OPINIÃO

Catarina, a Diplomata

Há 18 anos que Catarina Furtado põe a fama e o reconhecimento público ao serviço de causas como o fim da mutilação genital feminina, da gravidez adolescente, do casamento forçado infantil ou da violência de género. Já correu escolas, moderou debates, organizou conferências, ouviu vítimas, falou com médicos no terreno. Viu mais nestas duas décadas do que muita gente numa vida inteira. Reportagem em Genebra com a primeira e única portuguesa embaixadora da Boa Vontade da ONU.

Texto de Ana Carreira, em Genebra
Fotografia de Gerado Santos/Global Imagens, em Genebra

«Tenho uma pergunta: como é que numa sociedade tão evoluída, com acesso à melhor informação, se continua a discriminar pessoas nas escolas?» O miúdo sentado com um olhar sério tem 14 anos e é delegado de uma turma do 8º ano. Calou o auditório com a pergunta. «Olha Filipe, tu mereces um aplauso gigante pela tua coragem», respondeu Catarina Furtado. «E deves ser tu o porta-voz dessas situações de discriminação e violência, tens um caminho a fazer.»

O momento foi registado no final de fevereiro, no Colégio São João de Brito, em Lisboa, onde Catarina deu uma palestra sobre o seu papel como embaixadora de Boa Vontade da ONU. Tocou temas sensíveis, respondeu a perguntas dos alunos, partilhou recordações, apelou à tomada de consciência sobre as causas que defende.

Todos os anos, dois milhões de raparigas abaixo dos 15 anos são mães. É preciso haver quem levante a voz por elas junta da opinião pública e das autoridades. Essa é uma das muitas tarefas de Catarina Furtado como embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas.

Calças de ganga, blusão preto, saltos altos, afetuosa e descontraída. Fora dos holofotes, estendeu a passadeira vermelha para os milhões que precisam de ajuda humanitária todos os dias. Um trabalho voluntário que sempre sentiu como seu, já na altura em que ajudava a mãe, professora, a levar os alunos à praia. Mas já lá vamos…

Foi há 18 anos que, então com 27, ainda solteira e sem filhos (hoje é mãe de Maria Beatriz, 10 anos, e João Maria, com 9, fruto do casamento com o ator João Reis), abriu a caixa de correio e encontrou aquele envelope com o remetente das Nações Unidas, em Nova Iorque. O secretário-geral Kofi Annan convidava-a para ser embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População.

Só depois do telefonema rápido aos pais a dar a notícia é que descobriu o que faz ao certo o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), a agência internacional da ONU com o objetivo de tornar cada gravidez desejada, cada parto seguro e cada potencial jovem aproveitado ao máximo. Os dossiês incluem a promoção da saúde materna e neonatal, o planeamento familiar, a prevenção do HIV, o combate à discriminação e violência sobre raparigas e mulheres e a defesa da igualdade de género e dos direitos humanos. Não era coisa pouca.

Naquele momento de nervosismo e ansiedade, nem sequer associou o convite ao encontro com Walter Codington, consultor de marketing na área social, responsável pela coordenação de uma campanha sobre a saúde das mulheres e os direitos reprodutivos nos países em desenvolvimento, com quem almoçara, meses antes, em Lisboa. Desde esse dia, a pulsão solidária que sempre sentiu, desenhou-se em muitas frentes nos quatro cantos do globo.

«Vi mulheres a morrer a dar à luz. Na maior parte das vezes é tão evitável que revolta e nos deixa marcados para sempre.»

Índia, Sudão do Sul, Haiti, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau, Indonésia, Timor, Gana. Os palcos por onde a apresentadora de 44 anos tem passado para alertar a comunidade internacional e deixar um pouco de esperança – seja através da entrega de ambulâncias ou medicamentos ou num novo centro de aconselhamento para mulheres vítimas de violência doméstica. Não cabem aqui as tantas histórias que recorda, muitas publicadas no livro O Que Vejo e não Esqueço (ed. Esfera dos Livros, 2015).

