OPINIÃO

Handmaid’s Tale: a série que está a assustar as mulheres americanas ganhou um Emmy

Mais de trinta anos depois do lançamento do livro de Margaret Atwood, «Handmaid’s Tale» chegou à televisão. Com várias referências à presidência de Donald Trump, a história de uma sociedade futurista onde homens poderosos são legalmente autorizados a violar mulheres em nome do aumento da natalidade está a ser vista por algumas norte-americanas como um aviso do que pode acontecer quando o que julgavam impossível se torna normal. E acaba de ganhar o Emmy de melhor série dramática.

Texto de Catarina Fernandes Martins

Para Jamie Hagen, os diálogos de Handmaid’s Tale não são apenas ficção. Jamie é voluntária da Planned Parenthood, uma associação de cuidados reprodutivos e saúde feminina onde muitas mulheres recorrem a abortos. Jamie não é médica e o apoio que presta é de outro tipo.

Equipada com um colete com a palavra «acompanhante» escrita em letras garrafais, Jamie oferece às mulheres que estão prestes a interromper a gravidez a possibilidade de não entrarem sozinhas nas clínicas, geralmente rodeadas de manifestantes anti-aborto que, em algumas circunstâncias, se tornam violentos (em 2015, um ativista pró-vida matou três pessoas à porta de uma clínica no Colorado).

Ao acompanhar essas mulheres, Jamie tem de furar grupos de manifestantes que proclamam «o seu bebé é uma bênção de deus», o que lembra à voluntária a saudação que as personagens de Handmaid’s Tale utilizam nas suas interações. «Abençoado seja o fruto» é provavelmente a expressão mais repetida em Gilead, cenário futurista da série norte-americana que retrata uma sociedade teocrática, totalitária, conservadora e repressiva onde as mulheres perdem a maioria dos seus direitos e ficam reduzidas à sua capacidade reprodutiva.

No terceiro episódio de Handmaid’s Tale, a personagem principal, Offred, tem uma série de flashbacks da sua vida passada nos Estados Unidos antes de um golpe preparado por legisladores criar esse novo país, Gilead.

Antes de ser Offred, a personagem interpretada por Elisabeth Moss (que vimos em Mad Men) chamava-se June, uma jovem norte-americana de classe média com rotinas semelhantes às de tantas mulheres da mesma condição no mundo ocidental. June procura parceiros amorosos no Tinder, conversa abertamente sobre sexo com a melhor amiga homossexual, envolve-se casualmente com um homem que conheceu por acaso, acabando por casar com ele e engravidar.

«Eu estava a dormir, foi assim que deixámos que isto acontecesse. Quando aniquilaram o Congresso continuámos a dormir. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição continuámos a dormir», diz Offred, protagonista de Handmaid’s Tale.

Sabemos que, nesse futuro ficcional, June é uma exceção porque os Estados Unidos e o resto do mundo enfrentam um grave problema de natalidade e as hipóteses de um parto bem-sucedido são de um em cinco, se a mulher conseguir engravidar. É nesse pano de fundo que June, entre a confusão e a incredulidade, mas sempre meio adormecida, se vai vendo progressivamente enredada numa sequência de eventos políticos que mudam a sua vida privilegiada.

Um suposto atentado terrorista leva à imposição do Estado de emergência, o que torna normal ver o Exército nas ruas. Uma multidão em delírio religioso que reza pela sobrevivência dos bebés à entrada do hospital onde June entra em trabalho de parto incomoda a passagem dos pacientes, mas é apenas barulho de fundo.

Uma lei que proíbe as mulheres de trabalhar e de aceder às contas bancárias, ficando totalmente dependentes dos maridos ou das figuras masculinas que as rodeiam leva June a desabafar, sem grande indignação: «Não pode ser verdade.» Em voz off ouve-se June já Offred: «Eu estava a dormir, foi assim que deixámos que isto acontecesse. Quando aniquilaram o Congresso continuámos a dormir. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição continuámos a dormir.»

Handmaid's Tale
Em Handmaid’s Tale, a série norte-americana baseada no livro de Margaret Atwood com o mesmo título, as mulheres com bons ovários são obrigadas uma vez por mês a permanecer deitadas sobre os vestidos azuis das mulheres inférteis enquanto os maridos destas as violam.

Anos depois, todas essas pequenas normalidades criaram um novo normal. Aquilo que parecia impossível tornou-se lei em Gilead. Offred não pode já pronunciar o nome June, limitando-se a falar com expressões religiosas que denotam o seu novo estatuto submisso.

Para aumentar a natalidade, Gilead foi dividido entre mulheres férteis e inférteis que, de acordo com a sua classe social, desempenham diferentes papéis. As mulheres de classes baixa ou média que não podem ter filhos vestem de verde, são chamadas de Martha e trabalham como empregadas domésticas. E é em torno de mulheres como June, «com bons ovários», que a série se desenvolve.

