OPINIÃO

Feliz dia do pai — sem culpa nem remorsos

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Parabéns pelo vosso dia, pais. Hoje é uma data bonita, aproveitem-na. Se ainda tiverem o vosso pai, telefonem-lhe. Melhor do que isso, deem-lhe um abraço, levem-no a almoçar – paguem vocês, claro. Ofereçam-lhe um presente que prove que pensaram nos gostos dele. Façam-no rir.

Se tiverem filhos pequenos, parabéns também por isso. Aproveitem o dia para brincadeiras. Para mimos. Para agradecer a sorte tremenda que é ter um filho. E poder agarrá-lo. E dizer-lhe que gostam dele, que o admiram, que dão valor a esse privilégio que é vê-lo crescer. Ajudá-lo a crescer.

De caminho, façam um favor a vocês mesmos: aproveitem a data para aliviar essa coisa pesada e terrível que nas últimas décadas tomou conta das sociedades modernas e civilizadas, evoluídas e avançadas — a culpa parental. Aquele fardo que carregamos desde que conseguimos começar a pensar nos nossos sentimentos e a verbalizá-los e interpretá-los, ao mesmo tempo que refletimos sobre a quantidade de horas passadas longe dos filhos, atarefados com prazos, equipas, responsabilidades, fluxos de trabalho, vida de adulto. Não é que dantes os pais não se matassem a trabalhar, não é que dantes não conseguissem interpretar o que isso faz a um filho. A diferença é que agora temos tantos estímulos, tantos especialistas, tanta autorreflexão e autocomiseração e autoflagelação em torno da parentalidade ideal, que nos tornámos pais incompletos.

Estamos quase lá, somos quase perfeitos, estamos quase no ponto. Lemos os peritos em amamentação e em sono e em alimentação e em disciplina e em educação. Sabemos que a tecnologia pode ser uma aliada, mas que é importante eles meterem as mãos na terra e verem uma vaca a sério. Consultamos pedopsiquiatras e partilhamos conferências de pedagogos. Pedimos segundas e terceiras opiniões de pediatras, movemos este mundo e o outro para encontrar a escola de que gostamos (e não falo de dinheiro, falo de educação e formação de valores). Queremos que eles sejam bons seres humanos e sejam generosos e agradecidos. Somos os pais mais bem preparados que a mãe natureza pariu e a sociedade moldou. E, no entanto, não estamos ainda lá.

Ter consciência que devemos passar tempo de qualidade com os nossos filhos é bom Mas perdemos tantas horas preciosas a lamentar, preocupados porque não somos tudo aquilo que devíamos e podíamos ser, porque trabalhamos muito, demais, porque demoramos tempo a desligar do trabalho, porque devíamos ter estado atentos a este ou àquele sinal emitido pelos pequenos… que acabamos por não aproveitar em condições o tempo que estamos com eles.

Haverá poucas coisas mais tramadas para um fulano carregar do que a sua própria culpa. Aquele peso tremendo que calcamos na consciência e nos ombros e por isso nos atrasa quando corremos para casa depois de sairmos do trabalho. Querer chegar rapidamente junto dos filhos e não poder estugar o passo por causa do peso dos remorsos podia ser metafórico… se não fosse estupidamente exagerado e, ao mesmo tempo, assustadoramente verdadeiro..

Se a coisa fosse fácil, já teriam inventado um método qualquer guilty-free, em forma de comprimidos, tratamento holístico, massagens, relaxamento ou mesmo terapia. Mas isso ainda não foi desenvolvido e aperfeiçoado. Por enquanto temos apenas a nossa própria vida e os nossos próprios filhos para nos aliviarem a culpa, através do exemplo. Como é que isso se faz, ao certo? Bom, acho que aproveitando os dias, sobretudo. Não é um método perfeito e não sei se está comprovado cientificamente, mas tenho para mim que se perder menos tempo encanitado com a minha culpa e o aproveitar para usufruir melhor da companhia das minhas filhas, quando estou com elas, a coisa vai correr melhor. É que é isso que elas querem, sobretudo. Elas querem que eu esteja. As minhas filhas querem que, quando estou lá, esteja mesmo. Sem estímulos exteriores. E sobretudo sem culpa.

 

[Editado. A versão original foi publicada na edição de 19 de março de 2017 da Notícias Magazine.]

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