OPINIÃO

Vestidos que mudam vidas

A comemorar um ano em Portugal no dia 19 de julho, a Associação Dress a Girl Around the World já vestiu cinco mil meninas, em mais de dez países. Este foi, provavelmente, o primeiro vestido novo que receberam na vida. Mas alcançaram também a possibilidade de sonhar.

Texto Cláudia Pinto Fotografia Carlos Manuel Martins e Gustavo Bom/Global Imagens

Aos 11 anos, a brasileira Vanessa Campos fez um desenho em que imaginava que pilotava um helicóptero e salvava crianças. Com a inocência típica da idade, sonhava ser piloto voluntária. Hoje, com 49, é fácil de perceber que aquele esboço guardado pela mãe faz algum paralelismo com a sua vida. Incentivada pelo marido, Ricardo Magalhães, piloto reformado, Vanessa decidiu tirar o curso em 2015, nos EUA, sendo certificada pela Federal Aviation Administration.

Para trás, ficou uma carreira na área financeira, no Brasil e em Hong Kong, que terminou em 2013. «Cansei-me do stress. Já tínhamos algum património e optei por dedicar-me totalmente a uma causa social», conta. Foi em maio do ano passado que Vanessa e o marido decidiram vir viver em Portugal durante um ano. Talvez influenciada pelo facto de o pai e de os avós paternos serem portugueses, confessa que se sente em casa e está completamente rendida ao país. «Costumo comentar com o meu marido que o meu sentimento por Portugal pode ser descrito como uma estranha sensação de pertença.» A estada prolongou-se e já não tem data de término.

Vanessa Campos
Vanessa Campos é a embaixadora do projeto Dress a Girl Around the World.

Foi nos EUA que tomou contacto com o projeto Dress a Girl Around the World. Fundado em 2009 por Rachel Eggun Cinnader, é uma Organização Não Governamental (ONG) que tem como objetivo entregar vestidos a meninas, dos dois aos 12 anos, que vivem em países abaixo do limiar da pobreza. Até à data, a ONG já distribuiu 500 mil vestidos por 81 países.

Vanessa começou como voluntária, costurava alguns vestidos com uma amiga, até que Rachel lhe perguntou se queria ser a embaixadora do projeto em Portugal. «Achei improvável, não conhecia ninguém cá, não tinha amigas, até que um dia visitei a loja The Craft Company, em Cascais, e falei com a gerente Sacha Egreja sobre o projeto e pedi algumas sugestões de tecidos. Ela ficou superentusiasmada e convidou-me a participar num dos encontros solidários de costura que organizava.»

Assim foi. A 19 de julho de 2016, começava então o Dress a Girl Around the World, em Portugal, num encontro com 25 mulheres, de várias idades. Um ano depois, o balanço é positivo. Com 21 parceiros em vários pontos do país, incluindo os Açores (entre ateliês, centros de dia e lares de idosos), mais de seis mil seguidores no Facebook, e cinco mil vestidos distribuídos em mais de dez países, a recetividade tem sido crescente. Já foram feitas entregas em Moçambique, Quénia, Camarões, São Tomé e Príncipe, Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Gâmbia e Senegal. A estes países, juntam-se, já em julho e agosto deste ano, Uganda e Madagáscar.

Cada vestido tem uma cueca no bolso, com o objetivo de «dar mais proteção e dignidade a estas meninas», explica Vanessa Campos, embaixadora em Portugal do Dress a Girl Around the World . Esta é uma das diferenças em relação ao projeto norte-americano.

Existem embaixadores em vários países mas Portugal tem sido apontado como «um caso de sucesso», diz Vanessa. Apesar das doze horas diárias que passa envolvida no mesmo, o sentimento é de gratidão. «Ganhei um bom dinheiro na área financeira, aposentei-me com uma posição relevante, como vice-presidente de risco de um banco, mas nunca fui tão feliz na vida como agora, quando não ganho um cêntimo.»

Existem três modelos de vestidos – com mangas, alças e fitas – e todos obedecem a características comuns: têm cores vivas e coloridas – devem evitar-se os vestidos brancos e pretos por questões culturais – e são de algodão. Cada vestido tem uma cueca no bolso, com o objetivo de «dar mais proteção e dignidade a estas meninas», explica Vanessa. Esta é uma das diferenças em relação ao projeto norte-americano. «Não fazia sentido oferecer um vestido e saber que elas não tinham cuecas por baixo.»