Como a da mãe guineense de 17 anos, grávida, que perdeu os bebés gémeos porque esperou de mais pelo transporte para o hospital. «O marido não queria vender as cabeças de gado para pagar o táxi.» Ou as de mulheres que lhe morreram nas mãos. Não há glamour nenhum nesta função. «Vi mulheres a morrer a dar à luz. Na maior parte das vezes é tão evitável que revolta e nos deixa marcados para sempre.»

Também não esquece o trabalho dos médicos voluntários do Lifeline Express, o comboio-hospital que percorre a Índia rural para dar consultas e fazer pequenas cirurgias. E o cumprimento sentido do doente com lepra, num hospital de Timor-Leste, que quase a fez estancar o gesto de retorno. Mas há memórias de olhares, gritos, cheiros e silêncios que não partilha. «Mantenho intacta o que acredito ser a dignidade de quem pouco mais tem que lhe reste.»

Comoção, alegria, dor, indignação e medo. A amálgama de emoções testada em experiências-limite, como o perigo vivido a bordo de uma lancha, na Guiné-Bissau, a caminho de Bolama, para acompanhar o trabalho da Ajuda Médica Internacional (AMI) numa ilha selvagem. «Continuávamos em mar alto quando nos apercebemos de que estávamos sem combustível. Telefonei ao meu pai, que me conseguiu serenar.»
[Leia aqui o emocionante testemunho do pai de Catarina, o jornalista Joaquim Furtado, sobre o papel da filha como Embaixadora da Boa Vontade da ONU — e este episódio em particular.]

Contra ventos e marés, porém, há sempre esperança para quem nunca desiste. Francis Oko Armah, por exemplo, chegou do Gana com muita fé no futuro. O jovem ativista da Curious Minds, a instituição britânica dedicada ao incremento da arte e cultura para crianças e jovens, foi dos intervenientes do painel moderado por Catarina Furtado a 27 de fevereiro em Genebra, Suíça. O evento decorreu numa das quatro sedes da ONU (a par de Nova Iorque, Nairobi e Viena) e tinha como tema a Gravidez na Infância, um dossiê que Catarina acompanha há muitos anos.

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Catarina Furtado está habituada a correr mundo para se informar e depois denunciar situações de violação dos direitos humanos. Em março esteve no Palácio das Nações, em Genebra, para moderar um debate sobre gravidez na adolescência.

Apesar de ser apenas a segunda vez que a embaixadora vem ao Palácio das Nações (a primeira foi em julho de 2013, também para moderar uma discussão sobre prioridades da população para o século XXI), Catarina está à vontade. A maior parte do trabalho que desenvolve é no terreno, mas é convidada frequente, várias vezes por ano, para falar em parlamentos, universidades, escolas e conferências pelo mundo inteiro, como interlocutora de vários painéis e eventos.

Um dos momentos mais importantes ocorreu em 2010, quando o então secretário-geral, Ban Ki-moon, a convidou para falar na cerimónia do Dia Internacional da Juventude, em Nova Iorque, depois de a ter nomeado Campeã dos Objetivos do Milénio – por cá, antes disso, Jorge Sampaio já a tinha condecorado com a Ordem de Mérito em 2005. Só não atende todos os pedidos do FNUAP por questões profissionais. «Ainda agora tive de recusar ir a Istambul porque tenho trabalho nesses dias na RTP», diz no carro, no caminho entre o hotel e o Palácio das Nações.

A apresentadora vai passando a palavra a uns e outros, interpelando com questões prementes, nem sempre com respostas para os invisíveis dois milhões de raparigas abaixo dos 15 anos que são mães, por ano, um problema global com consequências graves.

A intervenção do jovem do Gana sobre tudo o que pode e está a ser feito nas escolas do seu país, na sensibilização dos rapazes para a saúde sexual e reprodutiva, deixa Catarina orgulhosa. E dá-lhe o mote para o pontapé de saída no debate. A par de Francis, falarão Kate Gilmore, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Anne-Birgitte Albrectsen, CEO da Plan International, Evelyne Ilboudo, embaixadora da missão permanente do Burkina Faso. A apresentadora vai passando a palavra a uns e outros, interpelando com questões prementes, nem sempre com respostas para os invisíveis dois milhões de raparigas abaixo dos 15 anos que são mães, por ano, um problema global com consequências graves.

