. Depois houve aquele momento das crianças em Almada em que um grupo se juntou numa praça a distribuir a nossa letra e a pedir às pessoas para desenharem as mãos em nome de Timor. O Monge ligou-me emocionado de lá porque a nossa canção tinha ganho vida própria.

O que é que torna uma letra intemporal?
Se for simples, fiel. Sobretudo, verdadeira. Como o amor. Uma canção é uma fotografia do seu tempo, fica na memória coletiva das pessoas.

Compôs algumas.
Sim, talvez.

Devemos mesmo ser inclusivos e apoiar os Salvadores que andam por aí, que há gente muito boa, com músicas que vão ficar na memória.

Assistimos agora a uma mobilização invulgar para Festival da Canção, o António Zambujo e o Miguel Araújo esgotam concertos durante dias seguidos, a Carminho é um sucesso lá fora. E há outros. Há uma reaproximação do público com a música portuguesa?
Acho que nunca houve uma separação a sério. Pelo menos a partir do nosso tempo. Claro que as pessoas ouvem e compõem em inglês. É natural, faz parte do que elas ouvem, da sua aprendizagem, mas é passageiro. Às tantas, tu queres sentir na língua em que pensas, em que sonhas, não é?

Em 1999, voltaram tocar juntos num concerto no Pavilhão Atlântico que resultou num CD duplo, Uma Noite Só, atingindo a dupla platina. Em 2011, os concertos da digressão com o Luís pelos 35 anos dos Trovante esgotaram em dias, não foi?
Em horas. Lá está, as pessoas querem ouvir cantar em português. Devemos mesmo ser inclusivos e apoiar os Salvadores que andam por aí, que há gente muito boa, com músicas que vão ficar na memória.

Tem de haver risco. Imagina que fazia novamente a 125 Azul. Já está feita, ninguém ia querer saber, só ia fazer pior. Assim, assino por baixo a ideia de que eu não sou o único dono das canções.

O que é que a idade trouxe à sua composição?
Maturidade. Talvez um olhar mais tolerante. Compreendo melhor o que me rodeia, provavelmente. O processo faz sempre sentido se as pessoas estiverem disponíveis para isso. Se nos fecharmos no nosso mundo e nos contentarmos com aquilo que já foi feito, morremos em vida. Se não estás a dar nada de novo, podes encher um Coliseu, mas estás morto por dentro. Não me contento. Por exemplo, quando surgiu a ideia deste novo disco, uma reedição de temas antigos para comemorar os 40 anos de carreira, eu não quis fazer um best of. Isso não é para mim. Tive de fazer alguma coisa diferente.

E decidiu convidar outros artistas?
Sim, daí ter chamado os mais velhos para fazer coisas novas e os mais novos para cantar as músicas antigas. Tem de haver risco. Imagina que fazia novamente a 125 Azul. Já está feita, ninguém ia querer saber, só ia fazer pior. Assim, assino por baixo a ideia de que eu não sou o único dono das canções.

Têm a tal vida própria?
Se forem boas, têm.

Eu e o Quim Barreiros íamos a sair de um restaurante e ouço uma pessoa dizer: «Olha, lá vai o Quim Barreiros e o gajo da música.»

Como foi o processo de gravação? Os músicos tiveram liberdade criativa para mudar as músicas?
Nem por isso. Juntámos uma equipa de produção e decidimos revisitar alguns temas tendo sempre um princípio de lealdade com a memória. Mas se não tivermos a coragem para ter algum distanciamento e a confiança nos artistas, também não vale a pena fazer nada. É como um novo filme com o mesmo argumento, sem ser um remake. Não gosto muito de remakes.

A 125 Azul pode parecer um choque, eu sei. Quando começamos a ouvir a voz do Carlão, podem pensar «eh pá!, o que é isto?» Mas, aos poucos, vamos entrando e reconhecendo o mesmo sentimento que já nos transmitia e que ainda está lá. Houve um cuidado grande em fazer que cada música não perdesse a sua identidade.

Até porque as pessoas reconhecem o João por essas canções.
Sim, é verdade. Sou muito bem tratado pelas pessoas. Sempre com um sorriso. Dou um exemplo que achei delicioso. O Quim Barreiros canta uma música neste álbum, a História do Zé Passarinho. Eu admiro-o imenso, é um ser humano único. Íamos a sair de um restaurante e ouço uma pessoa dizer: «Olha, lá vai o Quim Barreiros e o gajo da música.» Eu achei aquilo tão bom. O Quim é aquela personagem icónica, intocável. Eu sou o gajo das músicas. Gosto mesmo de ser reconhecido pelas músicas que fiz.

Chegou a um ponto em que teve a necessidade de se reinventar. Diz que os Trovante não acabaram, mas teve de sair para ir fazer outras coisas?
Nós tivemos 15 anos juntos. Eu cheguei aos 31, 32 anos e senti uma sensação estranha muito forte, tinha de mudar. Chorei muito, não foi fácil sair. Se soubesse o que sei hoje, os Trovante não tinham acabado. Talvez tivéssemos feito uma pausa. Mas a vida é mesmo assim. Foi tudo muito verdadeiro, muito honesto. Senti que tinha de me apaixonar novamente. Estava como a tal imagem da morte no Coliseu de que falava antes. Tive de desarrumar, voltar a sentir os desafios e até as privações.

