OPINIÃO

Tragédia de Pedrógão: “A EN236, obviamente, devia ter sido fechada”

Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, lança novamente o alerta: com o aquecimento global, os fenómenos climatéricos extremos serão cada vez mais frequentes – e imprevisíveis. Foi o caso da trovoada seca de sábado que, aliada ao calor intenso e à vegetação cerrada, terá dado origem ao gigantesco incêndio de Pedrógão Grande.

Entrevista de Ana Pago

O que é, ao certo, uma trovada seca? Não se fala de outra coisa nos últimos dias, mas a maioria das pessoas nunca terá ouvido a expressão até agora…
É uma trovoada em que não há precipitação ou, havendo precipitação, é muito pouca. Uma trovoada acontece quando o território está muito quente – o solo aquece demasiado como se fosse uma frigideira ao lume, acontece muito na Península Ibérica – e então o ar quente sobe, à medida que sobe o vapor de água condensa, formam-se gotas de água e gelo a uma grande altitude – a partir dos oito mil metros – e depois com o peso essas gotas de água, esse gelo, caem sob a forma de precipitação. Se estiver muito calor, se a atmosfera estiver muito seca como foi o caso no fim de semana, essa chuva não chega ao solo porque vai evaporar pelo caminho. Mas há na mesma trovões e relâmpagos e a isso se chama trovoada seca, que é típica dos climas áridos e desérticos de África. Acontece também muito na região oeste dos EUA.

Filipe Duarte Santos

Em Portugal é um fenómeno comum, ou nem por isso?
Está a ficar cada vez mais frequente, uma vez que estamos a ter um clima mais quente – já toda a gente reparou nisso, não são só os termómetros a marcar a subida da temperatura – e estamos numa onda de calor. Além disso, também temos um clima menos chuvoso, mais seco: neste ano em particular choveu muito pouco. O verão ainda nem começou e vamos enfrentá-lo com as barragens da Península Ibérica a uma média de 50 por cento do seu nível máximo. Portanto, estamos com um clima mais mais seco e mais quente, que potencia a ameaça de fogos florestais.

«Sabe quantas ignições há em média no país, por ano? Vinte e cinco mil! Vinte e cinco mil bocadinhos de floresta que começam a arder e acabam, na sua maioria, por ser apagados por pessoas que os veem e evitam que se transformem em incêndio.»

Tudo condições favoráveis para que uma fatalidade de proporções idênticas possa repetir-se?
O país está mais quente e seco devido às alterações climáticas, pelo que situações meteorológicas como as que potenciaram o incêndio de Pedrógão Grande tenderão a tornar-se mais frequentes. Desde 1999 que prevíamos este aumento do risco de incêndio florestal no âmbito do Projeto SIAM [Scenarios, Impacts and Adaptation Measures, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa]. Publicámos inclusive gráficos, estudos e cálculos a comprovar. É preciso ter em conta as trovoadas secas, sim, mas tão importante como isso é perceber que no dia 17 de junho, o sábado deste acontecimento dramático, houve 156 ignições. Ou seja, a floresta portuguesa começou a arder em 156 pontos diferentes. Aqui, ali, acolá, 156 fogachos, nem todos provocados por causas naturais. Muitos são de origem criminosa e, contudo, temos um sistema de justiça muito benigno, com dificuldade em fazer condenações. Vamos ver se o país aguenta.

Ainda assim, nunca antes tinha havido um fogo igual, com tantos mortos. O que fez a diferença neste caso concreto de Pedrógão Grande?
Foi todo o somatório de circunstâncias especiais: as temperaturas elevadíssimas nesta altura do ano a potenciarem a formação de trovoadas secas, com a pouca humidade do ar a fazer com que a chuva se evapore antes de chegar ao solo, mas na mesma com queda de raios. As rajadas de vento quente e seco associados à própria trovoada, ao fogo e às diferenças de relevo no local. O facto de ter havido um fogo precisamente naquela estrada e de várias pessoas estarem a passar ali àquela hora, sem verem nada, aparentemente a fugir. O tipo de floresta existente na zona. A falta de ordenamento e de manutenção. E se não se fizer nada, a probabilidade de outras tragédias como esta se repetirem é grande.

«Ficar parado naquele sítio [EN236], com temperaturas elevadíssimas e as árvores a arder à beira da estrada, foi fatal.»

