OPINIÃO

Desconfie do seu desamor por Trump

[…]

Quando estava a inventar, Herman José abria os dedos e fazia rodar as mãos vazias, como se elas segurassem uma bola de basquetebol. Era o seu sinal vermelho, igual ao dos filmes com cenas ousadas – só que ele nos prevenia de que estava a mentir (não fôssemos pensar que ele estava mesmo a entrevistar a rainha Santa Isabel).

Se bem me lembro, a bola imaginária de Herman apareceu muito antes das notícias falsas nas redes sociais. Mas, atenção, as notícias falsas apareceram muito antes e nem todos tiveram o cuidado de prevenir que eram falsas. Já o australopiteco dizia à australopiteca que a moca era para caçar e, apanhando‑a distraída, dava‑lhe uma bordoada e arrastava‑a pelos cabelos até à caverna. Depois, foi a vez de os jornais inventarem que o país vizinho se armava e era urgente invadi‑lo primeiro… Agora, as mentiras são mais sofisticadas do que as do homem primitivo e mais democráticas, porque de acesso a qualquer um, do que as do Citizen Kane. Agora, qualquer adolescente pode inventar uma peta em Melbourne e, no minuto seguinte, intrujar um experimentado reformado de Alcochete.

Alguém, algures, logo a seguir ao discurso de tomada de posse de Donald Trump, publicou no Twitter a imagem de parte do discurso do novo presidente – um parágrafo, três frases e 170 carateres. E, ao lado, a mesmíssima frase, exceto a palavra «nação» mudada para «colmeia». Sobre a primeira, a foto de Donald Trump a discursar; sobre a segunda, a imagem da abelha Barry B. Benson, do filme de desenhos animados A História de Uma Abelha, de 2007. E o autor deste plágio tuítou: «Oh meu Deus! Hahahaha… Ele roubou estas frases!!!» A ser verdade, era extraordinário: não só era um plágio presidencial como também um presidente a roubar uma abelha.

Incrível, até para Trump, não? Pois esta maluquice foi reproduzida por milhares e milhares, como se de um facto se tratasse. Mas era um pós‑facto, uma pós‑verdade, um facto alternativo, como queiram chamar agora, era o que antigamente se chamava uma mentira. Há uma expressão que deixei atrás, que explica a ingenuidade com que a mentira foi engolida: «Até para Trump…»

Vindo de Trump, aceita‑se tudo. OK, é uma desculpa, mas é uma má desculpa. Porque, só para ficarmos entre presidentes americanos e na história recente, lembro‑me do sucesso de uma foto de George W. Bush lendo um livro de histórias infantis com a capa ao contrário. Como se um antigo aluno de Yale e de Harvard (mesmo dos que só entram com cunha paterna) não soubesse segurar num livro. De quem não gostamos é tão fácil acreditar que é ridículo…

Aquele tweet sobre Trump – além de espertamente ter escolhido um protagonista esquisito para uma história esquisita – teve mais cuidados na tentativa de nos iludir. O excerto do discurso presidencial era exato. O albardeiro do Twitter sabia que seria fácil confrontar a frase com o discurso real, então bastante difundido na internet. E verificando que correspondia – o que Trump disse e o que lhe foi imputado pelo tweet – o leitor ficava um bocadinho mais desarmado na sua desconfiança inicial. Toda a boa mentira serve‑se com pedaços de verdade, para disfarçar a inverosimilhança. Quem foi à procura da frase dita pela abelha Barry B. Benson encontrou tarefa mais árdua, ter acesso aos diálogos inteiros de um filme não é para todos. Daí, a solução mais fácil: pôr um like no tweet e propagandeá‑lo também.

Ora, com os tweets falsos que lhe atiram, Donald Trump vai fazendo o seu pedestal. E tem razão: ele em cima de mentiras faz um conjunto harmonioso.

[Publicado na edição em papel da Notícias Magazine de 29 de janeiro de 2017 ]