OPINIÃO

Esta mulher quer tirar os nossos filhos da caverna

Catherine L'Ecuyer alerta os pais para a necessidade de respeitarem a curiosidade inata das crianças.

A vida frenética que levamos afasta os nossos filhos do essencial. Privamo-los do silêncio, do ar livre. Deixamos a tecnologia anular-lhes os sentidos. Para a investigadora canadiana Catherine L’Ecuyer, autora do livro Educar na Curiosidade, o mais importante é respeitar o assombro natural das crianças. E deixar que aprendam à medida do seu próprio ritmo.

_ O que é a curiosidade? Os gregos já falavam da importância do assombro na aprendizagem há milhares de anos…
É o desejo de conhecer, segundo a definição de Tomás de Aquino. Uma outra definição muito bonita de curiosidade é não dar o mundo por garantido e olhar para o que nos rodeia como se fosse a primeira vez, como um presente que nos é dado. Se repararmos, as crianças pequenas ficam maravilhadas com um balão, ou com a sensação da areia da praia nas mãos, ou com o brilho de um objeto encontrado na rua. Até o rosto da mãe a aproximar-se do delas é fascinante, e essas coisas que as intrigam são as que vão naturalmente estimulá-las a querer perceber os seus mecanismos naturais. Os miúdos gostam tanto da noção de mistério por verem nele uma oportunidade infinita de conhecimento. Representa o inesgotável.

_ Todas as crianças nascem curiosas?
Todos nós, sim. É um mecanismo inato e o motor interno da aprendizagem, porém só funciona bem se a criança estiver inserida num ambiente que respeite a sua curiosidade natural. Deixá-la brincar com a caixa do brinquedo a imaginar que é um barco! Os pais não têm de se desdobrar para converter a infância dos filhos em algo mágico: a infância, em si mesma, já é mágica. Até há pouco tempo acreditava-se que bombardeá-los com estímulos os tornava mais inteligentes, mas hoje sabe-se que a superestimulação está associada a problemas de aprendizagem. É fundamental respeitar os seus ritmos sem forçar etapas. Nós só temos de acompanhá-los, proporcionando-lhes esse tal ambiente favorável à descoberta. Educar na curiosidade é reconhecer que as nossas crianças têm uma natureza própria e sermos sensíveis a ela.

_ Em que ponto passam da exploração natural das coisas – a espuma do banho nos dedinhos, o barulho do papel de uma prenda – para um desinteresse do que as rodeia? Como perdemos esta capacidade de nos encantarmos?
Quando são pequenos os miúdos mexem em tudo, querem saber tudo. Estão sempre a magicar e a perguntar coisas impossíveis, como a razão de as abelhas produzirem mel em vez de doce de leite, por ser essa a sua forma de se maravilharem com uma realidade que é assim, mas poderia ser diferente. Uma criança não é um adulto em miniatura. Temos de lhe respeitar a inocência, os silêncios. O seu sentido de mistério e beleza. A importância da natureza, que é uma das primeiras janelas de curiosidade ao permitir-lhe correr, descobrir e imaginar, sem os pais morrerem de medo que caia de uma árvore ou se molhe. Sermos adultos competitivos faz-nos sujeitar as crianças a estímulos de tal forma intensos que lhes anulam esta capacidade de se automotivarem. Muitas tornam-se entediadas, incapazes de se deixarem assombrar pelo que quer que seja.

_ E porque insistem tanto os pais neste tipo de educação frenética e hiperexigente?
Os pais querem sempre o melhor para os filhos, isso é ponto assente. Se caem nos engodos da hiperestimulação é por pensarem que se trata de um pré-requisito para os desenvolverem e valorizarem profissionalmente, e o erro está justamente aí. Nada disso é necessário. Crianças normais só precisam de uma quantidade mínima de estímulos num ambiente familiar saudável, que lhes dê segurança para explorarem o mundo que as rodeia. É isso o mais importante nos primeiros anos de desenvolvimento, esta qualidade dos afetos. No entanto, somos levados a crer que devemos estimulá-las o mais que pudermos por culpa dos «neuromitos», que são más interpretações da literatura científica aplicadas à educação.