Haver eucaliptos e pinheiros plantados até mesmo à beira da Estrada Nacional 236, onde 47 pessoas perderam a vida, não terá ajudado…
Nada. São árvores altamente combustíveis, sem uma berma sequer a separar. Logo a seguir havia uma encosta, e quando o fogo arde numa encosta existe uma diferença de temperaturas muito grande, o ar quente de que lhe falava há pouco sobe e, ao subir, provoca ventos fortes. O que provavelmente aconteceu foi que os condutores deixaram de ver com o fumo denso, como se andassem no meio de nevoeiro cerrado, sem conseguirem conduzir, e começou a haver colisões de viaturas. Sendo que ficar parado naquele sítio, com temperaturas elevadíssimas e as árvores a arder à beira da estrada, foi fatal. Isto tem a ver com o modo como a floresta estava desordenada. Nas estradas antigas que temos em Portugal estão plantados plátanos, que ardem com mais dificuldade e não de maneira explosiva como o eucalipto e o pinheiro.

Já disse por diversas vezes que Portugal é o único país europeu cuja mancha florestal tem decrescido em consequência dos fogos…
E o que tem o maior número de ignições da Europa por cem mil habitantes. Sabe quantas ignições há em média no país, por ano? Vinte e cinco mil! Vinte e cinco mil bocadinhos de floresta que começam a arder e acabam, na sua maioria, por ser apagados por pessoas que os veem e evitam que se transformem em incêndio. Em 2005 atingiu-se o recorde das 35 mil ignições. E esse é um fenómeno que agrava – e muito – a situação dos incêndios, os quais resultam mais prováveis e mais graves devido a este número elevado. Portugal não tem conseguido responder quantos destes têm origem criminosa, mas uma coisa é certa: ou bem que os reduzimos para dez mil ou cinco mil, de forma a serem mais geríveis, ou está tudo perdido. E isso implica que haja dissuasão, não há volta a dar. E um ordenamento florestal que falha.

«Um dos grandes problemas da floresta portuguesa é que grande parte dela não tem valor económico. e aquilo que não tem valor acaba por se perder, não é?»

Todos os anos se coloca essa questão do estado de manutenção da floresta. Como se pode traduzir isso em planeamento e medidas concretas na área do território?
Não vai ser uma coisa fácil de fazer, nem nada que aconteça de um ano para o outro. Um dos grandes problemas da floresta portuguesa é que grande parte dela não tem valor económico. São pinhais antigos, com cadastro deficiente, em que a propriedade está muito dividida. Muitas vezes os donos estão emigrados ou nem se lembram que têm aquele pinhal. E aquilo que não tem valor acaba por se perder, não é? A floresta que nos traz divisas, explorada pela indústria da pasta de papel, é naturalmente mais bem gerida. Mas depois temos toda a restante floresta nas mãos de privados que não têm interesse nenhum em defendê-la. Penso que seria necessário investir em associações de proprietários, criar parcelas maiores e explorá-las do ponto de vista económico – algo que não se faz de um momento para o outro. E lá está: ver o que é necessário mudar no país para se diminuir as ignições.

Mas não se tratando de fogo posto, como podia prever-se e impedir um incêndio assim? Ou não podia?
É difícil responder, até porque houve realmente uma série de circunstâncias excecionais neste caso e a natureza foi determinante. Não sei os detalhes para poder estar aqui a opinar, mas julgo que pelo menos se devia ter logo fechado aquela estrada. Hoje em dia, as imagens de satélite que nos indicam onde estão os fogos são diretamente acessíveis, de modo que se as pessoas que estiverem no terreno tiverem acesso a elas podem saber quais as estradas que devem ser cortadas, e quando. A EN236, obviamente, devia ter sido logo fechada. Aliás, neste momento existem várias estradas cortadas naquela região do país pelas mesmas razões.

 

FILIPE DUARTE SANTOS

Professor catedrático de Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, dedica-se à investigação nas ciências do ambiente desde a década de 1980, nomeadamente às mudanças globais e alterações climáticas. Coordenou a redação do primeiro e único Livro Branco sobre o Estado do Ambiente em Portugal, publicado em 1991. Membro efetivo da Academia das Ciências de Lisboa, integra ainda o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável desde 1998. É gestor da área de Desenvolvimento Sustentável do CYTED – Programa Ibero-Americano de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento.