OPINIÃO

Commedia a la Carte: são servidos?

Conhecem-se há mais de vinte anos, estão juntos há 17. Por estes dias, os Commedia a la Carte estão em cartaz com Circus, na maior digressão nacional que já fizeram. Antes do Coliseu do Porto, no dia 14, uma conversa sobre os primeiros tempos, os desafios, os momentos em que pensaram desistir e o que ainda têm pela frente.

Entrevista Ana Patrícia Cardoso | Fotografia Gustavo Bom/ Global Imagens

Tudo começou numa das salas do Chapitô já lá vão 17 anos. César Mourão, 38 anos, Ricardo Peres, 43, e Carlos Cunha, 55, juntaram-se para fazer aquilo que ainda não se fazia em Portugal – um espetáculo de improvisação. Sem texto ou piadas combinadas, os três começaram a subir aos palcos com apenas uma certeza: não há dois espetáculos iguais. Com os anos, veio a cumplicidade, o traquejo para dar a volta a qualquer situação e o reconhecimento do público. Há quem os siga para várias cidades e arraste os amigos e a família para ver mais do que uma vez. Mesmo com a possibilidade de ir parar ao palco. Uma conversa com os três membros do grupo com gargalhadas à mistura.

Qual é o maior desafio ao fazer humor?
César Mourão (CM): O mais difícil é estar calado. Não existe música sem silêncio.
É complicado estar em palco e saber o timing perfeito para esses momentos.
Carlos Cunha (CC): Às vezes, só com um olhar levamos o público para um sítio completamente diferente.
Ricardo Peres (RP): Para mim, é eu ter um problema e ter de ir para o palco fazer rir os outros.
CM: Eu vou discordar disso (risos). Quando estou com algum problema é quando tenho mais energia para subir ao palco. Dá-me mais pica dar a volta à situação.

«Se fossemos para o Markl, na TVI [em vez das manhãs da SIC), estaríamos aqui hoje? No patamar onde estamos e a esgotar salas? Não sei. Se calhar éramos uma coisa de culto, mas não chegávamos às massas»,
César Mourão

 

Passados 17 anos, já preveem quando vão discordar?
CM: Sabemos, mas somos contra na mesma. Claro que nos moldamos mais mas continuamos a ter as nossas diferenças. Por exemplo, o Carlos sempre gostou de carne e eu gosto de peixe. Mas eu agora já gosto de carne, Carlos.
CC: Está bem, mas agora não como eu carne.
CM: Lá está. É difícil e é um processo de conhecimento também.

Quando começaram no Chapitô, imaginaram que iam durar tanto tempo? Ou nem vos passava pela cabeça?
CM: Não, nem pensar.
RP: As coisas foram acontecendo…

Como foi esse início?
CM: Conhecemo-nos todos lá no Chapitô. Depois de terminar o curso, fui estudar para o Rio de Janeiro, o Ricardo foi para Nova Iorque, onde estudou improv comedy. Já admirávamos o trabalho uns dos outros. Não havia nada deste género e nós decidimos arriscar.
RP: Tinha trazido uns livros sobre improviso e fechamo-nos no Teatro da Graça, na Voz do Operário, durante noites a experimentar, só os três. Depois, ofereceram-nos o primeiro andar do restaurante do Chapitô para experimentarmos e construíram-nos um palcozinho que ainda está lá.
CM: O palco mínimo que está com mesas em cima. Muita gente não sabe que começámos aí.

Foram pioneiros na improvisação. Como se monta um espetáculo sem referências anteriores?
CC: Com muita discussão.
CM: Sempre discutimos. Porque eu gostava deste momento, o Ricardo do outro, o Carlos do outro mas não sabíamos se realmente funcionava. Uma das nossas maiores discussões foi sobre um dos maiores sucessos de sempre – os Jogos Olímpicos, uma espécie de slow motion até chegar às medalhas. Isto deu-nos discussões brutais. Acabamos por fazer e foi um sucesso tão grande que a Caixa Geral de Depósitos chegou a chamar-nos para fazer só este sketch no final das reuniões.
CC: Na altura também começamos a trabalhar com um sonoplasta, o Sérgio Mourato, que o César convidou…
CM: É verdade, essa foi outra inovação. Já gostava muito do Sérgio e eu lembrei-me de termos um gajo que nos ajudasse a improvisar no som. Ao início, discordámos porque era mais um cachet para dividir, mas depois o Sérgio acabou por ficar connosco durante anos.