O debate decorre a propósito da inauguração da exposição de fotografia #chilmothers, tiradas por Pieter ten Hoopen, o sueco que expôs vidas em suspenso no Bangladesh, Zâmbia, Burkina Faso, Jordânia, Colômbia e Haiti. Catarina conhece algumas histórias como as que estão nestas imagens.

Num discurso em inglês, que cronometrou antes para garantir que não excedia o tempo, falou da jovem timorense de 12 anos que engravidou, depois de violada pelo chefe da aldeia, quando este lhe deu boleia para Díli para tentar uma bolsa escolar. «Ela quer ser juíza para o levar a tribunal. Posso também falar-vos de Elizabeth, que conheci no Sudão que já aprendeu a dizer não aos homens que abusam dela e que quer continuar a estudar. Ou Helena, de 15 anos, que não sabia que podia ter uma opinião. Na Guiné-Bissau, conheci Carry, que depois de ter ouvido no rádio um anúncio do FNUAP sobre fístula obstétrica, teve coragem para se fazer à estrada e curar o seu sofrimento com uma cirurgia. As mulheres com fístula são excluídas da sociedade, retiram-lhes os filhos, ficam fechadas em casa porque ficam incontinentes. Deixam de ter vida.»

Entre o debate e a inauguração da exposição, Catarina recebe um SMS de Mónica Ferro, recém-nomeada diretora regional da FNUAP em Genebra. A professora universitária de 44 anos, ex-secretária de Estado adjunta e de Defesa Nacional, vê com bons olhos a colaboração com a apresentadora. «Catarina é uma das mais reconhecidas e empenhadas embaixadoras de Boa Vontade do FNUAP », dirá uns dias depois. «Tem usado a sua excelente notoriedade e reputação para mobilizar atenção, recursos e vontades políticas.»

Conhecem-se bem: como coordenadora do grupo parlamentar sobre População e Desenvolvimento, Mónica trabalhou, na Assembleia da República, em várias iniciativas com a apresentadora. «Será uma aliada incansável e focada na nossa missão comum: um mundo melhor. Nada menos do que isto é aceitável para mim ou para a Catarina.»

No voo de regresso a Lisboa, depois das fotografias com o conselheiro de política externa do Kosovo e da conversa com a jovem portuguesa licenciada em direito que trabalha na ONU e irá para Timor, a embaixadora relaxa finalmente. Mas nunca a cem por cento. «Viu mesmo abutres a sobrevoar o hospital de Gabu, na Guiné-Bissau?» «Vi coisas terríveis.» E como se esquecem? «Em nenhum minuto as esqueço, só me dão mais vontade de voltar e agir.»

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Na sede da ONU, em Nova Iorque, com Omar Gharzeddine, do FNUAP, num debate sobre mutilação genital feminina.

O apelo pelo voluntariado talvez tenha começado aos 9 anos, quando ajudava a mãe, Helena, professora na Crinabel (Cooperativa de Ensino Especial e Solidariedade Social) a levar os alunos com necessidades especiais à praia, na Costa de Caparica. «Espalhava creme, ajudava nos banhos e nos almoços, sentia-me útil.»

Na memória ficou-lhe o dia em que, na praia, um grupo de pessoas se mostrou incomodada com a presença de Tó, o amigo com síndrome de Down, companhia habitual junto da família Furtado. «A minha mãe tinha o hábito de levar muitos alunos lá a casa. O meu impulso naquele dia foi cuspir na cara da senhora que o quis fora dali», diz a apresentadora aos 240 alunos do Colégio São João de Brito. «Não foi bonito, claro, reagi infantilmente, mas sempre me fez confusão esta coisa de distinguir as pessoas pelas suas diferenças. Quando me perguntam como começou isto do voluntariado, acho que esta história é um bom exemplo.»