_ «Neuromitos» como «quanto mais estímulos e mais cedo, melhor»?
Esse é um. Outros são que usamos só dez por cento do cérebro e temos uma inteligência infinita. Outro ainda sugere que os três primeiros anos são críticos para aprender, quando já se sabe não haver janelas de oportunidades perdidas: a plasticidade neuronal permite ao sistema nervoso adaptar-se estrutural e funcionalmente ao longo da vida. A verdade é que à conta destas crenças, veiculadas por uma indústria de conselhos empacotados, pequenos que deviam estar a brincar e a puxar pela imaginação acabam atascados em atividades extracurriculares, com superagendas desajustadas. Na Finlândia, por exemplo, sempre nos tops do desempenho escolar a nível internacional, as crianças aprendem a ler e a escrever a partir dos 6 ou 7 anos, não aos 3.

_ Quais são as possíveis sequelas de se dar às crianças uma estimulação permanente de que não precisam?
A dada altura ocorrem aqueles gritos da natureza de que falava Maria Montessori, uma das mais reputadas pedagogas de todos os tempos: problemas de desatenção, impulsividade, agressividade, dificuldade em gerir as emoções e outras consequências negativas que podem ser a causa de muitas perturbações que observamos nas crianças – há imensos sintomas. Por vezes interpretamo-los como má-educação, e podem até ser, mas a arte de educar consiste precisamente em perceber a diferença entre aquilo que a criança nos pede por ser caprichosa ou por ser o que reclama a sua natureza.

_ Antes dos 2 anos não se pode falar em capricho…
Pois não, faz parte do vínculo de apego satisfazer as suas necessidades básicas quando surgem. Mas a partir daí temos mesmo de conhecer os nossos filhos, algo que não se consegue com uma aplicação informática. Precisamos de redescobrir a sensibilidade de que a natureza também nos dotou, e que vamos perdendo na vida frenética que levamos, para sabermos harmonizar as nossas intervenções com os ritmos deles. Alguns estudos revelam que as crianças cujas necessidades básicas foram atendidas nos primeiros anos (ao nível fisiológico, biológico, dos afetos), respeitadas pelos pais nos seus ritmos de desenvolvimento, crescem mais autoconfiantes e aptas a aprender.

_ Smartphones, tablets e afins: a exploração curiosa do mundo real vale também para o digital?
A realidade virtual também é real, por isso vale. Mas não é real no mesmo sentido que o mundo real, e aqui faz sentido usar a alegoria da caverna de Platão para explicar a medida das coisas. No fundo da caverna movem-se sombras, que são um reflexo de objetos projetados na parede embora os prisioneiros assumam ser tudo o que existe. E essas sombras são muito parecidas com o que vamos encontrar nas redes digitais: reais, sim, mas reflexo de algo muito mais real que é a realidade pura, o mundo fora da caverna. Muitas crianças não sabem o que é uma vaca: nunca viram nenhuma a não ser em fichas ou a arrastar imagens no tablet. Têm um grande défice de realidade. As tecnologias não são más, mas elas aprendem é através da descoberta com uma pessoa querida, em interação. Temos de tirar os nossos filhos da caverna porque a melhor preparação para o mundo online é o offline.

_ Diz que as crianças de hoje não são como as de antigamente. O que é que mudou?
A sua natureza básica mantém-se: continuam a precisar de colo, de serem ouvidas, de brincar para aprender, de dormir bem. Mudou foi o ambiente em torno delas, cada vez mais histérico e consumista, e então habituam-se a ter tudo antes sequer de o desejarem. Aos poucos perdem a capacidade de esforço e superação para conquistarem algo, porque acreditam merecer tudo. Perdem o sentido da gratidão. Ao apanharem-se num mundo real que é lento e caprichoso, aborrecem-se. Mesmo o ruído permanente em que vivem faz com que os poucos momentos a sós se tornem insuportavelmente vazios.

