Duas décadas a adorar o menino Harry

Na semana em que se celebra o vigésimo aniversário do primeiro livro de Harry Potter, lançamos um olhar sobre o fenómeno literário, a passagem a cinema e ao teatro e a loucura mundial dos jovens fãs que entretanto cresceram – tal como o próprio feiticeiro e Daniel Radcliffe, que lhe deu corpo.

Texto Rui Pedro Tendinha

7. POTTERMANIA

Tudo começou a 26 de junho de 1997, quando a versão original de Harry Potter e a Pedra Filosofal chegou às livrarias (já havia registo de vendas no ano anterior, mas eram residuais). Desde então já se venderam cerca de 450 milhões de livros de uma saga. O que fez de J.K. Rowling, a autora, uma mulher muito, muito rica. Como é que uma fantasia sobre feiticeiros e um mundo paralelo de fantasia, conseguiu um feito recordista que não há memória. Sete livros que, vinte anos depois, continuam a ser vendidos, alavancados no fenómeno cinematográfico que cresceu com eles.

Se parte desta loucura se deve a uma necessidade de a literatura popular e de massas estar a precisar de um O Senhor dos Anéis para uma nova geração, a verdade é que Harry Potter tornou-se na mais mitificada personagem de ficção dos tempos modernos. Se envelheceu bem ou mal, ainda é cedo para perceber. O ano de 1997 não foi assim há tanto tempo. Se no mercado dos livros chamar fenómeno a tudo isto é pouco, no cinema, o negócio não teve precedentes. Quase oito mil milhões de dólares (cerca de 7,1 mil milhões de euros) é a soma da receita dos oito filmes (o último livro foi dividido em dois), valor que bate as somas de todos os James Bond, Star Wars e os seis O Senhor dos Anéis, ficando apenas atrás da saga Marvel Cinematic Universe (ou seja, Hulk, Homem de Ferro, Thor e Homem Formiga são os donos disto tudo).

O filme mais visto no mundo inteiro foi Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 2, seguido de perto por Harry Potter e a Pedra Filosofal, ou seja, o último e o primeiro. Nenhum dos restantes filmes teve más receitas e todos causaram sensação mundial, mesmo quando por vezes eram maltratados pela crítica.

6. O PRIMEIRO

Harry Potter e a Pedra Filosofal é, de todos os livros, o que mais exemplares vendeu. Estima-se que tenham sido mais de 107 milhões de pessoas a adquirir a primeira aventura de Harry Potter, o livro mais vendido dos nossos dias (à sua frente, apenas O Alquimista, de Paulo Coelho). Tanto dinheiro amealhado faz de J.K. Rowling a escritora mais bem paga do mundo.

As boas línguas dizem que até agora já ganhou cerca de 900 milhões de dólares, número que vai crescer com o futuro de Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, a saga que retoma o universo Harry Potter. Em Portugal, a editorial Presença gabava-se há anos de afirmar que dez por cento dos leitores nacionais já terem lido os livros. Só os primeiros quatro venderam um milhão de exemplares, tendo Harry Potter e a Pedra Filosofal chegado à marca das 340 mil unidades, um recorde…

Até hoje, estima-se, terão sido vendidos mais de um milhão e seiscentos e cinquenta mil livros em Portugal. Os portugueses gostam mesmo destes pequenos bruxos…

5. DANIEL RADCLIFFE: A VIDA DEPOIS DE POTTER

Ser Harry Potter é claro que marca um ator. O mundo cresceu a ver este rapaz inglês a ficar adolescente e, depois, adulto. Daniel Radcliffe, desde cedo, decidiu que queria ser ator a sério. Quis e conseguiu ter uma carreira para além do jovem feiticeiro. Não era fácil, não está a ser fácil, mas em Hollywood forçou um caminho e conseguiu ser respeitado. Respeitado sobretudo pelas escolhas algo improváveis, como por exemplo o seu papel em Swiss Army Man, onde interpreta um cadáver com problemas de gases.

Mais tarde ou mais cedo, o seu percurso talvez siga mais uma ideia de cinema alternativo – vamos vê-lo em Jungle, de Greg McLean, onde interpreta um jovem americano perdido numa selva da América do Sul. Em 2012, entrou em A Mulher de Negro, onde era protagonista, faturou números bem significativos nos EUA. Além dos filmes, fez também furor nos palcos londrinos, sobretudo na peça Equus, onde aparecia todo nu.