Na apresentação em PowerPoint vai mostrando, sem filtros, as estatísticas aterradoras. Em pleno novo milénio, mais de cem milhões de meninas estão na calha para se casarem contra vontade. O risco é alto no que toca a práticas como a mutilação genital feminina. Em todo o planeta, cerca de 225 milhões de jovens mulheres não têm oportunidade de conceber a gravidez e o parto com acesso aos cuidados básicos de saúde sexual e reprodutiva. «Sabiam disto? Dá que pensar, não? Vocês podem fazer a diferença.

É para alertar e mudar mentalidades que Catarina visita escolas públicas e privadas portuguesas através da Corações com Coroa (CCC), a organização não governamental para o desenvolvimento (ONGD) que fundou há cinco anos com Ana Magalhães e Ana Torres, com o lema «Apoiar uma mulher é apoiar uma família, uma comunidade, um país».

Em parceria com o FNUAP e outras instituições portuguesas, a CCC promove uma cultura de não discriminação e não violência, na missão de fomentar a igualdade de género no combate à pobreza e exclusão social. Até 2018, e com o apoio da secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, a ONGD conta abranger cinquenta escolas em mais de cem sessões sobre combate à violência no namoro. Em maio, Catarina irá no seu carro, sozinha, percorrer escolas de norte a sul do país.

Fora dos portões das instituições, a CCC presta apoio gratuito psicológico, jurídico, de saúde materna e sexual e aconselhamento alimentar. E ainda atribui bolsas de estudo (financiadas por donativos de parceiros que se associam). Com uma equipa de duas pessoas e muitos voluntários, tem somado escolhas contra a pobreza, o preconceito, a discriminação e o bullying. «Não gosto de dizer “ajudar”, prefiro “apoiar”.

Assim estamos todos ao mesmo nível», diz a presidente da CCC, que muitas vezes, depois, de deixar a RTP, reúne com a equipa, madrugada fora, na sede da instituição em Belém. «Fazemos muitas noitadas», diz Ana Magalhães, hoje amiga pessoal da atriz, depois de se terem conhecido há dez anos.

Além de Catarina Furtado, o FNUAP tem mais cinco embaixadoras de Boa Vontade: a princesa Mary da Dinamarca, a atriz Ashley Judd, a rainha Ashi Wangchuck, do Butão, a princesa Basma Bint Talal, da Jordânia, e Goedele Liekens, jornalista e sexóloga belga. Catarina é a que desempenha o cargo há mais tempo. São todas escolhidas pelo seu perfil humanitário e carga mediática. O cargo não é remunerado, são apenas pagas algumas despesas de representação. Por vezes a apresentadora chega a custear os próprios voos e estadas, mas não gosta de falar disso.

Em 2005, com a colaboração do realizador Ricardo Freitas, criou o programa Príncipes do Nada, para dar antena, na RTP, às muitas faces do seu trabalho como embaixadora da Boa Vontade – a terceira temporada está atualmente a ser exibida na estação pública.

Não tem noção do número de viagens que já fez, entre os sítios que visitou pela primeira vez e outros onde voltou para assegurar que o trabalho dera os seus frutos. Refere o exemplo da gala RTP, em dezembro de 2006, onde conseguiu angariar 250 mil euros para uma unidade de cuidados móveis na Guiné-Bissau, graças ao contributo dos espetadores. Reduzir a mortalidade materna e neonatal naquele país foi o projeto escolhido dos donativos destinados ao FNUAP.

O Estado Português, através do então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Portuguesa, João Gomes Cravinho, acrescentou mais 250 mil euros, o que permitiu equipar os hospitais de Mansoa e Gabu, entregar ambulâncias, dar formação aos técnicos de saúde e aprovisionar medicamentos. Pela primeira vez começaram a fazer-se cesarianas naquela região guineense. A taxa de mortalidade das mães que morriam no parto baixou de 15 para nove por cento em doze meses.

