OPINIÃO

Quando Gabriel García Marquez se apaixonou por Lisboa

Quando o mundo comemora 50 anos da publicação de 'Cem Anos de Solidão', recuperamos uma investigação publicada em 2013 sobre a viagem esquecida de Gabriel García Márquez a Portugal. Em pleno Verão Quente de 1975, encontrou-se com escritores e poetas, comoveu-se com o processo revolucionário e escreveu três reportagens para a revista que ele próprio tinha fundado, um ano antes, na Colômbia. Reconstrução dessa aventura, a partir de Lisboa, Bogotá e Cartagena de Índias.

Reportagem de Ricardo J. Rodrigues, na Colômbia

[Publicado originalmente a 28 de abril de 2013]

O postal de García Márquez chegou ao destino três se­manas depois de enviado. Era uma fotografia da Pon­te 25 de Abril, com o Cristo Rei em fundo, e dizia ape­nas isto: «Lisboa é a maior aldeia do mun­do. Quando chegar, conto-te desta revo­lução.»

Juan Gossaín – um dos mais no­táveis jornalistas colombianos e amigo do escritor desde os anos cinquenta – recebeu o correio na sua casa de Cartagena de Ín­dias e não pôde deixar de sorrir. Gabriel, a quem trata carinhosamente por Gabo, ti­nha chegado à Colômbia muito antes da correspondência. E a viagem a Portugal já tinha sido largamente discutida numa conversa telefónica, dias antes. «Tenho pena, perdi esse postal há décadas, numa mudança de casa.»

Mas, por uma questão de provocação, Gossaín nunca o esqueceu: «Desde esse tempo, sempre que nos encontramos, despeço-me de Gabo dizen­do que ele ainda me deve uma conversa so­bre Lisboa.»

García Márquez aterrou no aeropor­to da Portela no primeiro dia de junho de 1975, proveniente de Roma. «Tive a sensa­ção de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pe­lo odor a marisco, mas também pelos ven­tos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte.»

Estas pa­lavras publicou-as ele, um mês mais tarde, na revista Alternativa, um semanário cria­do por si e por um grupo de intelectuais da esquerda colombiana, no ano anterior. «Por esta altura já tinha escrito Cem Anos de Solidão, era um romancista reputado e estava envolvido em muitas organizações internacionais», conta em Bogotá o jorna­lista Antonio Caballero, outro dos funda­dores.

«Viajava pelo mundo fora, ou a pro­mover a sua obra ou em reuniões de traba­lho. E às vezes ficava mais dois ou três dias num sítio para fazer peças jornalísticas.» Em Portugal, permaneceu duas semanas.

É preciso dar muitas voltas à capital co­lombiana para encontrar os textos que Gabo escreveu sobre Lisboa. Na Rua 21 há uma série de alfarrabistas, mas é pra­ticamente impossível encontrar uma edi­ção da Alternativa. «Tivemos governos de direita muito fortes, e ter uma edição des­tas podia indicar que a pessoa era subver­siva e perigosa», conta don Jimeno, dono da Librería Mundial, que todos conhe­cem por Librería Oscura – porque era ali que no final dos anos setenta se vendiam as obras da esquerda mais radical.

Não só não tem uma única cópia para vender, co­mo há anos não põe os olhos em cima de uma dessas revistas. Tente-se a bibliote­ca do Centro Cultural García Márquez, no bairro histórico da Candelária. Nada.

Dois quarteirões acima reside a derradei­ra esperança: a hemeroteca. E é então que, encadernados num livro azul e pesado, se encontram os números 40, 41 e 42, publica­dos em 30 de junho, 7 e 14 de julho de 1975, respetivamente. Não podem ser digitaliza­dos, mas podem ser fotocopiados.

Gabo publicou três reportagens numa série chamada Portugal, Território Libre de Europa. Uma delas encerrava uma pergunta que continua por responder: Pero que carajo quiere el puebo?

Fazem-se algumas fotografias à socapa, com o te­lemóvel. A série de reportagens Portugal, Territorio Libre de Europa arranca com um texto que é todo descrições de ambientes, de cheiros e vivências de rua. Há um artigo a que Gabo deu o subtítulo El socialismo al alcance de los militares e que reflete o fac­to de as Forças Armadas terem organizado um golpe sem quererem guardar o poder.

E um outro sobre o xadrez político do perío­do revolucionário, as pressões europeias e americanas, os movimentos de organização popular. Esse texto foi o segundo a ser publicado e encerra uma daquelas perguntas que ficaram até hoje por res­ponder: Pero qué carajo piensa el pueblo?

