OPINIÃO

A caminho do mundo

Reportagem no coração da diplomacia mundial, em Nova Iorque, no dia em que Guterres prestou juramento na ONU

SEMPRE EM FUNDO NESTES DIAS EM QUE AS NAÇÕES UNIDAS SE DESPEDIRAM DE BAN KI‑MOON E ACOLHERAM ANTÓNIO GUTERRES, O HOMEM QUE GOSTA DE HISTÓRIA E DE FÍSICA E QUE TEM BALANCEADO A VIDA ENTRE A INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA E A POLÍTICA.

FOI UM DIA de festa, o 12 de dezembro em Nova Iorque. O negrume das notícias de Aleppo pairava, a provocar uma reunião de urgência do Conselho de Segurança no dia seguinte, mas aquela segunda‑feira chegou cheia de expetativas para a cerimónia de juramento de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas.

Logo pelas nove da manhã, o átrio do Hotel One UN, na esquina da Rua 44 com a Primeira Avenida, tinha uma agitação muito portuguesa. Esperava‑se a descida de António Guterres, que por razões de segurança tomou o pequeno-almoço na suite com a mulher, Catarina, e a chegada de António Costa, que tinha ficado noutro hotel. Os jornalistas portugueses presentes iam registando conversas com alguns convidados, com destaque para Marcelo Rebelo de Sousa, que fazia nesse dia 68 anos.

O espaço não destoava do resto da cidade, invadida por decorações de Natal. Foi neste compasso de espera que o padre Vítor Melícias, amigo de Guterres há cinquenta anos, comentou que ele é «o papa Francisco das Nações Unidas». Igualmente feliz mas mais contido estava Leopoldo de Matos, o médico que o acompanha e à família desde a doença de Luísa Guimarães e Melo – a primeira mulher de Guterres, que morreu vítima de cancro em janeiro de 1998.

Melícias e Matos eram os únicos convidados pessoais de Guterres para a cerimónia de juramento. A eles se juntou João Crisóstomo, convidado pela Embaixada de Portugal nas Nações Unidas, o português ali radicado há décadas e que teve como primeiro emprego em Nova Iorque o cargo de mordomo de Jacqueline Kennedy Onassis. Não era essa a razão do convite: ele tem sido uma espécie de diplomata paralelo, defensor de causas queridas dos portugueses como a independência de Timor-Leste.

À hora prevista chegou António Costa e surgiu Guterres já com Marcelo ao lado. Começou a caminhada de centenas de metros entre a porta do hotel e a sede das Nações Unidas, o edifício desenhado por Óscar Niemeyer, com dois volumes ligados – o alto e esguio para o secretariado-geral, o redondo e baixo dedicado à assembleia geral.

Na rua, esta comitiva sorridente chamava a atenção. Um fotógrafo norte-americano que ali estava por acaso ficou surpreendido, duvidou de que Guterres estivesse na rua e acabou também a fotografá-lo, acompanhando os jornalistas portugueses.

Entrar no quartel-general das Nações Unidas requer a mesma segurança obrigatória hoje nos aeroportos. Mas é possível visitá-lo, nem que seja para admirar as obras de arte, como o espetacular revólver com um nó no cano, criado pelo sueco Carl Fredrik Reutersward após o assassínio de John Lennon e que se tornou o símbolo da Não Violência. Ou o vitral desenhado por Marc Chagall em memória do segundo secretário-geral das Nações Unidas, Dag Hammarskjold, morto num acidente de avião em 1961, quando rumava a uma reunião para negociar a paz no território que hoje é a República Democrática do Congo. Ou o impressionante Memorial das Vítimas da Escravatura, perto do rio Hudson, obra do arquiteto norte-americano de origem haitiana Rodney Leon, inaugurado em 2015. O grande mural de Portinari, Guerra e Paz, está reservado aos que participam nas reuniões do Conselho de Segurança.

Mas naquela manhã não havia tempo para observar as obras, isso ficou para depois da cerimónia de despedida de Ban Ki-moon e de juramento de Guterres. As delegações demoraram a ocupar a sala da Assembleia Geral, entretidos em conversas pelo caminho. Guterres foi para o seu lugar na primeira fila da bancada, ao lado de Catarina Vaz Pinto, sua mulher. Atrás estavam Pedro e Mariana, filhos do primeiro casamento, e Francisco, filho de Catarina. A mulher de Ban Ki-moon ficou também na fila da frente. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa sentaram-se no lugar da representação portuguesa. Nesta enorme sala, com um impressionante painel dourado de frente para os diplomatas, as representações posicionam-se por ordem alfabética do país. É fácil encontrar Portugal, entre a Polónia e o Qatar, com São Tomé e Príncipe na fila de trás.

Falaram então delegados de diferentes regiões do mundo, e coube à representante dos Estados Unidos contar o percurso de vida de Ban Ki-moon, nascido na Coreia do Sul num momento em que o apoio das Nações Unidas foi essencial para o seu país. Samantha Power, ex-jornalista, disse depois que António Guterres era o homem ideal para o momento. E depois do discurso de despedida de Ban Ki-Moon e do juramento solene de Guterres com a mão sobre a Carta das Nações Unidas, o português começou a intervenção: «Quanto tomei posse em 1995 como primeiro-ministro de Portugal, parecia que o mundo estava numa fase de estabilidade e paz.» Uma aparência que se revelou enganadora, como explicou, para sublinhar que é essencial trabalhar para a prevenção dos conflitos. Todos o ouviram em silêncio, exceto quando declarou que as Nações Unidas têm de estar prontas para mudanças internas. Aí, a sala rompeu em aplausos, quer no andar dos delegados quer nas galerias, cheias de funcionários da organização.

Já fora da sala, Guterres prestou declarações à imprensa internacional e depois, noutro espaço, à comunicação social portuguesa. Seguiu-se um almoço oficial, reservado, e a receção que o presidente Marcelo oferecia em homenagem aos dois secretários-gerais (o cessante e o designado) na sala dos delegados, onde se destaca um painel de azulejos azuis e brancos, bem português.

À medida que os representantes portugueses iam recebendo os convidados, a sala ficava cheia de gente com copos de vinho e iguarias nacionais. «Pas-tel-de-nata», ensinava Maria João Lima a uma colega que oferecia os bolos tradicionais de Belém anunciando «crème brûlée». Natural de Penafiel, casada com um mexicano em Nova Iorque, estava encantada por poder falar em português enquanto distribuía fatias de presunto e canapés. «Até estou arrepiada por ter aqui um secretário-geral português», dizia.

Talvez porque o vinho era bom – diziam os convidados – Ban Ki-moon gracejou quando tomou a palavra. «Fui eleito, tal como Guterres, a 13 de outubro [em 2006]. Prestei juramento no dia 15 de dezembro. Só agora percebi por que os portugueses insistiram tanto em marcar o juramento de António Guterres para o dia 12: por ser o aniversário do presidente Marcelo Rebelo de Sousa.»

No fim o secretário-geral designado agarrou a atenção geral: «Quero agradecer a Portugal por me ter dado os valores da solidariedade, da tolerância e do diálogo.» E apontou para Marcelo e Costa: «Basta observar a linguagem corporal dos dois para se perceber o entendimento que os une, apesar de serem de partidos políticos diferentes.» No exterior, uma lua cheia iluminava o rio Hudson, mas lá dentro ainda era preciso que Marcelo fizesse dezenas de selfies. Incluindo, claro, a que fez com Maria João.