OPINIÃO

Um prato de comida

Eles na Índia, nós aqui. Existe a distância e existimos, nós e eles, ao mesmo tempo. A milhares de quilómetros uns dos outros e, no entanto, contemporâneos, simultâneos.

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Eles na Índia, nós aqui. Existe a distância e existimos, nós e eles, ao mesmo tempo. A milhares de quilómetros uns dos outros e, no entanto, contemporâneos, simultâneos. A papa amarela que têm à frente é arroz e caril. Sinto esse cheiro, misturado com as buzinas dos carros, com as campainhas das bicicletas, com o calor que já queima às oito da manhã, com o sebo da pasta gordurosa que cobre o chão, as paredes das casas e todos os objetos.
A poucos metros, está um homem descalço, em tronco nu, com um pano enrolado à cintura. Muito sério, segura um pau comprido e gasto, mexe uma panela enorme de arroz e caril, pousada sobre lenha a arder.

Ao longo do passeio, ordenados, sentados, encolhidos, há dezenas de homens. Não olham uns para os outros. O seu silêncio é total, como se, derrotados, tentassem opor esse silêncio a todo o ruído daquela estrada.

Um rapaz magro, de camisola manchada, descalço, encheu um balde com papa amarela. Tem onze ou doze anos. Foi ele que carregou o balde com as duas mãos e, no corredor entre as fileiras de homens, se baixou para entornar comida nos pratos. Os homens aceitaram a parte que lhes coube. Um deles tirou uma colher do bolso, todos os outros comem com as pontas dos dedos ou com pedaços de cartão rasgados. Os pratos são folhas secas de árvore, rijas e imperfeitas, prensadas em forma de prato.

Estes homens não são os pedintes que encontro constantemente nas ruas de Varanasi, sem braços, cegos, deformados, sem pernas, a rastejar no chão muitas vezes. Não são as mulheres que seguram um bebé e um biberão sujo, que estendem a mão e o olhar. Se antes me cruzei com um deles, não reparei. Talvez nos tenhamos encostado à mesma parede para deixar passar uma mota desvairada, urgente, a buzinar, ou uma vaca lenta, grandes cornos, sem pressa na sombra. Estes homens carregam pesos à cabeça, puxam carros e, de manhã, juntam-se aqui para receber a refeição que, para muitos, será a única do dia.

O trânsito não abranda quando escurece: carros, motas, riquexós, bicicletas, multidões de gente a caminhar em todas as direções. À noite, como sempre, o rapaz que distribui o arroz dormirá vestido, deitado no chão deste passeio, sob um pano com que tentará tapar a cabeça, o cabelo embaciado pelo pó.