OPINIÃO

Guardiãs do mar – As mãos que limpam o Sado

As Guardiãs do Mar dedicam-se à limpeza do estuário do Sado.

No estuário do Sado, o combate à poluição ganhou aliados de peso. Ou melhor, aliadas. As pescadoras de Troia e de Setúbal têm um papel determinante na recolha de lixo e conservação das pradarias marinhas. O projeto Guardiãs do Mar – Salvar o Ambiente, Preservar Empregos foi recentemente distinguido com um prémio que reconhece o valor da iniciativa.

«O meu marido bebeu uma cerveja e não a atirou a garrafa à água como costumava fazer», diz Maria de Fátima Ricardo. «É sinal de que alguma coisa está a melhorar.» A mulher acaba de chegar da pesca do choco, atividade que pratica há mais de trinta anos. Os baldes vêm cheios, mas também há sacos com lixo que foi recolhido durante a pescaria.

É ali, no cais palafítico da Carrasqueira, onde atracam os barcos todos os dias, que Fátima e outra pescadora, Maria de Lurdes Carvalho, encontram Raquel Gaspar, a bióloga com quem colaboram há cerca de um ano na campanha «Mariscar sem lixo». A iniciativa, que conta com o apoio do Oceanário de Lisboa e da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, entre outros parceiros, passa pela sensibilização para pequenos gestos que podem fazer a diferença – como ter um saco de lixo no barco.

«Eu, antes, pensava que uma garrafa não ia mudar nada. Mas agora sei que muda», diz Maria de Fátima. Esta alteração de mentalidades é o foco do trabalho da bióloga de 47 anos, cofundadora da Cooperativa de Educação Marinha Ocean Alive.

Foi dela a ideia de uma iniciativa apenas no feminino. «As mulheres são os agentes transformadores. Nesta zona, os casais pescam juntos. Se tiverem hábitos de recolha de lixo, podem mais facilmente transmitir aos maridos», diz Raquel.

O que está em causa é a proteção das pradarias marinhas, que são o habitat berçário de muitos animais marinhos, onde nasce a biodiversidade do estuário do Sado, e das presas dos golfinhos, que continuam a ser um dos chamarizes turísticos da região. A degradação desta flora tem consequências negativas não só para o ambiente mas também para a sobrevivência dos pescadores, que tiram dali o sustento, uma vez que é ali que o choco se reproduz, que o robalo, a dourada e o linguado crescem ou onde o polvo se esconde e caça.

Mas este é um processo que requer tempo e que implica ganhar a confiança dos locais. É por isso determinante o apoio da associação de pescadores. «O boca-a-boca funciona muito bem por aqui», diz Raquel, enquanto vai colando os cartazes pelos cafés e restaurantes que dão conta dos resultados da última ação de sensibilização, «Mariscar sem lixo».

«As pessoas não se inscrevem pela internet. Aparecem.» Ao todo, foram 165 voluntários (84 da comunidade), que recolheram 3048 embalagens de sal fino e 6620 quilos de lixo no total. Esta foi a 12ª ação desde que começaram e o objetivo é organizar uma por mês.

Cesário e Cátia Matias fizeram parte desse grupo. O casal chega ao cais da Carrasqueira com alguns baldes de choco. O dia vai longo e ainda não terminou, mas a pausa para a conversa com Raquel é importante. «O Cesário tem sido muito importante nesta questão do passa-palavra entre os pescadores.» Aos poucos, a presença da bióloga vai-se tornando cada vez mais normal. Das 35 pescadoras, há cinco guardiãs a colaborar, seja nas campanhas de sensibilização, nas visitas guiadas às pradarias, seja na colaboração em futuros estudos de monitorização.