As chamadas handmaids são um exército de mulheres férteis vestidas de vermelho, obrigadas a servir de barrigas de aluguer para casais poderosos que não podem ter filhos. Os seus nomes indicam a pertença ao homem do casal (em inglês, of Fred significa que Offred é de Fred) e esse sentido de propriedade tem a sua expressão máxima quando, uma vez por mês, as handmaids são obrigadas a permanecer deitadas sobre os vestidos azuis das mulheres inférteis enquanto os maridos destas as violam. Tudo em nome da natalidade.

A série tem tanto de belo (os planos das handmaids deslocando-se em carreiro com os seus mantos escarlate contrastando com as paisagens geladas da Nova Inglaterra parece retirado de uma tela), como de violento. Em Gilead, as leis que punem a homossexualidade, o aborto, ou qualquer atividade considerada subversiva como a leitura e a escrita, seguem interpretações sui generis da Bíblia e fazem lembrar regimes onde se aplica a lei islâmica.

Visualmente, o resultado são cenas brutais, mais ou menos explícitas, mas de grande violência psicológica, em que as personagens sofrem amputações dos dedos, dos braços, das mãos, perdem um dos olhos, acordam sem o clítoris, são sujeitas a violações programadas mensalmente…

Elizabeth Moss é Offred (que quer dizer, pertença de Fred), na série «Handmaid’s Tale», que está a levantar polémica nos EUA e a assustar muitas mulheres, que veem aquele assustador mundo ficcionado como possível. Se continuarmos adormecidos.

Jamie Hagen diz estar rodeada de amigas que «não se sentem capazes» de ver a série, não tanto pela violência de muitas cenas, mas porque essa violência é legitimada com uma narrativa que está a tornar-se normal no seu país.

«As minhas amigas dizem-me que não conseguem ver porque lhes parece demasiado real, porque já há pessoas na CNN a falar das mulheres como vasos de bebés. Estamos a ver a retórica tomar conta da política real e pensávamos que estávamos acima disso», diz.

Já há algum tempo que muitas mulheres menos privilegiadas que recorrem à associação Planned Parenthood temem a diminuição dos fundos ou o encerramento das clínicas em função da maior tomada de poder de políticos contra o aborto. E já há algum tempo que Jamie Hagen se apercebeu de que as mulheres que acompanha «são tratadas apenas como vasos de bebés», diz.

O que a presidência de Donald Trump e a série parecem estar a permitir, continua, é um alargamento dessa tomada de consciência. «As pessoas que vivem de forma menos privilegiada já vivem com estas mudanças no horizonte há algum tempo. A eleição de Trump fez com que outras se tenham começado a aperceber de que o impensável pode passar a ser política», diz Jamie Hagen, acrescentando: «Handmaid’s Tale mostra mulheres privilegiadas que davam certos direitos como garantidos privadas desses direitos», diz.

Os principais jornais e revistas norte-americanos dedicaram muitas páginas a analisar o significado de Handmaid’s Tale. Conclusão da maioria: a série identifica os sinais a que é preciso estar atento para evitar um futuro semelhante.

Os principais jornais e revistas norte-americanos dedicaram muitas páginas a analisar o significado de Handmaid’s Tale e a interpretação que pode ser feita da série no decorrer da administração do presidente Donald Trump, que tem um histórico de expressões e formas de tratamento ofensivas para com as mulheres (chegou a pensar-se que a expressão «grab them by the pussy» lhe custaria a nomeação na corrida à Casa Branca) e cuja eleição desencadeou manifestações feministas sem precedentes em todo o país. A conclusão da maioria: Handmaid’s Tale identifica os sinais a que é preciso estar atento para evitar um futuro semelhante.

A voluntária concorda: «Acho que aquilo não é o nosso futuro, mas é uma chamada de atenção para a forma como o que é normal e aceitável está a mudar e para como os novos normais se infiltram na sociedade e na política com facilidade», diz.

Em Portugal, o professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Daniel Cardoso diz que, como em todas as distopias, Handmaid’s Tale «revela como os horrores que nós imaginamos que podem acontecer já estão na verdade a acontecer.»

Nesse sentido, e tendo em consideração que «os movimentos e a imagética conservadores nos EUA são outros», as mulheres portuguesas podem tirar alguns «paralelismos da série», nomeadamente no que diz respeito «ao peso e ao papel que a religião teve e tem em Portugal e à forma como se procura moralizar e controlar a vida das mulheres, o corpo das mulheres e a sua vida sexual», diz.

Daniel Cardoso vê esses paralelismos na discussão recente em torno da gestação de substituição, que na semana passada entrou em vigor no nosso país. «Em todo o debate aquilo que estava subjacente era uma grande pressão para manter a mulher disponível para a reprodução, mas controlando os modos em que essa reprodução é feita, limitando-a à família heterossexual monogâmica. Vemos a mesma coisa a acontecer em Handmaid’s Tale – aquela sociedade não está só preocupada em que aquelas mulheres tenham filhos, mas também em que elas tenham filhos daqueles homens específicos para reproduzir as mesmas estruturas de poder», diz. Por isso mesmo e com as devidas distâncias, Daniel Cardoso espera que «os portugueses vejam que o que está presente no debate em torno da série e nos debates em Portugal no século XXI é a liberdade e a autonomia dos corpos das mulheres.»

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