Depressão infantil: tanta tristeza para um filho tão pequeno

Todos os pais querem que os filhos sejam felizes e tenham saúde. Mas, por vezes, a tristeza que se apodera dos mais pequenos é tão avassaladora que os adultos se sentem impotentes a lidar com ela. Como detetar a depressão infantil a tempo e o que fazer para ajudar o seu filho a lidar com ela?

Texto Júlia Vinhas/CADIn*
Ilustração Filipa Viana/WHO

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A depressão nas crianças e jovens é uma realidade bem diferente da oscilação diária de emoções que fazem parte do desenvolvimento infantil. Não é porque uma criança está triste que tem necessariamente de estar deprimida. Mas também não devemos desvalorizar estados emocionais negativos só porque são crianças e não têm, por isso, «razões» para estarem deprimidas. Como se tivessem de existir razões para estar deprimido…

A diferença entre uma depressão e os sentimentos de emoções negativas (normativos) está na duração e na intensidade dos sintomas.

A diferença entre uma depressão e os sentimentos de emoções negativas (normativos) está na duração e na intensidade dos sintomas. Os estudos indicam que crianças com progenitores com história de depressão têm maior predisposição para desenvolver a patologia.

A família não tem apenas o peso genético, tem também o peso psicoemocional. A presença de sentimentos de angústia excessiva, medos e negligência no ambiente familiar pode contribuir como fator de risco para a depressão infantil.

Mas há fatores psicológicos – nomeadamente situações traumáticas ou até fatores ambientais relacionados com condições de vida (pobreza, por exemplo) – que podem contribuir para o aparecimento da depressão.

A boa notícia é que, quando diagnosticada atempadamente e devidamente intervencionada por uma equipa multidisciplinar (médico, psicólogo, família, professores), é possível uma boa recuperação

O diagnóstico de depressão infantil é algumas vezes confundido com outras perturbações do desenvolvimento. Associadas a este diagnóstico surgem algumas comorbilidades (perturbação de hiperatividade e défice de atenção, perturbação de oposição e desafio, comportamentos de autoagressão, dificuldades de aprendizagem), o que o torna ainda mais difícil de ser corretamente formulado.

A boa notícia é que, quando diagnosticada atempadamente e devidamente intervencionada por uma equipa multidisciplinar (médico, psicólogo, família, professores), é possível uma boa recuperação, quer em termos emocionais quer em termos sociais, cognitivos e comportamentais.

Ainda que o tema da depressão nas crianças seja cada vez mais debatido, diferenciado e estudado, existe um longo caminho por desbravar. Culturalmente é difícil aceitar que uma criança possa estar deprimida, por isso este diagnóstico é muitas vezes protelado ou subestimado.

Ter um diagnóstico e o acompanhamento adequado foi essencial para a Maria poder regressar à escola e mudar a forma como se sentia. A mudança não aconteceu de um dia para o outro, mas foi profunda.

Estas são palavras da Maria (nome fictício), que esteve dois anos em recusa escolar:

«Entrei num mundo chamado depressão. Tudo começou aos 12 anos, era uma menina normal, feliz, rodeada de amigos… Tudo isso foi desaparecendo. Fechei-me em casa, não conseguia conviver com as pessoas como antes, não frequentava mais a escola pois a sensação de poder entrar e viver o mesmo que as outras crianças viviam era aterrador.»

«Sentia-me triste 24 horas em cada dia que passava, não gostava mais da minha família, não me importava mais com nada nem comigo mesma. Era eu e a depressão. Via todos aqueles que estavam comigo a afastar-se, não tinha mais planos para o dia de amanhã. Basicamente ficava à espera que me libertasse da tristeza quando ela quisesse ir embora.»

«Aprendi a valorizar-me, a ganhar esperança, lidar com todos os problemas que poderiam surgir na minha vida adiante. Consegui ultrapassar tudo e sei que sempre que precisar posso contar sempre com o apoio da minha psicóloga. Hoje posso dizer que sou outra Maria, encontrei um rumo, voltei à escola, já tenho amigas que gostam de mim por aquilo que sou e encontro-me feliz.»

*Parceria NM/CADIn (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil). Júlia Vinhas é psicóloga, especialista em psicologia clínica e da saúde no CADIn.

SINTOMAS A QUE OS PAIS DEVERÃO ESTAR ATENTOS

3. Até aos 6 anos

» Perder o interesse por atividades lúdicas
» Ficar ansioso com a separação dos pais
» Não brincar com outras crianças ou evitar o contacto
» Fazer chichi na cama (quando já era autónomo)
» Ter frequentes acessos de raiva/choro ou comportamentos de oposição
» Mudar os padrões habituais de sono ou apetite
» Queixar-se de dores sem haver uma razão

2. Dos 6 aos 12 anos

» Ter um aspeto triste, chorar facilmente
» Queixar-se de falta de energia – dores de barriga e cabeça, perda de força nos membros
» Perder o interesse por atividades de que antes gostava (desportos, jogos)
» Demonstrar sentimentos de incompetência, negativos, de desvalorização, falta de confiança e baixa autoestima («não sei», «não sou capaz», «não consigo», «ninguém gosta de mim»)
» Medos frequentes e injustificados
» Manifestar ideias de morte ou até mesmo fazer tentativas de suicídio
» Inadaptação ao grupo e entrar frequentemente em conflitos
» Recusa escolar (devido a ansiedade de separação)
» Dificuldades de concentração

1. Adolescência

» Manifestações mais próximas do adulto (humor deprimido, perda de energia, desinteresse, sentimentos de desesperança e/ou culpa, alterações do sono isolamento, baixa autoestima, ideias suicidas)
» Comportamentos de risco
» Agressividade consigo e com os outros
» Não ter um projeto de vida
» Pouco interesse pela escola