Nem sempre é possível aos voluntários fazerem entregas pessoalmente. A associação não recebe donativos monetários, ao contrário da ONG originária, e nem sempre é conseguido apoio para as viagens e despesas associadas. Nesse caso, existe uma parceria com as ONG internacionais que passam por uma análise criteriosa desde que as mesmas se responsabilizem em documentar as entregas através de fotografias e vídeos. «Pela credibilidade do projeto, se não conseguirem honrar este compromisso, não entregamos os vestidos.»

Em janeiro deste ano, Vanessa decidiu ir com a voluntária Virgínia Otten acompanhar a oferta de 500 vestidos em algumas zonas de Moçambique (em Vilankoulos, Inhassoro e ilha de Bazaruto), em parceria com a ONG SIM (Solidariedade Internacional a Moçambique). Emociona-se ao lembrar o que os olhos viram e a memória registou. «Estivemos lá dez dias e chorei em todos eles. Fiquei com a sensação de que nada do que façamos é suficiente. Vimos meninas cuja vida já foi tão cruel e percebemos que estavam completamente vazias de sentimentos. São meninas sem esperança, sem sonhos. Têm idade para brincar e estão a tentar sobreviver. É muito duro e não sabemos se algumas delas não sofrem algum tipo de violência também nas próprias casas…», conta.

«Imagine um mundo em que cada menina recebe, pelo menos, um vestido na vida». Eis o slogan deste projeto. «Muitas destas meninas vivem em aldeias esquecidas nestes países ou em orfanatos porque os pais morreram de sida. Normalmente, vestem o que sobra, o resto dos restos. Temos um vídeo de meninas nuas a correr nas ruas em Angola quando anunciaram que os vestidos estavam a chegar. É incrível. Eu ainda tenho a esperança de que, de alguma forma, conseguimos fazer alguma diferença na vida destas meninas, também em termos de autoestima e de proteção.»

Cada vestido tem uma etiqueta com o nome da associação. Algo simples mas com um impacte incrível. Segundo alguns líderes de algumas aldeias, houve uma diminuição do índice de violência sexual de algumas meninas porque os predadores sexuais acham que as mesmas são protegidas por uma ONG.

Apesar do entusiasmo e da felicidade com que recebem o seu vestido, algumas meninas ficam desconfiadas. Isso é visível em algumas fotografias tiradas pelos voluntários responsáveis pelas entregas. «Elas não acreditam que estamos mesmo a oferecer-lhes um vestido novo sem pedir nada em troca. No caso das mais novas, elas não sabem para que servem as cuecas, daí a cara de espanto. Temos ainda a informação que, durante a menstruação, como não há nada para estancar, muitas delas não saem de casa para estudar ou trabalhar.»

Cada vestido tem obrigatoriamente uma etiqueta própria com o nome da associação. Algo simples mas com um impacte incrível. «Segundo alguns líderes religiosos ou líderes locais de algumas aldeias, houve uma diminuição do índice de violência sexual de algumas meninas porque os predadores sexuais acham que as mesmas são protegidas por uma ONG. Na verdade, não temos estrutura para oferecer esse tipo de proteção mas esses predadores acham que sim. Se eles se afastam com medo dos meios de comunicação social a que normalmente essas organizações estão ligadas, e se salvarmos uma única menina, isso já vale tudo», conta Vanessa.

Uma das vertentes do projeto em Portugal visa a integração de mulheres idosas. No passado dia 8 de julho, na Associação de Idosos de Palmela, um grupo de voluntárias entregou aproximadamente 60 vestidos e 13 calções.

Outra vertente deste projeto é a integração de senhoras idosas. Vanessa recebe regularmente cartas de pessoas que estavam em casa, isoladas e deprimidas, e que passaram a ter um novo objetivo de vida. Sentem-se úteis. «É uma delícia acompanhar os encontros, assistir às conversas quando se reúnem, à alegria da escolha dos tecidos e das combinações, mas sobretudo ao resgate de memórias de infância quando costuravam com as mães e com as avós. É interessante perceber que invadimos as suas casas com uma explosão de cores, boas energias e como as trouxemos à socialização.» Não há limite de idades para participar neste projeto. «Temos também muitas jovens que gostam de costurar. Cruzam-se várias gerações com um propósito comum.»