 

A maior aldeia do mundo

Gabo tinha chegado a Lisboa depois de um voo atribulado. «Ele tinha um medo danado de viajar de avião, até chegou a escrever uma crónica sobre o assunto», conta Jaime Gar­cía Márquez, irmão do escritor, no alto de um terraço com vista para a catedral de Car­tagena de Índias. Está um dia quente e hú­mido, como são todos os dias na cidade cari­benha. O Nobel morava parte do ano ali perto, numa casa de muros vermelhos e altos.

Na altura em que esta reportagem foi escrita [em 2013, um ano antes da sua morte], não dava entrevistas, não fazia aparições públicas e, anunciou o irmão mais novo, não voltaria a escrever. Tem 86 anos e um diagnóstico de demência que lhe secou as palavras. «Pois Gabo, que nunca foi religioso, nesse voo pa­ra Portugal encomendou duas ou três vezes a alma à Virgem de Guadalupe. Ele costu­mava dizer que o único medo que um latino confessa é o de viajar de avião. E é verdade.»

Ao lado de Gabriel García Márquez via­java Alfonso Fuenmayor, um jornalista de Barranquilla, de quem se tornara amigo, duas décadas antes, na redação do El Heral­do.

Nesse tempo, Gabo era vice-presidente do Tribunal Russell, o tribunal internacio­nal de crimes de guerra. Com a chegada de Pinochet ao poder no Chile e a ditadura mi­litar brasileira numa das fases mais ferozes, havia a hipótese de abrir uma secção para a América Latina em Lisboa. Alfonso, que an­dava em viagem pela Europa, veio para dar uma ajuda na avaliação. Mas com o Verão Quente em pleno, a instabilidade política no país encarregar-se-ia de anular o projeto.

«Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes», escreveu García Marquez em 1975. «É um país de pobres que enfrenta obstácu­los terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obri­gado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofis­ticados do mundo.»

Ficaram instalados no Ritz e, escreveu García Márquez no seu artigo, durante uma boa parte da estada só havia dois hós­pedes no hotel – eles. «Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstácu­los terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obri­gado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofis­ticados do mundo.»

Gabo considerava que a sociedade portuguesa era mais próxima da sul-americana, mas que o país tinha uma espada sobre a cabeça para se tornar euro­peu. «Nos restaurantes caros, os mariscos exibem-se como joias nas vitrinas, mas são intocáveis, um luxo burguês. Nos restau­rantes populares, onde se come um delicio­so arroz com sangue de galinha, os empre­gados debatem-se com uma dúvida: no re­gime atual, é justo que recebam gorjeta?»

Um dia depois da sua chegada a Lisboa, os primeiros deputados eleitos em liberdade to­mavam posse no Parlamento. Gabo decidiu fazer a cobertura da sessão solene de abertu­ra da Assembleia Constituinte e, aí, cruzou-se com alguns dos mais emblemáticos no­mes das letras portuguesas. Juntou-se um grupo que acabaria por ir jantar nessa noite à Varanda do Chanceler, um restaurante de Alfama (o mesmo onde Natália Correia haveria de apresentar Francisco Sá Carneiro a Snu Abecassis). No repasto estavam José Cardoso Pires, Fernando Namora e Luís de Sttau Monteiro. Também estava presente o poeta José Gomes Ferreira, na altura presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Esse encontro com García Márquez cau­sou forte impressão em Gomes Ferreira. O poeta português – cujo poema Acordai, musicado por Lopes-Graça, serviu de hino a vários protestos anti-austeridade – escreveria até algumas notas, após uma conversa com o escritor colombiano.

Estes escritos nun­ca foram publicados, são inéditos e íntimos, papéis em bruto. Foram cedidos pelo seu fi­lho, o arquiteto Raul Hestnes Ferreira. «García Márquez, à despedida, disse-me: “Buena sorte!” Tremi. O García Márquez: “Os portugueses são muito parecidos com os latino-americanos. Os espanhóis são mais severos, mais hirtos. Mais senhores solenes. Anos de tempestades”.» Em 3 de junho, nova entra­da no diário, um quase-poema: «Quando o García Márquez se despediu, desejando-me buena sorte, lembrou-se do Chile. Felizmen­te é a própria Morte que me defende da Mor­te. Que me importa viver mais um dia ou me­nos um dia? Sim, importa – diz-me a boca de uma nuvem que me acompanha noite e dia.»

