OPINIÃO

Gordura no corpo, cancro na pele? Sim, há uma ligação

Elevados níveis de gordura corporal, maior probabilidade de desenvolver cancro da pele. Esta é a principal conclusão de Pedro Coelho, bioquímico de formação, investigador da Faculdade de Medicina do Porto. E quanto mais moléculas produzidas pela gordura, mais o melanoma consegue resistir ao tratamento. O peso a mais não dá tréguas à saúde.

Texto de Sara Dias Oliveira

Obesidade e melanoma. Há aqui uma relação e não é nada bonita, muito menos feliz. Quando as moléculas que são produzidas pelas células responsáveis pelo armazenamento de gordura no corpo entram em contacto com as células tumorais do melanoma, o tumor fica mais agressivo e adere mais facilmente à superfície de outros órgãos.

Pedro Coelho, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), bioquímico de formação, analisou à lupa o assunto na sua tese de doutoramento Obesidade e Melanoma – Explorando os Mecanismos Moleculares e Celulares, na área de Metabolismo – Clínica e Experimentação da FMUP.

O tecido adiposo produz, como é habitual, moléculas, só que a produção aumenta nas pessoas obesas e elas conseguem ser muito mazinhas. «Os parâmetros de agressividade do tumor são agravados na presença dessas moléculas que vêm da gordura», explica Pedro Coelho. Ou seja, não só as pessoas que apresentam níveis de gordura corporal mais elevados correm maior risco de desenvolvimento de cancro da pele, como reagem pior aos tratamentos prescritos, à quimioterapia e à radioterapia.

Claro que a exposição solar em horas nada aconselháveis é o maior fator risco do melanoma, mas a obesidade é também um aspeto a ter em conta. Até porque há estudos científicos que indicam que a obesidade pode aumentar entre 17 a 30 por cento o risco de ter melanoma na pele.

Mais gordura no corpo, mais problemas na renovação das células, mais dificuldades em eliminar células defeituosas, maiores probabilidades de comprometer a terapêutica.

Peso a mais, mais complicações. Mais gordura no corpo, mais problemas na renovação das células, mais dificuldades em eliminar células defeituosas, maiores probabilidades de comprometer a terapêutica. Mais moléculas produzidas pela gordura, mais resistentes são as células cancerígenas a, por exemplo, tratamentos de radioterapia. «O nosso estudo aponta para uma maior capacidade das células resistirem, ou seja, estão sempre a ser estimuladas a crescer», diz o investigador. Não morrem, portanto, sobrevivem e dão cabo da saúde.

Durante cerca de quatro anos, o cientista analisou células de melanoma, gordura que se consegue manipular em laboratório, modelos de animais, na investigação que contou com a colaboração de profissionais da Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto e do Serviço de Radioterapia do Hospital de São João, do Porto.

O estudo, sublinha Pedro Coelho, «reforça essa tendência da obesidade estar a contribuir para o melanoma.» A percentagem não é exata, fala-se entre 17 e 30 por cento, mas confirma-se que não é só por se estar ao sol nas horas proibidas que se corre risco de cancro da pele. Ter peso a mais também pode ser um rastilho do melanoma.

A ciência não para, o conhecimento também não. Pedro Coelho vai continuar a debruçar-se sobre o tema. O investigador refere que o próximo passo é analisar quais as alterações produzidas nos melanomas e de que forma se pode controlar ou bloquear esse processo para evitar que o melanoma resista ao tratamento.