De todos os obstáculos, há um que salta à vista na paisagem: as embalagens de plástico de sal fino. Este é, indiscutivelmente, um dos problemas mais graves no combate à poluição das águas. As embalagens, as mesmas que usamos em casa para temperar saladas, são também úteis na apanha do lingueirão (ou canivete). Não é raro encontrar as margens do Sado cobertas de frascos a apodrecer. «O hábito é largá-las vazias para a água. Já encontrámos garrafas com dezenas de anos.»

Raquel já não consegue ficar indiferente a este cenário. Ao final da tarde, a ideia era passar por um dos pontos da margem que acumula mais lixo da maré, mas não é possível ficar só a ver. Há que meter mãos à obra. Em trinta minutos apanham-se 214 embalagens de sal, quarenta garrafas de água e de refrigerantes, sete garrafões de lixívia ou de água. Apesar de se notar a diferença, ainda fica muito por recolher.

Alertar para este problema é um dos grandes objetivos das campanhas de sensibilização. A próxima decorre já na próxima Sexta-Feira Santa, 14 de abril, um dia tradicionalmente virado para a mariscagem, muito pela crença de que não se pode comer carne.

Para saber quais os melhores locais onde colocar os voluntários, Raquel recorre à ajuda de quem conhece bem aquelas águas. O casal de pescadores Helena Bravo e Joaquim Damas aponta no mapa os melhores sítios para ter pontos de campanha: Murta, Monte das Pousadas ou Vale d’Éguas são paragens obrigatórias. «Vem muita gente neste dia e fazem muito lixo. Não é só o sal, são também os piqueniques», explica Joaquim. Graças à Ocean Alive, a Câmara Municipal colocou alguns caixotes do lixo ao longo da costa mas não é o suficiente. «Há que estar lá e falar com as pessoas!»

Helena foi das primeiras pescadoras a aderir ao projeto. Dá até a cara (e as mãos) para os folhetos das campanhas. A relação com Raquel é de confiança. «Este trabalho é muito importante, as pessoas não têm noção do lixo que se faz.» «Só faz lixo quem quer», remata Joaquim. Esta não deixa de ser também uma questão de educação. Não é por acaso que um dos focos do projeto é sensibilizar os mais novos para esta questão.

A abordagem às escolas tem sido feita com frequência e há visitas de estudo agendadas até junho. «As crianças aprendem da melhor forma – a fazer.»

Duarte, 7 anos, participou na ação de fevereiro juntamente com outras crianças. Quando voltou para casa perguntou aos tios, pescadores: «O que vão fazer com esse lixo? Não o vão deitar ao mar.» Está plantada a semente.

O futuro da Ocean Alive passa por avançar com os projetos de monitorização das pradarias marinhas contando com as parcerias das universidades de Lisboa e do Algarve. Qualquer ajuda é bem-vinda. É assim, aos poucos, e atuando em várias frentes, que se vai ganhando terreno e substituindo as más práticas por comportamentos conscientes. «Ainda há um longo caminho, mas estamos a avançar», acredita Raquel.

O prémio da Fundação Gulbenkian em 2016 e, mais recentemente, da Fundação Yves Rocher, com o galardão Terre de Femmes, são um valioso incentivo à continuidade de um ideal que assenta perfeitamente no ditado: «Juntas somos mais forte.»

 

OS NÚMEROS QUE ENVERGONHAM
Em apenas um ano de campanhas de sensibilização e recolha de lixo nas margens entre Setúbal e Troia, os números falam por si: no total, contabilizam-se vinte toneladas de resíduos recolhidos, entre os quais 27 mil embalagens de sal. Mais de oitocentos voluntários já participaram nestas ações. Ainda que pareça avassalador, a verdade é que ainda há muito por apanhar. A última ação de limpeza decorreu no dia 19 de fevereiro e resultou em 3048 embalagens de sal fino e 6620 quilos de lixo no total.
A próxima irá ocorrer na Sexta-Feira Santa, 14 de abril. Informações em facebook.com/ocean.alive.org.

 

Ana Patrícia Cardoso
Reinaldo Rodrigues/Global Imagens