No passado dia 8 de julho, na Associação de Idosos de Palmela, um grupo de voluntárias entregou aproximadamente 60 vestidos e 13 calções, uma vez que o projeto alargou recentemente o seu âmbito aos rapazes (ver caixa). «Uma sociedade que não é solidária nem fraterna não evolui», afirmou a presidente da associação, Maria Edite Machado, no momento.

Maria Lúcia Monteiro, de 73 anos, foi uma das participantes. «Tive muito boas experiências na minha vida mas esta foi a que mais me marcou. Comecei a entusiasmar-me com a costura e este projeto emociona-me muito. Só de olhar para o meu neto e ver que não lhe falta nada e pensar no que estas meninas passam…», desabafa.

Com vários anos de profissão como costureira, Maria Lucete Cruz, de 74 anos, abraçou este desafio sem pensar muito. «Estive um mês em Angola, entre o Natal e janeiro deste ano. Foi a primeira vez que me deparei com a realidade de alguns locais e contactei com a extrema pobreza.» Mal sabia que esta viagem lhe daria uma motivação para ajudar este projeto. «Quando estava a costurar, tentava imaginar a criança que iria vestir aquele vestido ou calção», conta.

«Estou muito ansiosa. Acho que será uma enorme emoção ver a reação dos meninos a receberem algo que foi feito com tanto amor.», diz Camila Ribeiro, a voluntária mais nova do projeto, que vai a Madagáscar fazer uma entrega de vestidos.

O resultado desta oferta já tem destino: Madagáscar. A voluntária mais nova do projeto, Camila Ribeiro, levará na bagagem 600 vestidos e cerca de 500 calções. O marido, António, pagou a passagem de ambos e os dois seguem daqui a um mês em missão, por iniciativa própria. «Estou muito ansiosa. Acho que será uma enorme emoção ver a reação dos meninos a receberem algo que foi feito com tanto amor. Tenho uma enorme expetativa, embora também algum receio de contactar com aquela realidade», diz.

Um dia, Vanessa gostaria de entregar vestidos a pilotar. O sonho de ser piloto voluntária não desvaneceu. «Estes vestidos originam sorrisos e brilho nos olhos. Levam dignidade e esperança. É algo mágico e não tem preço.»

SHORTS FOR THE BOYS AROUND THE WORLD

É uma espécie do subprojeto e uma ideia original da associação em Portugal. Foi criada há dois meses e, à data de fecho desta edição, já tinham sido costurados cerca de 455 calções. «A ideia surgiu devido ao facto de algumas pessoas questionarem porque é que não fazíamos calções para os rapazes. Pedi autorização à ONG americana, disseram-me que o foco do projeto era proteger as meninas que são menos valorizadas, especialmente nesses países, mas estamos a investir também nos meninos e a tentar ter os dois projetos em paralelo», explica Vanessa

COMO AJUDAR?

  • Participar nos encontros solidários organizados em vários pontos do país. São fornecidos Kit gratuitos com tecido, o vestido já cortado e pronto a ser trabalhado, as mangas, o bolso e as etiquetas. Quem participa, só tem de saber costurar (é um pré-requisito), e juntar boa vontade e generosidade.
  • Para quem não sabe costurar mas tem habilidade em tricot e crochet, também pode contribuir. Alguns vestidos incluem aplicações nestes materiais.
  • O próximo encontro terá lugar no dia 20 de julho, na loja The Craft Company, das 10h30 às 18h00, na Praça Dr. Francisco Sá Carneiro, 4B, em Cascais.
  • É também para esta morada que podem ser entregues vestidos já prontos ou tecidos (de algodão, opacos e de cores vivas) e cuecas, pessoalmente ou via CTT. Os tecidos e as cuecas devem ser novos (não se aceitam produtos já usados). Eis uma boa alternativa para quem quer participar no projeto mas não sabe costurar. Existem outros locais de entrega e ateliês parceiros, cujas moradas estão disponíveis no blogue da associação
  • Doar milhas da TAP, uma vez que a companhia área apoia a deslocação de alguns voluntários a estes países. «Qualquer passageiro pode entrar no site da TAP e doar as suas milhas à associação. Não trabalhamos com donativos em dinheiro nem temos recursos para viajar, pelo que esta doação é fundamental», explica Vanessa.

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