O trabalho que desenvolve nos palcos de operações, conversando com chefes de aldeias, adolescentes grávidas, mulheres, professores ou médicos que se debatem com poucas condições, é elogiado por Alanna Armitage, de saída do cargo de Diretora Regional em Genebra para dar lugar à portuguesa Mónica Ferro. «É uma pessoa inspiradora, apaixonada, humilde. Através do trabalho como voluntária, o seu compromisso e dedicação têm feito a diferença na vida de muitas mulheres», escreve a canadiana a partir de Istambul.

Armitage garante que a apresentadora tem trazido à luz do dia temas como mortalidade materna, mutilação genital feminina, fístula obstétrica e casamento na infância, não só nas comunidades locais mas também através do que faz chegar aos líderes mundiais.

Em 2005, com a colaboração do realizador Ricardo Freitas, criou o programa Príncipes do Nada, para dar antena, na RTP, às muitas faces do seu trabalho como embaixadora da Boa Vontade – a terceira temporada está atualmente a ser exibida na estação pública.

Alice Frade, atual diretora executiva do P&D Factor, uma associação sem fins lucrativos para os direitos humanos, é o braço direito da embaixadora em Lisboa para questões técnicas. «Tem uma grande capacidade de aprendizagem e facilidade em interpretar os relatórios, estuda muito os documentos. E depois é a empatia no terreno.» Alice e Catarina costumam sentar-se uma ou duas vezes por mês, mas estão sempre em contacto.

«Há um trabalho de observação constante por parte do FNUAP e apresentamos relatórios anuais. A agenda varia muito, tanto é convidada para iniciativas e eventos marcados por eles como pode ela própria sugerir trabalhos e missões, tendo sempre em conta as prioridades no terreno.»

A antropóloga explica que o orçamento do FNUAP tem sido constantemente diminuído nas áreas vitais da saúde e planeamento familiar. «O trabalho dos embaixadores tem que ver com o bom alcance desses objetivos: há adaptações, estratégias, conferências e temas que estão sempre em agenda. Para isso, a Catarina reúne muitas vezes com responsáveis técnicos e políticos e muitos embaixadores e chefes de Estado. Em Portugal, vai com frequência ao Parlamento e todos os anos se senta com os grupos parlamentares de cada partido.»

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«Deixem-me falar-vos da jovem timorense de 12 anos que engravidou, depois de violada pelo chefe da aldeia, quando este lhe deu boleia para Díli para tentar uma bolsa escolar. Ela quer ser juíza para o levar a tribunal. Posso também falar-vos de Elizabeth, que conheci no Sudão que já aprendeu a dizer não aos homens que abusam dela e que quer continuar a estudar.»

Duas semanas depois de regressar de Genebra, Catarina Furtado voou para os EUA, para participar num debate sobre mutilação genital feminina, na 61ª Comissão do Estatuto da Mulher, na ONU. É assim boa parte da vida dela. Quando não está a apresentar, ou a preparar programas de televisão, ou a ensaiar, ou a representar em cima de um palco, possivelmente está a ouvir, denunciar, alertar e reportar abusos e injustiças. Numa aldeia de África ou num edifício de Nova Iorque.

O ator João Reis, marido de Catarina Furtado, admite que por vezes sente um certo receio quando a mulher está de partida. «Apesar de todas as missões serem bem avaliadas e preparadas, há contratempos, histórias e acontecimentos traumáticos, cansaço extremo, longas viagens, poucas horas de sono e toda uma série de outros imprevistos a criar sobressaltos e ansiedade.» No que toca às frequentes ausências da apresentadora, é com o apoio da família e um olhar atento sobre Beatriz e João que ambos contam para afetar o menos possível o quotidiano dos filhos. “Organizamo-nos com a antecedência possível para que o quotidiano dos nossos filhos não seja muito abalado. Os meus sogros são uns avós extraordinários, as Marias — a minha filha mais velha e a nossa empregada — estão sempre disponíveis, e depois há tias e primas e amigos sempre dispostos a ajudar. É óbvio que de vez em quando eles refletem ou manifestam de um modo mais claro as ausências, mas esforçamo-nos por manter um equilíbrio e estar atentos.»