_ Também são menos empáticas. Menos capazes de se porem naturalmente no lugar do outro…
A empatia é aquela sensibilidade para vestir a pele do outro, para querer sentir com ele, e as redes sociais vieram matar um pouco isso ao fazer com que seja muito fácil vermos o mundo como espetadores externos em vez de nos envolvermos, como devíamos, na realidade de quem está do outro lado. Nos Grammys de 2011, por exemplo, houve uma jornalista da CBS [Serene Branson] que teve um enfarte em direto e isso tornou-se viral no Twitter, uma das notas mais memoráveis da cerimónia. Não é normal desfrutar-se de uma situação assim dramática sem pensar que essa mulher existe e tem uma família a sofrer com ela, não é uma personagem. Estamos a ficar demasiado distantes do que se passa à nossa volta. A deixar de ser pessoas.

_ A crise da educação de que tanto se fala é, sobretudo, uma crise de atenção?
Sem dúvida. Não se pode aprender nada sem prestar atenção, mas sucede sujeitarmos as nossas crianças a níveis cada vez mais intensos de estímulos: quando têm seis meses, incitamo-las como se tivessem 2 anos; aos 2, excitamo-los como se tivessem 7, e aos 7 veem conteúdos incrivelmente rápidos. Quando voltam ao mundo real, maçam-se. Julgo que a desatenção no sistema educativo resulta das horas excessivas que passam em aulas, do consumismo, das atividades extracurriculares, da sobrecarga dos ecrãs: se antes viam E.T. – O Extraterrestre aos 6 anos, hoje com essa idade não aguentariam nem um minuto daquele ritmo lento. Em última análise, o meu filho vai saber dar atenção às coisas se eu, como pai, lhe der essa atenção a ele.

_ E como se educa um filho para a curiosidade quando os próprios pais já não têm tempo para apreciar a vida?
Pais curiosos, filhos curiosos. Pais cínicos, filhos cínicos. Educar para o assombro requer adultos que se assombrem com as suas crianças, o que faz com que os pais tenham pelo menos de tentar filtrar o stress e baixar o índice de rigor que lhes é exigido. Não vale a pena esperarem pela perfeição – isso não existe! Pequenas mudanças no sentido de escutá-las, conhecê-las e passarem tempo de qualidade é melhor do que nada. Criem rituais com elas: as rotinas do dia-a-dia podem ser momentos de cumplicidade preciosos. Riam. A ideia de que pais e filhos necessitam de ser perfeitos só lhes põe nos ombros um peso que não têm de carregar.

_ De que é que estamos todos, pais e filhos, a necessitar com urgência?
De simplicidade. Acho que nos fazia falta aprender a simplificar tudo, sinceramente. Não é verdade que para um bom fim de semana em família tenhamos de gastar 500 euros ou comprar imensas coisas: podemos arranjar uma cana de 30 euros e ter um dia maravilhoso à pesca. Ou passar a tarde a fazer bolachas na cozinha. Complicámos tanto quando aquilo que os pequenos mais querem é a nossa disponibilidade. Tranquilamente, se desligarmos os ecrãs em casa, há mil coisas que podemos fazer com eles. Incluindo o mais importante, que é estar juntos a não fazer nada.

EDUCAR E INFORMAR, DO QUEBEQUE A BARCELONA
Mãe de quatro filhos (de 5, 9, 11 e 12 anos), Catherine L’Ecuyer tem um MBA da IESE Business School e um Mestrado Europeu Oficial de Investigação pela Universidade Internacional da Catalunha, que a fez mudar-se do Quebeque, no Canadá, para Barcelona. Foi advogada, consultora, professora de administração empresarial. A partir de 2006 começou a investigar na área da educação e é hoje conferencista, colabora com o grupo Mente-Cérebro da Universidade de Navarra e tem um blogue – apegoasombro.blogspot.com.es – com quase um milhão de visitas. Educar na Curiosidade (1.ª edição em Portugal pela Planeta) é considerado o best-seller educativo dos últimos anos, com 18 edições em Espanha e tradução em 15 países. O tema é reconhecido como uma nova teoria da aprendizagem desde 2014, altura em que o jornal científico Frontiers in Human Neuroscience publicou o artigo The Wonder Approach to Learning, dando-lhe razão. Catherine escreveu ainda o livro Educar en la Realidad, sobre o uso da tecnologia na infância e adolescência.

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EDUCAR NA CURIOSIDADE
Catherine L’Ecuyer
Editorial Planeta, 2017
160 páginas
14,41 euros

Ana Pago
Fotografia: Gonçalo Villaverde/Global Imagens