E entretanto as pessoas começaram a vir em força aos vossos espetáculos.
CM: Sim, estávamos no Chapitô e houve um «boca-a-boca» sobre nós. Na altura não havia redes sociais, Facebook, Instagram, por isso a nossa publicidade era ir à janela e gritar com força.
RP: Tínhamos umas fotografias que o José Pedro Vasconcelos tirou a preto e branco ao pé do [bar] Avião, na 2ª Circular, e tínhamos um tripé à porta do Chapitô. Era isso.
CM: Aquilo começou a encher e tínhamos pessoas a ligar-nos para os telefones. E depois veio o Hugo Nóbrega, diretor da agência H2N, que estava a começar a empresa. Nós achámos que fazia sentido, fizemos o convite à meia-noite, num bar das docas, e estamos com ele desde então.

«Há um conhecimento tão grande uns dos outros, uma parceria enorme que nos permite fazer os espetáculos e divertirmo-nos mesmo que estejamos chateados uns com os outros»,
Ricardo Peres

Como chegaram à televisão?
CM: A dada altura, fomos convidados para ir ao programa da manhã da Fátima Lopes. Era um programa com muita audiência. À noite, íamos ao O Homem Que Mordeu o Cão, a convite do Nuno Markl. Públicos opostos. Qual o público que mais nos agradava? O do Markl. No final do programa da Fátima, improvisámos um bocadinho. Toda a gente adorou. Levaram-nos para uma sala e perguntam-nos se queríamos fazer isto todos os dias. Nós fomos apanhados de surpresa. Todos os dias como? Era bom dinheiro, nada comparado com o que ganhávamos na altura. Nós ficámos de pensar.

E foram ao O Homem Que Mordeu o Cão.
CM: Exato. E, no final, o Markl também nos convida para estarmos lá uma vez por semana. No mesmo dia! Já tínhamos dito que sim à SIC. E este era TVI. E é aqui que eu acho que se dividiram as águas. Se fossemos para o Markl estaríamos aqui hoje? No patamar onde estamos e a esgotar salas? Não sei. Se calhar éramos uma coisa de culto, mas não chegávamos às massas. Irmos para as manhãs tornou-nos comerciais mas trouxe-nos outras coisas.
CC: O que a televisão nos deu… deu-nos visibilidade mas retirou-nos da improvisação.
CM: Não nos tirou totalmente da improvisação. Fizemos improvisação durante um ano e depois disseram-nos para fazer umas personagens e correu muito bem. Na manhã éramos muito conhecidos.
RP: Depois acabaram por perceber que o César funcionava muito bem sozinho e nós fomos para a tarde.

Há uma divisão no grupo?
CM: Acaba por não ser uma divisão e isso é mérito nosso. Nós podíamos ter acabado naquela altura em que eu começo a trabalhar sozinho. Eles não tinham cabeça e não queriam trabalhar em televisão. Começo a ter uma franja de público que é fã das minhas personagens mas continuávamos com um ar cool e fora da caixa nos outros sítios.
CC: Aí, o Hugo Nóbrega foi importante, foi a cola.

Mas nunca pensaram em desistir?
CC: Não, não.
CM: Não, não… Quer dizer, pensamos todos os dias. Até hoje! Mas houve ali um momento em que… mais ou menos.
CC: O Nóbrega aí teve um papel fundamental. Era ele que ia falar com um ou com o outro e fazia a mediação. Porque mesmo com os trabalhos em televisão, nunca deixámos de fazer empresas e bares, ou seja, ele nunca deixou de vender.
RP: A verdade é que já há um conhecimento tão grande uns dos outros, uma parceria enorme que nos permite fazer os espetáculos e divertirmo-nos à brava mesmo que estejamos chateados uns com os outros. Já passámos por muitas fases e a verdade é que nunca nos desmembrámos. É este o fenómeno do palco. De repente chegas ali acima e só aquilo importa.
CC: Eu e o César fizemos uma temporada chateados. Não nos falávamos fora do palco mas divertimo-nos imenso a fazer o espetáculo.
CM: Pois foi! Essas coisas acontecem, mas nós ultrapassamos isso tudo.