 

O que vai dar cabo da revolução é a conta da luz

A partir daquele jantar na Varanda do Chan­celer, Gabo não voltou a estar sozinho em Lisboa. «Entre entrevistas com Vasco Gon­çalves, Melo Antunes e Saramago, que nes­sa altura estava no Diário de Notícias [era di­retor adjunto]», lembra Ernesto Santos Cal­derón, um dos mais importantes jornalistas da Colômbia, um dos melhores amigos de García Márquez e um dos fundadores da Al­ternativa, «também fez muitos amigos e di­vertiu-se bastante em Lisboa».

José Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras, lembra-se de ver o escritor colom­biano na festa de aniversário de José Gomes Ferreira, na noite de 9 para 10 de junho, e no­vamente na Varanda do Chanceler.

«Brincá­vamos todos juntos a dizer que o Gomes Fer­reira tinha a mania das grandezas, queria nas­cer no dia de Camões.» Maria Velho da Costa conheceu García Márquez em casa de Sttau Monteiro. «Aquilo era para ser uma festa, mas estava a tornar-se uma tertúlia, era uma cha­tice tremenda. Às tantas Gabo perguntou-me se queria fugir dali.»

Despediram-se rapida­mente, saíram, apanharam um táxi para o Bairro Alto. «A minha memória funciona por imagens fotográficas», diz a escritora. «Lem­bro-me de descermos a rua em conversa ani­mada. Lembro-me de que ele usava um fato de ganga, calças e casaco. E lembro-me de fi­carmos umas boas horas num bar, a conver­sar e a beber whisky.» Às tantas, o colombiano disse que à revolução portuguesa não falta­va heroísmo, faltava prudência e imaginação. «Então estamos bem tramados», respondeu Maria Velho da Costa. «Porque o povo portu­guês é como o diabo, sabe mais por ser velho do que por ser povo.» Essa sentença, desco­briu a escritora portuguesa há uns dias, foi a frase com que García Márquez rematou a sua última reportagem em Portugal.

A amizade mais estreita de Gabo em Lisboa era, no entanto, com Cardoso Pires. Tinham-se conhecido anos antes em Londres, quan­do ambos trabalhavam para o serviço inter­nacional da BBC. A sua viúva, Edite, recorda-se dos encontros no terraço do Hotel Mun­dial, com vista para o Martim Moniz, epicen­tro da multiculturalidade da cidade. «A influência negra é notável em Portugal, mani­festa-se mesmo no caráter dos portugueses», escreveu García Márquez. «E todo o país está saturado pela música quente de Cabo Verde e Angola, que parece a música do nosso trópi­co.»

«Desde a praça do Rossio até ao canto mais remoto e esque­cido da província, não há um centímetro de parede, nem um sinal de trânsito, nem o pe­destal de uma estátua que não tenha sido pin­tado com uma mensagem política.»

Era 1975, ano de independência das coló­nias, Gabo apanhou em cheio a chegada de re­fugiados, portugueses e africanos, e o regres­so de soldados do Ultramar. Em 1976, haveria de viajar várias vezes para Angola e escrever um artigo para a Alternativa sobre os novos ares de liberdade e as pressões que vinham de fora, fossem elas de Cuba ou da África do Sul.

A teoria que Gabo expressou nos seus tex­tos não era apenas a de um país cercado, era também a de um país dividido. «Desde a praça do Rossio até ao canto mais remoto e esque­cido da província, não há um centímetro de parede, nem um sinal de trânsito, nem o pe­destal de uma estátua que não tenha sido pin­tado com uma mensagem política. Os comu­nistas pedem unidade sindical. Os socialistas dizem que socialismo sim, mas com liberda­des. A extrema-esquerda protesta contra o imperialismo capitalista, os liberais dizem que o voto é a arma do povo e os anarquistas contestam, que a arma é que é o voto do povo. À noite, a reação lança granadas contra as lo­jas, envenenando o mundo inteiro com o ru­mor infame de que o Portugal formoso e tran­quilo das canções morreu.»

Ao mesmo tempo, o povo parecia querer ignorar as rivalidades, entregando-se à em­briaguez feliz de Abril: «O erotismo invadiu os cinemas e os quiosques de jornais, fazendo que milhares de espanhóis atravessem ao fim de semana a fronteira para poderem ver o fil­me mais proibido em Madrid, O Último Tango em Paris. Lisboa tornou-se uma cidade movi­mentada, com acidentes de viação espetacu­lares, não só porque os portugueses condu­zem de uma maneira intrépida, mas também porque estão genuinamente contentes – e por isso deixaram de respeitar os semáforos.»