Catarina tem noção disso e mede bem esse equilíbrio. Mas há imagens que lhe regressam sempre à cabeça. «Como estar olhos nos olhos com meninas mães que foram vítimas de abusos, obrigadas a dar à luz e a não viver a sua infância, que brincam com os filhos como se fossem bonecas.» A embaixadora bem se preparara para aguentar o embate emocional que esses encontros lhe provocam, mas não raras vezes fica abalada. «Ouvir as histórias que contam é muito violento. E mulheres com sida, que têm de tomar conta de si e dos filhos, na horta, sem forças mas a resistirem, de forma desumana, porque os maridos as abandonaram assim que souberam da doença? Meninas que entrevistei, com os olhos tão tristes porque vivem casamentos forçados com homens muito mais velhos, que desconhecem os seus direitos? É algo que nunca se esquece.»

Em 1993, com 21 anos, quando apresentou o concurso Chuva de Estrelas e ajudou a transformar anónimos em nomes reconhecidos da música, Catarina Furtado estava longe de sonhar que viria a correr mundo para denunciar atrocidades.

Muitas das meninas que já ajudou talvez nunca viessem a ter hipótese de ser cantoras, apresentadoras, atrizes, jornalistas ou o que quer que sonhem se não fosse o trabalho desenvolvido por esta embaixadora da boa vontade. «É uma oportunidade maravilhosa esta de poder “mexer” no mundo, de poder ser um microfone e um holofote dos direitos humanos de quem mais fica para trás: as meninas, as raparigas e as mulheres.»


USAR A IMAGEM PARA FAZER O BEM

A grande família ONU integra dezenas de programas, fundos, agências especializadas e outras entidades cada uma com o seu quadro, chefia e orçamento. Para alertar para o trabalho no terreno e sensibilizar a opinião pública mundial, foi criada em 1954 a figura do embaixador da Boa Vontade. O primeiro, ao serviço da UNICEF, foi o ator, cantor e comediante norte-americano Danny Kaye. Desde então, mais de 16 organizações da ONU têm recorrido a essa figura. Catarina Furtado é a única portuguesa nesta função e dá a cara pelo Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) há 18 anos, com outras cinco embaixadoras. A rainha Letizia de Espanha foi recentemente nomeada embaixadora especial para a Nutrição da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. A UNICEF tem o ator Liam Neeson, o futebolista Lionel Messi ou a cantora Shakira. A Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) já teve Richard Burton e Sophia Loren, agora tem Angelina Jolie.


DANÇAR NAS ENTRELINHAS

Formada na Escola de Dança do Conservatório Nacional, viu a carreira de bailarina abalada aos 17 anos, na sequência de uma queda grave – que lhe deu «uma das maiores lições de humildade» da vida. Adelino Gomes, amigo da família, aconselhou-lhe o curso de jornalismo do CENJOR. «Ao ver certos trechos da série Príncipes do Nada, dou por mim a encontrar neles traços vivos desse “terceiro olhar”, num verdadeiro novo género de comunicação mediática – o da reportagem humanitária», diz o experiente jornalista. Também o radialista Nuno Markl, colega de curso e amigo pessoal, destaca o lado «meio justiceiro». «Ela queria fazer fotojornalismo ou rádio, atrás das câmaras, não tinha a ambição de aparecer.» Depois de um estágio na Correio da Manhã Rádio, apresentou o TOP+ na RTP. Já na SIC, o sucesso de Chuva de Estrelas, em 1993, catapulta-a para o estrelato, mas debate-se com a velocidade da fama. Ruma a Londres, sozinha, para estudar Teatro e Cinema. A partir da capital britânica, assina as Bilhetes-Postais de Londres nas manhãs da Antena 1, com o jornalista Sena Santos, que lhe sublinha o profissionalismo. «A Catarina fazia sempre questão de testar a qualidade da linha, repetia experiências quantas vezes fosse preciso até haver a garantia de que não tinha ruídos e a gravação era perfeita. Sempre com máxima atitude profissional. E grande sensibilidade humana nas histórias que contava.»

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