«Na fase inicial, o facto de o César ser workaholic foi importante para o grupo. O Ricardo sempre foi o tipo fora da caixa. Às vezes, estamos em palco e ele dá a resposta mais absurda. E pura»,Carlos Cunha

Qual é a característica individual que cada um traz para o grupo funcionar há tantos anos?
CC: Na fase inicial, o facto de o César ser workaholic – o contrário do que eu era na altura – foi muito importante para o grupo. O Ricardo, para mim, sempre foi o tipo fora da caixa. Às vezes, estamos em palco e ele dá a resposta mais absurda que se imagina. E pura. E isto para o espetáculo é maravilhoso.
CM: Qualquer qualidade deles é também o seu defeito. O Ricardo é realmente o mais puro. Mas é como beberes um gin puro e pensas: «Eh pa, isto está puro, é melhor juntar uma água tónica.» Às vezes, diz coisas no palco que podia ter-nos dito no camarim mas está ali tão no momento que sai. O Carlos é paciente, também porque é mais velho. Nós somos mais ansiosos, achamos que um dia a bola vai mas não volta.
CC: Volta, volta.

Continuariam só com dois membros?
CC: Este grupo, não.
CM: Houve uma altura que aconteceu, mais ou menos. O Ricardo faleceu um ano (risos). Teve propostas irrecusáveis e nós tomámos a decisão de não chamar ninguém português para fazer o espetáculo durante esse tempo. O Carlos tinha ido ao Brasil e lembrou-se do Marco Gonçalves, um amigo do improviso e era perfeito. Seria os Commedia a la Carte com sotaque.
CC: Todos nós adorámos o Marco e a coisa deu-se mesmo muito rápido, num jantar fiz o convite, ele aceitou…
CM: E é uma coisa incrível. Ele vem de Madrid, fez escala em Lisboa, aceita, fomos a um sítio vestir umas roupas e tirar umas fotografias para o cartaz. Ele vai-se embora e nós tínhamos cartaz feito.
CC: Por isso, já aconteceu ficarmos dois, mas não foi permanente e o Ricardo voltou, cá está ele, e está tudo bem.

O espetáculo está dividido por blocos de improvisação. Esta estrutura vai mudando?
CM: Nem sempre funciona da mesma maneira. No alinhamento, temos várias improvisações. A do «tradutor» é uma estreia nesta temporada. A «entrevista» é um clássico nosso. O «musical» veio com o Marco Gonçalves e resultou muito bem.
CC: Depois, quando o Ricardo voltou estragou tudo (risos).
CM: É que ele não canta nada, nada. Mas hoje em dia o público já não repara nisso.

Vocês têm a regra de não chamar ninguém conhecido ou repetido ao palco?
CM: Sim, a regra é não chamar ninguém que possa ser reconhecido. Nós não queremos que o público pense «ah, isto está tudo combinado».

E quando chamam alguém que fala pouco?
CM: É aproveitar isso em nosso favor. Hoje em dia, já sabemos dar a volta à situação. No caso, é fazer que ele diga ainda menos e é essa a piada.
CC: Por exemplo, o César disse-me uma vez para não trazer pessoas de determinada idade porque podem ter filhos na plateia e isso inibe-os.

Vocês acabaram por educar o público para este tipo de espetáculo onde há uma interação direta.
CM: Sim, sim. Nós nunca tínhamos ido a Oliveira de Azeméis e as pessoas já conheciam os Commedia, ouviram falar, participam durante o espetáculo. Como é que é possível?
RP: Eu acho que as pessoas hoje em dia vão com a ideia «deixa ver o que vai acontecer aqui».

E também para ver se corre mal?
CM: Ah, sem dúvida. O público tem essa característica. Há uma briga aqui e nós vamos todos ver. Como nós fazemos improviso, vão para ver se corre mal.
CC: Sim, vão para ver se nos safamos.
CM: Mas para nós é ótimo. Muito do nosso sucesso vem daí. As pessoas desconfiam se está tudo feito, se está tudo combinado. E depois percebem que não está.

As salas cheias

Depois de esgotar a temporada de 2016 com cerca de 25 mil espectadores nos Teatros Villaret (Lisboa) e Sá da Bandeira (Porto), os Commedia a la Carte fizeram-se à estrada e percorreram o país de norte a sul com este espetáculo, Circus. Entre atores, técnicos e banda, são dez pessoas que já fizeram cerca de cem apresentações, só nesta temporada. Até ao final de junho estão confirmados espetáculos no Coliseu do Porto (14), no Cine-Teatro de Estarreja (24) e no Auditório Municipal de Santiago do Cacém (28).

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