Há uma prudência enorme nos textos de Gabo sobre Lisboa, o escritor quase anun­cia que a Revolução tem os dias contados, que a Europa, os Estados Unidos e as divi­sões internas arrastarão inevitavelmente o país para longe da sua essência. García Mar­quez teme o rumo que as elites estão a to­mar, mas encontra nobreza no povo. «Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não
havia um único táxi desocupado. A maio­ria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escri­tórios ficam de luzes acesas até de madruga­da. Se alguma coisa vai dar cabo desta revo­lução é a conta da luz.»

 

O mais belo dos ofícios

«Sou fundamentalmente um jornalista», disse o maior romancista colombiano, há 22 anos, numa entrevista a uma rádio de Bogotá. «O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada no confronto descarnado com a realidade. Quem não tiver nascido para isto, quem não estiver disposto a viver exclusivamente para isto, jamais pode­rá permanecer neste ofício incompreensível e voraz, cuja obra termina após cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não con­cede tréguas até começar tudo de novo, com mais ardor do que nunca, no minuto seguin­te.» Gabo, que se tornou um dos escritores mais influentes do mundo, que ganhou um Nobel a escrever ficção, sempre considerou que a melhor das narrativas era a realidade.

As suas reportagens sobre Lisboa não ti­veram grande impacte na Colômbia, mas ele insistiu sempre na necessidade de escrever histórias como aquelas para que lentamen­te os horizontes dos cidadãos se abrissem.

«As edições que tinham estes temas inter­nacionais eram as que menos vendiam», re­corda Enrique Santos Calderón. «Mas Gabo tinha avançado com o dinheiro e queria es­crever sobre Portugal, como depois quis es­crever sobre Cuba e mais tarde sobre Ango­la.» O seu interesse sobre o país tinha mais de um ano. «Entre 1968 e 1974, García Már­quez viveu em Barcelona, foi lá que escreveu O Outono do Patriarca. Logo a seguir à Revo­lução dos Cravos, ele pegou no carro e foi até à fronteira portuguesa, mas não o deixaram entrar porque não tinha visto.»

Desde o final de 1973 que o homem andava em trânsito: Barcelona, Bogotá e Cartagena de Índias. No ano anterior tinha ganho, com Cem Anos de Solidão o prémio literário vene­zuelano Rómulo Gallegos, o mais importan­te da América Latina, no valor de cem mil dólares. Uma parte desse dinheiro foi usada para fundar a revista Alternativa. «Depois da morte de Allende e da subida ao poder de Pi­nochet, tornara-se claro que a esquerda na América Latina precisava de esquecer as di­visões e de se unir em torno de um projeto comum», explica Antonio Cavallero. «No primeiro número, em fevereiro de 1974, es­gotámos a edição e num instante chegámos aos quarenta mil exemplares. A nossa filoso­fia era dar uma visão de esquerda, mas tratar os assuntos com rigor.»

«O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada no confronto descarnado com a realidade. Quem não tiver nascido para isto, quem não estiver disposto a viver exclusivamente para isto, jamais pode­rá permanecer neste ofício incompreensível e voraz, cuja obra termina após cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não con­cede tréguas até começar tudo de novo, com mais ardor do que nunca, no minuto seguin­te.»

Portugal foi a primeira grande reporta­gem no estrangeiro da Alternativa. Nos anos seguintes, García Márquez haveria de es­crever artigos sobre Cuba, Angola, Espa­nha, Panamá, Rússia e Vietname. «Não que­ro um boletim sindical, quero um jornalis­mo sério e comprometido até ao tutano», repetia uma e outra vez, nas reuniões que se prolongavam até altas horas da noite, em ca­sa de Enrique Santos Calderón. As rivalida­des internas e as pressões do governo fize­ram Gabo desistir do projeto em 1980 e mu­dar-se para a cidade do México. Até 1978, a presidência de Alfonso López tinha dado alguma margem de manobra à Alternativa. A subida ao poder do governo conserva­dor de Julio César Turbay coincidiu com o aperto do cerco ao escritor. Algumas figuras poderosas do país, nomeadamente a família Santo Domingo, anunciaram cortes de rela­ções. «A saída da Colômbia foi um exílio não declarado», diz Jaime Abello, presidente da Fundação de Novo Jornalismo Ibero-Ame­ricano, que ambos fundaram em Cartagena de Índias há 19 anos.
Jaime García Márquez é perentório: «O período mais político da vida do meu ir­mão começou com a revolução cubana e ter­minou com o fim da revista Alternativa

