OPINIÃO

Ela é a mulher mais divertida da Netflix

Mudou-se para o Netflix em 2014 e conseguiu o feito de ser a primeira mulher a ter um talk show em horário nobre nos Estados Unidos - que já vai na segunda temporada. O que motiva a comediante que chama Trump de «criança»?

Texto Ana Rita Guerra, em Los Angeles

Vestida de preto, de pernas cruzadas, com uma expressão sóbria e intimidante, Chelsea Handler parece tudo menos uma comediante. E, na verdade, há algum tempo que deixou de ser só isso, ou talvez nunca tenha sido apenas isso. Comediante, atriz, autora, produtora, apresentadora, Handler está a trabalhar no seu segundo programa para a Netflix, onde foi parar depois de bater com a porta ao canal E!.

Aos 42 anos, parece uma pessoa diferente. O sarcasmo e a piada continuam lá, sim, mas algo mudou nos últimos três anos, depois de abraçar os novos projetos na Netflix com uma fúria criadora que antes estava limitada nos canais de televisão tradicionais. Começara o seu programa Chelsea Lately no E! em 2007, quando George W. Bush ainda era presidente e no mesmo ano em que apareceu o reality show das Kardashian.

O que está a fazer agora é muito diferente: Chelsea é um talk show cujos convidados vão de Jay Leno a responsáveis por agências de defesa do consumidor. O programa mistura segmentos filmados antecipadamente e convidados em estúdio, com audiência ao vivo.

Pouco convencional, tem um estilo próprio e conquistou o seu espaço. Em 2010, a Forbes colocou-a na sua lista de «Mulheres Poderosas», em 2012, a revista Time considerou-a uma
das «cem Pessoas Mais Influentes do Mundo».

«Quero que as pessoas recebam informação com sentido de humor e entretenimento. Quero aprender, quero crescer, não quero ficar estática. Quero descobrir o que não sei sobre o governo, sobre as eleições, sobre outros países», diz. «Quero que nos ajudemos a educar mutuamente, porque já estive inúmeras vezes em situações em que fingi saber algo que não fazia ideia o que era. Já não quero fazer isso. Já não tenho problemas em fazer perguntas, mesmo que faça figura de parva. Porque sei que em busca de respostas estamos a tornar-nos mais inteligentes.»

Em 2010, a Forbes colocou-a na sua lista de «Mulheres Poderosas», em 2012, a revista Time considerou-a uma das «Cem Pessoas mais Influentes do Mundo». Ainda assim, diz que é muito mais conhecida no mercado doméstico do que noutros países. No verão passado, esteve de férias em Espanha com a família (não, não foram a Portugal), e uma das suas maiores surpresas foi ter fãs que a abordavam a pedir fotografias. Um dos irmãos ficou desconcertado. «Pensei que aqui não haveria disto», disse.

Na Netflix encontrou uma forma diferente de trabalhar. Não há intervalos publicitários. Não há ratings oficiais. «Houve um período de ajustamento. Demorou algumas semanas até eu sentir que estava a clicar, e depois comecei a entrar outra vez no ritmo», confessa. Nessa altura, o showrunner Bill Wolff saiu, depois de apenas nove episódios, e não foi substituído. Chelsea está muito envolvida em todos os aspetos do programa.

Grava de segunda a quarta, entre as oito da manhã e as seis da tarde, e filma sequências fora do estúdio de quinta a sábado. «Faço tudo exceto editar o episódio», revela. «É muito ativo. Eu gosto dessa energia, gosto de estar a trabalhar. Gosto de ir e beber um copo com o pessoal do trabalho depois de terminarmos. Gosto desta vibração.» O trabalho é toda a sua vida. Não tem família, não é casada. Diz que esse não é o seu «estilo».

Chelsea não procura agradar. Subjacente à sua atitude está a noção de que não quer saber o que pensam dela, o que dizem dela, se gostam ou não. Talvez por isso tenha obtido tanto sucesso num mercado que sempre foi dominado por homens.

Chelsea diz que «Não vou ficar chateada com comentários de pessoas que estão a defender o Trump, isso não significa nada para mim. Nada. Não quero saber. O Trump é uma criança.»

«Conheci tantas pessoas neste mundo com palas nos olhos, que não veem tudo o que está a acontecer à sua volta e que não são ativas politicamente. Recebo muitas críticas, como celebridade, por estar ativamente envolvida», admite. «Mas eu aguento, quero lá saber.»

Outra caraterística de Handler é que não se agarra a um lado como se fosse a fonte da verdade eterna. Isso mesmo ficou demonstrado no primeiro programa que fez para a Netflix, Chelsea Does, uma série de episódios documentais em que explorou questões sobre as quais conhecia pouco ou em relação às quais tinha uma posição oposta. O caso mais flagrante? Casamento. Handler não é casada e nunca quis ser, mas numa conversa que tivemos com ela durante a apresentação desse primeiro programa, em 2015, confessou que passar dos 40 a fez pensar nisso.

Ver as suas posições desafiadas, considera, é uma receita para o crescimento. «Sinto que tenho muito mais conhecimento sobre muitas coisas. As pessoas vêm ter comigo a pedir informação que eu antes não teria, antes de fazer este talk show ou a série documental. Foi definitivamente uma mudança de direção na minha carreira, no meu caminho profissional», analisa. Por isso quer ter pessoas de todo o espetro político no seu programa. «Adorava que a minha opinião mudasse.»

Mas Handler é controversa. Quando lhe perguntámos de onde achava que vinha o fascínio do povo americano por Donald Trump, disparou: «Não quero saber. Porque as pessoas são estúpidas como o raio.» Posições como esta renderam-lhe críticas exaltadas nas redes sociais, que – mais uma vez – não lhe perturbaram o sono. «As redes sociais são uma excelente ferramenta. É a era em que vivemos, não é algo de que nos devamos afastar», explica. «Não vou ficar chateada com comentários de pessoas que estão a defender o Trump, isso não significa nada para mim. Nada. Não quero saber. O Trump é uma criança.»

O pendor político é forte, mas Chelsea continua a conseguir transformar qualquer situação em gargalhadas de fazer doer a barriga. Há episódios absolutamente hilariantes na primeira temporada de Chelsea, como aquele em que põe a casa para arrendar no Airbnb. «Estamos a fazer o programa que eu queria fazer, estou finalmente a executá-lo semana a semana e estou muito feliz com isso», diz, sorrindo.

É um contraste tremendo com os últimos tempos no E!, onde teve um programa durante sete anos e diz ter perdido o respeito pela empresa. Foi ali que cimentou o seu lugar, até porque durante muito tempo era a única mulher com um talk show noturno. Nunca se queixou de discriminação por ser mulher, mas admite que a situação em Hollywood, e na televisão em geral, é terrível.

«As pessoas têm de estar constantemente a falar sobre quanto dinheiro recebem só para que quem está a passar os cheques seja responsabilizado.» O sucesso dá-lhe vontade de disseminar «a boa fortuna». Parece estar a dar certo, já que o talk show da Netflix já vai na segunda temporada.

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