OPINIÃO

Design a duas gerações

Quando Graça Viterbo fundou a empresa de design de interiores, a filha mais nova acompanhava-a para todo o lado. Gracinha acabou por seguir os passos da mãe. Durante anos trabalharam juntas, mas a fundadora decidiu retirar-se e deixar a nova geração liderar o negócio.

Texto de Catarina Guerreiro
Fotografia de Jorge Amaral/Global Imagens

Tinha apenas 4 ou 5 anos, mas garante que ainda retém o cheiro a amoníaco que saía das cópias que eram feitas, numa máquina especial, às plantas de arquitetura dos desenhadores que punham no papel as ideias de design de interiores da sua mãe. Nessa época, no início dos anos 1980, Gracinha acompanhava-a para todo o lado, das pedreiras às costureiras, passando pelas obras, pelos escritórios dos desenhadores ou até em viagens de pesquisa.

«Eu falava muito com ela, ia explicando as coisas e até pedindo opiniões», recorda Graça Viterbo, de 71 anos, enquanto olha orgulhosa para a filha mais nova, que este ano completa 40 – e que, além do nome, herdou o negócio e hoje lidera em Portugal e no mundo os ateliês Viterbo.

Graça tirou o curso de Artes Decorativas na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (1964 a 1966), depois seguiu para Londres, onde em 1977 foi a primeira portuguesa a especializar-se em Artes Decorativas na Inchbald School of Design. Quando regressou tornou-se assistente da arquiteta e decoradora Maria José Salavisa.

Graça Viterbo começou a trabalhar em design de interiores nos anos 1970. A filha Gracinha sempre a acompanhou.

«Em 1971 comecei a trabalhar sozinha», recorda. Montou o escritório num pequeno apartamento na Rua de São Domingos à Lapa, em Lisboa, e não parou de fazer trabalhos. O primeiro foi a decoração do restaurante Queijo e Vinho, no Castelo de São Jorge. Passou a ser cada vez mais requisitada e, em 1979, fundou oficialmente o Atelier Graça Viterbo.

Gracinha nasceu no meio de tudo isto, em 1977 – juntando-se ao irmão de 7 anos e à irmã de 5. «Cresci nesse ambiente e habituei-me a ir a showrooms, a estar no meio dos tecidos», lembra a filha. Assistiu ao sucesso da decoração da mãe no Hotel Estoril Sol e no Hotel Albatroz, ambos em Cascais – onde espantou todos ao juntar materiais como mármore e madeira no soalho –, testemunhou o êxito do primeiro andar modelo das Amoreiras e não esquece o trabalho na discoteca Bananas, em Lisboa.

«Lembro-me perfeitamente do andar modelo, que tinha um quarto cor-de-rosa, e de ir com a mãe ao Bananas, no dia da inauguração, e vê-la a colocar as almofadas», conta Gracinha. «Aos 10 anos já sabia o curso que ia seguir.»

Estavam sempre juntas. Partilhavam projetos e ideias e viajavam as duas para se inspirarem ou irem a feiras e eventos, em especial Paris, Milão, Veneza, Londres.

Não tardou para que começasse a cruzar, cada vez mais, a sua vida com a da mãe. No verão dos 14 anos, em vez da praia com as amigas, ia para o ateliê Graça Viterbo Interior Design «atender telefones». Depois empenhou-se a organizar a biblioteca do escritório. Depois do ensino secundário, foi para Londres onde se licenciou no Central St. Martin’s College of Art and Design e na Chelsea College of Art and Design.

Mais tarde, seguindo os mesmos passos da mãe, especializou-se na Inchbald School of Design. Ainda em Londres, juntou-se à equipa sul-africana do decorador Kelly Hoppen.
Gracinha regressou a Portugal em 2000 e a partir daí passou a trabalhar com a mãe.

Estavam sempre juntas. Partilhavam projetos e ideias e viajavam as duas para se inspirarem ou irem a feiras e eventos, em especial Paris, Milão, Veneza, Londres. Nessa altura, Gracinha ficou responsável pela loja que tinham na Baixa-Chiado. E encontravam-se regularmente no ateliê, em Santa Catarina.

Começaram a fazer projetos em equipa. Foram responsáveis por trabalhos em vários hotéis do país. Gostaram muito de trabalhar em dupla. «A minha mãe começava frases e eu acabava-as», diz Gracinha. «Pois era», confirma Graça, admitindo que nunca pensou ter tanta influência na filha.

Em 2002 mudaram o escritório para o Estoril e, aos poucos, foram preparando a transição. «Em 2009 houve a passagem de pasta», concretiza Gracinha, lembrando que a mãe continuou como mentora criativa. A empresa tinha, entretanto, em 2008, aberto escritório em Luanda e preparava-se para inaugurar um espaço em Singapura dois anos depois.
Em 2003, o sucesso levou Gracinha para a Ásia, onde viveu quatro anos com o marido, gestor da empresa, e os quatro filhos.

Regressou a Portugal em junho do ano passado e em dezembro inaugurou um novo projeto, o Cabinet of Curiosities, um espaço de pequenas salas onde se podem descobrir objetos de várias partes do mundo, mesmo ao lado da pastelaria Garrett no Estoril. Graça está reformada, passa muito tempo com os netos, mas, como diz, está sempre ali, disposta a ter uma ideia diferente. E a ajudar a filha.

NEGÓCIOS E FAMÍLIA
Gracinha é a única dos três filhos de Graça Viterbo que também está ligada ao design de interiores. O filho mais velho, Bruno Abreu Loureiro, trabalha em imobiliária, nos Estados Unidos, e a filha Alexandra Abreu Loureiro é jornalista.