Ao contrário do senso comum, diz ele, Gabo nunca foi comunista. «Era amigo de Fidel Castro, sim, mas também se dava com Hen­ry Kissinger [secretário de Estado norte-americano entre 1969 e 1977], apesar de dis­cordar dele. Fascinavam-no as lutas de clas­ses, as transformações sociais, a ascensão do povo, tanto quanto era fascinado pelo po­der. Toda a sua obra, de Cem Anos de Solidão a O Outono do Patriarca, passando por O General no Seu Labirinto e Ninguém Escreve ao Coronel, fala da solidão do poder, da subida ao poder e das vítimas do poder.»
Juan Gossaín, o jornalista que recebeu um postal lisboeta de Gabo, acredita que houve um pouco desse fascínio no seu en­cantamento por Portugal. «A ele sempre lhe fascinou a ideia do ditador e, comparado a Franco, Salazar era mais tropical. Lisboa parecia uma cidade do Caribe e a figura de Spínola, que no fim do século XX ainda usa­va monóculo, era digna do realismo mágico dos seus livros.» Esta, diz Gossaín, era a con­versa antes de partir para Portugal. Quando voltou, vinha doido com três descobertas: o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, os fados de Amália e o despojamento dos mi­litares em relação ao poder. «Mas a primeira coisa que ele me disse foi que, ao contrário do que eu pudesse pensar, a feijoada não era um exclusivo brasileiro. E garantiu-me que co­meu a melhor feijoada da sua vida num res­taurante que não tinha mais de seis mesas, num bairro pobre de Lisboa.»

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

O anúncio feito por Jaime García Márquez em julho do ano passado causou algu­ma consternação no mundo literário. Aos 85 anos, o mais lido dos autores latino-ameri­canos e um dos romancistas mais reconhecidos do mun­do deixou de escrever. Não é bem uma morte, mas é um ponto final em tudo o que definiu a sua vida. A sua autobiografia chama­va-se, precisamente, Viver para Contá-la.

Nascido em 1927 em Araca­taca, no Caribe colombiano, Gabriel foi o mais velho de 12 irmãos. Estudou Direito em Bogotá, mas, aos 21 anos, decidiu abandonar os estudos para se dedicar ao jornalismo. Mudou-se para Cartagena de Índias e empregou-se no El Universal. Daí rumou a Barranquilla, outra cidade caribenha, onde escreveu uma crónica que deu nas vis­tas, «La Jirafa». Até que, ao serviço de um dos principais jornais do país, El Especta­dor, se tornou conhecido na Colômbia. Ao longo de uma série de 14 episódios contou a história do naufrágio de um barco e conseguiu com isso pôr em causa todo o governo colombiano. Os fascículos haveriam de ser reunidos no livro Relato de Um Náufrago.

Depois da afronta ao execu­tivo, o jornal decidiu enviá-lo como correspondente para a Europa. Foi aí que o homem começou a dedicar-se seria­mente à escrita. Em 1955, já tinha publicado um romance que escrevera aos 18 anos, La Hojarasca e, em 1967, edi­ta Cem Anos de Solidão, um romance centrado na ima­ginária terra de Macondo e das sete gerações da família Buendía.

Considerada a obra maior do realismo mágico, até hoje, é indubitavelmente o livro de referência de Gabo. Graças a este romance e a O Outono do Patriarca [1975], ganhou todos os prémios que podia ganhar, incluindo o No­bel da Literatura, em 1982.

Voltou ao jornalismo em 1974, para fundar a revista Alternativa, aventurando-se no jornalismo político. Apro­veitou a sua reputação para viajar pelo mundo e, nesse contexto, veio a Lisboa em 1975, perceber a revolução e o período que se lhe seguiu. Apesar de ser já uma figura de proa das letras mundiais, essa viagem foi praticamente ignorada em Portugal, me­recendo referências brevís­simas no Diário de Notícias, Jornal de Letras e no extinto Diário Popular. Em 1980, abandonaria o jornalismo, ao qual só voltaria em 1994, pa­ra fundar com Jaime Abello uma fundação em Cartagena de Índias que promovesse a ética profissional e a investi­gação na América Latina e na Península Ibérica.

Crónica de Uma Morte Anun­ciada, Do Amor e Outros Demónios, O General no Seu Labirinto, O Amor nos Tempos de Cólera e Memó­rias das Minhas Putas Tristes são algumas das suas obras mais relevantes. Em março de 2013, saiu na Colômbia uma coletânea de reportagens de Gabriel García Márquez, com o título Gabo Periodista. Reúne crónicas, reportagens e ensaios. Entre os trabalhos publicados não há registo de nenhuma das histórias que escreveu sobre Portugal.

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