OPINIÃO

Conjugação do verbo

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José Luís Peixoto
Há quem julgamos que somos, quem nos permitimos ser e quem somos realmente. Talvez seja funcional pensar nestas condições como camadas, cebola ou gráfico. Quem somos depende de quem nos permitimos ser, que depende de quem julgamos que somos. Quem somos fica lá no fundo, por baixo das outras camadas, protegido e/ou escondido por elas.

A superfície de quem julgamos que somos é uma avaliação feita de muitas outras avaliações: quem somos capazes de ser, quem temos de ser, quem gostávamos de ser. Cada um desses juízos é subjetivo, os seus contornos carecem de exatidão: oscilam entre x e y, segundo brisas invisíveis que resistem a medições rigorosas. Essas medidas existem,procuramo‑las, é por elas que nos regemos, mas possuem muito mais incerteza do que queremos acreditar. Seguramos um volume na palma da mão e, assim, tentamos determinar o seu peso. A confiança que tivermos nessa escala pessoal será proporcional à confiança que tivermos nos nossos sentidos, em nós próprios.

É mais fácil concordar que essa subjetividade se encontra em quem gostávamos de ser do que em quem temos de ser ou em quem somos capazes de ser. No entanto, quem temos de ser depende claramente de quem acreditamos que os outros acham que temos de ser, o que é uma avaliação desprovida de qualquer rigor objetivo. Por sua vez, quem somos capazes de ser resulta da tal confiança que tivermos nos nossos sentidos. Quem somos capazes de ser é, essencialmente, quem acreditamos que somos capazes de ser, o que não é algo que possa ser medido em valores arredondados às décimas. Quem temos de ser e quem somos capazes de ser deriva de quem nos permitimos ser.

Mas, afinal, quem somos? Essa é a pergunta. Vale a pena faze‑la a todos os reflexos do espelho e a todos os instantes do dia. Não porque cheguemos a uma conclusão e aí fiquemos, emigrantes de uma certeza irredutível; essa resposta é um caminho. E ao longo dos caminhos, enquanto procuramos, somos, vamos sendo. É isso que conta. No fundo, o importante é sermos, sermos sempre, tudo o resto é uma perda de tempo.

[Publicado na edição em papel de 15 de janeiro de 2017]

Fotografia de José Luís Peixoto