No primeiro concerto da Ala dos Namorados ouvimos muitas coisas horríveis. «Que bicha», «que voz», «é homem ou mulher?». Foi muito difícil. Quando saímos do palco, eu disse-lhes: «Temos banda e vamos fazer uma coisa do caraças.»

Estávamos em 1993. O projeto Ala dos Namorados nasce logo em seguida?
Antes houve os Moby Dick, que não duraram muito tempo, só fizemos um álbum. E depois, sim, veio a Ala dos Namorados.

Já conhecia o Nuno Guerreiro?
Ainda não. Eu já tinha algumas canções no bolso. Fui bater à porta do Manuel Paulo [pianista], que vivia na Rua dos Navegantes, a mesma onde vivia o Luís Represas. Não é incrível? Vou começar um grupo e na mesma rua vive o meu parceiro. Aquela rua… Bom, bati-lhe à porta e propus-lhe o projeto. A ideia era termos vários cantores. Fomos à procura de cantores. O Manuel Paulo, que, na altura, tocava com o Carlos Paredes, disse-me que havia uma voz de que eu ia gostar. Era o Nuno. Fui ouvir e percebi que tínhamos alguma coisa especial em mãos.

Tanto que se tornaram um fenómeno.
Sim, mas vamos pôr os pontos nos is. Quando lançámos o disco, a elite lisboeta não gostou. Ouvimos muitas coisas horríveis. «Que bicha», «que voz», «é homem ou mulher?». Foi muito difícil. Quando saímos do palco, eu disse-lhes: «Temos banda e vamos fazer uma coisa do caraças.» E nunca mais parámos, aquilo foi o combustível de que precisávamos.

Não parou mesmo. Ao mesmo tempo que estava na Ala dos Namorados, também pôs de pé o Rio Grande, com outros músicos da sua geração.
O Rio Grande foi um projeto lindo! Foi tão bonito e correu tão bem. O Monge deu-me um caderno de letras para a mão. Tão bem escritas, eu não mudei uma vírgula, não questionei um ponto. Ele disse-me: «Toma e faz o que quiseres.» E eu demorei meses a perceber o que queria fazer. Era uma responsabilidade enorme, fiquei assustado. Até que percebi que era a história de um povo que vem do Alentejo e se estabelece na Margem Sul, que cria os seus filhos e depois volta para a terra. Comecei a ficar fascinado com a ideia e, quando lhe descobri a sonoridade, percebi que tinha de lhe dar uma conotação geográfica, as notas tinham de transparecer uma viagem. Depois de perceber isto, foi muito rápido. Eu sabia que tinha de ter o Vitorino porque foi ele que nos trouxe o Alentejo para o Chiado, para a Lisboa cosmopolita. Depois veio o Tim porque ele é o tal filho de alentejanos que vive em Almada. Ele encarnou completamente a personagem, aliás, foi ele que deu o nome Rio Grande. O Tim é dos músicos mais pragmáticos que eu conheço. Quando ele se apaixona por uma coisa, ele faz acontecer.

E o Jorge Palma?
O Palma é o eterno viajante. Fomos falar com ele e aceitou logo, adorou a ideia. E chegámos ao Rui [Veloso] porque queríamos gravar no estúdio dele e ele embarcou logo na viagem. Foi uma altura muito boa.

É praticamente a mesma formação dos Cabeças no Ar?
Sim, mas foi um processo diferente. Sou eu, o Tim, o Rui e o Palma. Para começar, são letras do Carlos Tê, que é um compositor inacreditável. Foi uma ideia mais pensada. Pensei no conjunto de canções como se fosse um musical. Os Tais Quais também foi um projeto maravilhoso porque é um encontro de gerações. Eu encaro como uma espécie de acampamento, vão todos de passagem, juntos, a tocar aquelas canções, aquele espírito meio cigano. No fundo, cada projeto teve a sua identidade própria e diferenciada.

A minha relação com a Ana criou um edifício afetivo tão forte que me torna livre para expandir. Quando sentes que és amado tens mais força.

Depois de trinta anos de carreira, em 2008 surgiu finalmente o álbum a solo, em nome próprio. Porquê esperar tanto tempo?
Eu senti que já tinha história, tinha memória, podia dizer certas coisas. Acho que me senti verdadeiramente compositor, depois de tantos anos. Senti essa confiança.

Há dez anos que o João e a Ana Mesquita formam um casal. Disse em várias entrevistas que essa relação o mudou. Em que sentido?
Já vai para onze! Lá está, na confiança. A minha relação com a Ana criou um edifício afetivo tão forte que me torna livre para expandir. Quando sentes que és amado tens mais força. Estou numa fase muito rica, a todos os níveis.

Construiu uma casa?
No sentido figurado, sim. Mas uma casa com jardim. A Ana não é uma mulher qualquer. Admiro-a muito. É isso que faz andar o amor, senão esgota-se. Nós não nos damos por adquiridos. Eu tenho de seduzi-la, tenho de dar o meu melhor todos os dias. A Ana é muito responsável também por este disco novo.

Porquê?
Porque estou mais seguro, mas também menos instável. Tenho as costas largas agora. No fundo, estamos com o mesmo comprimento de onda, temos o passo acertado. É sorte minha, acredita.

 

O novo álbum João Gil por…, que vai ser lançado a 26 de maio, conta com a participação de vários músicos e amigos do artista.

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