4. HARRY POTTER AO VIVO

Harry Potter And The Cursed Child continua nos palcos de Londres e Nova Iorque. A tão desejada peça teatral escrita por J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, não é mais do que um olhar sobre o futuro da personagem de Harry Potter, agora adulto e a contas com Albus, o seu filho, que tenta recusar todo o legado de feitiçaria. A peça está dividida em duas partes e as representações alternam entre show de matiné e da noite. Nos Prémios Olivier (os Óscares do teatro do West End) bateu recordes: nunca antes um espetáculo tinha vencido nove estatuetas.

Mas a Pottermania nos palcos continua a rodar pelo mundo também nos concertos ao vivo da banda-sonora. Chamam-se Harry Potter Film Concert Series e são concertos que estão acompanhados pela exibição dos filmes em simultâneo. Os temas de John Williams continuam a ter aquele poder de atrair muitas gerações.

Os mais saudosos da saga podem sempre visitar os estúdios Warner, em Londres, onde a experiência dos filmes Harry Potter está toda escarrapachada. Na América, são os estúdios Universal, nos seus parques temáticos, quem têm as atrações Harry Potter. O fã pode entrar em Hogwarts através de réplicas dos locais que J.K. Rowling imaginou e que os filmes imortalizaram. Trata-se de uma fonte de receita que continua a gerar milhões…

3. CRIANÇAS A LER LIVROS: A BOA NOTÍCIA

O fenómeno dos livros de Harry Potter começou antes da boleia das adaptações ao cinema. Já havia a Pottermania antes dos filmes, mas o peso do marketing do filme aumentou ainda a loucura. Há vinte anos não havia um hábito de leitura tão forte em adolescentes de todo o mundo.

A chegada de cada livro era tomada como um acontecimento, com fãs à porta das livrarias e as edições a esgotarem. Impensável pensar que um miúdo era capaz de devorar um calhamaço de forma ávida. Os jovens identificam-se com Harry e os seus colegas da escola de feitiçaria e as artimanhas da narrativa são algo decalcadas dos efeitos de saga de O Senhor dos Anéis, de Tolkien. Aliás, os livros de Tolkien, não tiveram todos este estardalhaço mediático na altura porque não havia net.

A geração que cresceu nos anos 1990 e a de 2000 cresceu com esta leitura. Goste-se ou não, a saga de Potter fez muito pelos hábitos de leitura e ajudou depois a fenómenos literários como Hunger Games ou Twilight a terem o seu público (um pouco mais crescido, já agora…).

2. O PÃO NOSSO DO CINEMA NO REINO UNIDO

Oito filmes em regime de mega-produção mexeram com a indústria de cinema em Inglaterra. O dinheiro de Hollywood, vindo da Warner Bros, funcionou como um boost para um país que acolheu as produções nos estúdios de Pinewood, não muito longe de Londres.

Ao longo de cerca de década e meia, grandes nomes fizeram parte desta franchise.
É impressionante ver a quantidade de talentos que estes filmes reuniram. Uma espécie de best-of da representação britânica onde couberam Ralph Fiennes, o falecido Alan Rickman, Gary Oldman, Robert Pattinson, Brendan Gleeson, Julie Walters, Maggie Smith, Michael Gambon, Bill Nighy e Helena Bonham Carter. De realçar ainda a fotografia de Eduardo Serra, o nosso mais internacional diretor de fotografia, em filmes como os dois Harry Potter e os Talismãs da Morte.

Agora, a Warner tem outra galinha de ovos de ouro, a saga pré-Potter que J.K. Rowling está a desenvolver: Monstros Fantástcos e Onde Encontrá-los. O primeiro foi um sucesso tão grande que Jo e os argumentistas de Hollywood já estão a trabalhar em mais quatro filmes. O segundo estará pronto para o ano e o último para 2024.

1. O PORTO ANTES DA FAMA GLOBAL

J.K. Rowling, criadora do universo Harry Potter, passou 19 meses no Porto e foi casada com um portuense, o jornalista Jorge Arantes. Um período em que supostamente a escritora teve uma vida pouco fácil e onde terá tido inspiração para algumas histórias de Harry Potter.

De concreto pouco se sabe, a não ser uma série de rumores sobre a sua presença na Invicta durante 1992. A escritora com alcunha de Jo evita sempre falar do «período negro» do Porto, mesmo quando esses 19 meses em Portugal resultaram no nascimento da sua filha Jessica. A chegada ao Porto ocorreu depois da morte da mãe e Jo terá querido esquecer a Inglaterra.

Na altura chegou a dar aulas de Inglês e foi lá que conheceu o então futuro marido. O primeiro livro de Harry Potter terá sido rabiscado em cafés da cidade e, «reza a lenda», chegou a frequentar o mítico café Majestic. Os rumores também sugerem que as escadas da livraria Lello terão inspirado a autora a criar a escadaria de Hogwarts.

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