OPINIÃO

Gregório Duvivier: «Michel Temer nem tem mente sã nem é presidente»

O ator e escritor brasileiro Gregório Duvivier, mais conhecido por fazer parte do grupo Porta dos Fundos, fala sobre a crise política que o Brasil está a atravessar após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a nomeação de Michel Temer. A opinião cheia de ironia e humor de quem tem pouca confiança no rumo do atual governo brasileiro.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

O Brasil atravessa uma crise política profunda. Para quem está a ler esta entrevista, consegue resumir o que aconteceu?
Difícil resumir porque é uma epopeia. Não dá para falar do governo de Michel Temer sem falar da ex-presidente Dilma Rousseff, já que o Temer era vice dela. Que por sua vez só existe porque o Lula (da Silva, ex-presidente) inventou de elegê-la, e ninguém nunca entendeu porquê. E Lula só foi eleito porque prometeu que não mudaria muita coisa do governo anterior do Fernando Henrique Cardoso. E FHC só estava lá porque era ministro do Itamar Franco. E Itamar só chegou ao governo porque era vice do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Acho que tudo isso, na verdade, começou com o descobrimento. Ou seja, é tudo culpa de vocês.

Assistimos a um impeachment (da presidente Dilma Rousseff) com contornos muito duvidosos. O que isso nos diz do sistema brasileiro?
Acho que foi o primeiro impeachment da história tramado pelo beneficiário dele: o vice-presidente. Que equivale, mais ou menos, a receber a herança da tia que você matou. A nossa democracia tem a minha idade (31 anos) – mas é ainda mais instável, pobre e odiada que eu. O povo insiste em votar nos candidatos que o mercado não gosta, daí o mercado tem que derrubar o presidente e dá um trabalhão. Seria melhor se houvesse eleições diretas e o mercado pudesse escolher diretamente seu representante, sem esse intermediário rebelde que é o povo. Não perderíamos tanto tempo.

«O Lula tem muitas hipóteses nas próximas eleições. Apesar de ninguém gostar dele. A não ser o povo. E o povo no Brasil é muita gente.»

As pessoas estão a mobilizar-se, estão a ir para as ruas, estão revoltadas. O que estão a reivindicar?
Estão reivindicando um presidente que não seja um vampiro satanista, ou pelo menos não se pareça tanto com um. A última do nosso Drácula (Temer) foi receber às escondidas um açougueiro bilionário (Joesley Batista) à meia-noite e tramar com ele a propina que eles dariam para calar um comparsa que está na cadeia. O açougueiro gravou a conversa e – ainda assim – o vampiro continua firme e forte. O povo pedia «Fora Temer» hoje pede «Diretas Já» – mas o efeito deve ser o mesmo, que é nada.

Muita gente pede a renúncia de Michel Temer e que haja eleições diretas. Acredita que irá acontecer? Para tal, teria de haver uma mudança na Constituição e as eleições são já no próximo ano.
Não. Neste momento estão violando a Constituição para flexibilizar as leis trabalhistas e a previdência, e argumentam que se violarem a Constituição vão ter que parar de violar a Constituição, e eles já estão no meio de uma violação. Fora que nenhum presidente em sã consciência faria mudanças tão impopulares senão o Michel Temer, que nem tem sã consciência e nem é presidente.

Lula tem hipóteses nas próximas eleições?
Sim, muitas. Apesar de ninguém gostar dele. A não ser o povo. E o povo no Brasil é muita gente.