OPINIÃO

Filhos teimosos? Nem sabe a sorte que tem, diz a ciência

Basta pensar em persistência e determinação, em vez de na teimosia pura e dura, para se perceber o potencial que há em ter filhos teimosos.

Texto Ana Pago | Fotos da Shutterstock

Mesmo quando a filha lhe faz a cabeça em água (e faz), Teresa Antunes não consegue impedir-se de rir das suas tiradas. «Desde os 3 anos que a Inês fala pelos cotovelos e desde aí que me questiona acerca de tudo», conta a mãe, habituada à vontade forte da pequena. Aos 6, Inês é perita em convencer Teresa a deixá-la ver «só mais um bocadinho» de desenhos animados ou a fazer que o primo de 11 jogue sempre ao que ela quer, com cãezinhos e princesas. «É teimosa como nunca vi, às vezes chocamos de frente. Por outro lado, descansa-me sabê-la tão determinada», diz a mãe.

Estudo diz que crianças teimosas tendem a ser melhores alunos e adultos mais bem sucedidos. Além disso, em adolescentes, tendem a ser menos influenciáveis e menos permeáveis a más companhias.

E tem boas razões para isso, a avaliar por um estudo luxemburguês conduzido por Marion Spengler, investigadora em ciências da educação, que indica que as crianças teimosas tendem a ser alunos melhores (porque mais exigentes também nas aulas), além de se tornarem adultos mais bem pagos e dispostos a lutar pelos seus interesses – por muito que essa atitude possa irritar colegas e amigos. A mesma pesquisa, divulgada no jornal Developmental Psychology, sublinha ainda serem menos permeáveis às más companhias e a problemas daí decorrentes.

«Uma criança que é persistente está a ir ao encontro das suas necessidades e do que deseja. Tem raciocínio lógico – consegue fundamentar os porquês de querer determinada coisa daquela forma – e uma inteligência emocional desenvolvida, que lhe permite adaptar os argumentos à pessoa que tenta convencer e que é, até, mais importante do que a inteligência cognitiva», explica Magda Gomes Dias, especialista em educação positiva.

Por ela, é adepta desta teimosia boa. «Os pais percebem ser uma mais-valia para as suas crianças, apesar de haver alturas em que lhes será mais difícil fazê-las aceitar o que lhes pedem», diz a formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais, conhecida pelo blogue Mum’s the boss e o site Parentalidade Positiva.

Outra coisa bem diferente é ter um filho sistematicamente do contra, que pode inclusive ir contra aquilo que ele próprio deseja. «Isto, sim, é péssimo, porque não se colocará à frente do que quer e, portanto, não conseguirá tomar boas decisões», alerta. Já para não falar que uma criança a fazer oposição constante costuma ser uma grande fonte de conflito e pode ter consequências negativas na relação entre pais e filhos e na própria criança.

Como se gere este equilíbrio de vontades quando cabe aos pais dizerem «não» e aos miúdos questionarem-nos sistematicamente?

Teresa Andrade, psicóloga clínica e investigadora em pedagogia, concorda que capricho e teimosia são coisas distintas: «Crianças teimosas ou determinadas tendem a ser mais independentes. Gostam de ganhar, competir, fazer elas mesmas, de se sentir com controlo sobre as situações que as afetam. Este traço de personalidade pode ser aproveitado para desenvolver uma forte apetência para a autonomia e a liderança, embora o sucesso dependa de como a criança, no exercício da sua vontade, afetará os que a rodeiam de forma mais ou menos positiva.» O capricho é diferente e é mau.

Uma coisa é certa: estar sempre a punir filhos teimosos não faz que se portem melhor, segundo um novo estudo alemão citado pelo jornal inglês Daily Mail. Pelo contrário: farão ainda pior, em jeito de desafio. «Eles só aprenderão a parar se os pais lhes apresentarem alternativas em vez de críticas constantes», adianta o professor e autor principal do estudo Andreas Eder, do Instituto de Psicologia Geral da Universidade de Würzburg (Teresa Andrade subscreve).

«Não serve de nada barafustar ou bater nos filhos por estarmos cansados. Quanto mais sentirem que nos perturbam, mais nos desafiam», diz a psicóloga Teresa Andrade.

O que nos traz de novo à questão da autoridade parental: como se gere este equilíbrio de vontades quando cabe aos pais dizerem «não» e aos miúdos questionarem-nos sistematicamente? Como educar os nossos filhos teimosos e cheios de potencial sem lhes cortarmos as asas nem perdermos a cabeça? «Reagindo menos e agindo mais», aponta Teresa Andrade, apelando à paciência e bom senso dos pais. «Há que lidar com eles sem gritar ou dar ordens estanques, com uma firmeza serena e flexível, compreendendo que gostam de participar nas decisões que os afetam, tal como nós.»

Não serve de nada barafustar ou bater-lhes por estarmos cansados, porque quanto mais sentirem que nos perturbam, mais nos desafiam. «Além de que estas crianças gostam de ser ativas e ter uma palavra a dizer, daí serem tão exigentes», sublinha a psicóloga, percebendo que elas requeiram dos educadores estratégias que as envolvam nos processos de decisão e as façam sentir-se valorizadas. «Os pais podem sempre agarrar-se à ideia de que os seus filhos vão sair-se lindamente neste mundo, onde quem sabe o que quer faz geralmente melhores opções.»

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