O viticultor que quer pôr chineses, angolanos e americanos a beber vinho português

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À conversa com Casimiro Gomes sobre o negócio do vinho e a paixão pela vinha.

No Dão, os produtores desconfiados chamavam-lhe «achadiço», alguém de fora e com outra visão – porque subia ao trator, ia para o campo, podava as videiras, carregava o carro, vendia no mercado. Duro a negociar, rigoroso nos custos, todos os dias Casimiro Gomes, o presidente da Lusovini, é o primeiro a chegar à empresa, onde lidera uma equipa que trabalha em quatro continentes. Na adega de Nelas, uma conversa sobre o negócio do vinho e a paixão pela vinha.

Aos 15 anos, decide mudar de vida, deixa a escola de Oliveira do Bairro e ruma, sozinho, a Santo Tirso, decidido a tornar-se o melhor aluno do curso de Agronomia. Os pais, habituados à inconstância do adolescente nascido em Aguada de Cima em 1963, pouco acreditam na mudança do filho. Mas o desvelo com que o rapaz constrói uma pequena estufa caseira prova que o caso é sério. Em Nelas, nos anos oitenta, compra a primeira de muitas vinhas. Em 1990, com dez mil litros de vinho e apenas trinta mil garrafas vendidas, atira-se ao objetivo de ultrapassar o líder de mercado daquela zona vinícola. Meta atingida, recomeça. Com 45 anos, levanta um novo projeto, a Lusovini, e um novo sucesso.

Com que idade começou a beber?
A beber, tarde. A provar, muito cedo, com 15, 16 anos. Na minha família havia produtores e incentivava-se o consumo. Não para beber muito, para provar um pouco. Provava, não gostava mas classificava.

Não gostava porquê?
Os vinhos da Bairrada eram, naquela altura, um pouco adstringentes, algo amargos, agressivos. Por isso, usava o nariz. E como tenho um bom olfato conseguia identificar o vinho. Houve tempos em que, mesmo jantando fora, só bebia água. E ainda hoje, em casa, ao jantar quase sempre bebo água. Comecei a beber fora para fazer companhia à minha mulher, que gosta de beber um copo de vinho à refeição.

Um apreciador de vinho que bebe em excesso é uma contradição em termos?
Quando no início dos anos 1980, aos 17 anos decidi enveredar pela carreira agrícola e vinícola, o vinho era visto como uma bebida para alcoólicos. Bebia-se whiskey ao almoço, veja bem. Hoje, o vinho é percecionado como uma bebida diferenciada – esse foi, de resto, um dos incentivos para criar a Lusovini. Tivesse nascido uns anos antes e teria perdido esta experiência de ver o vinho recuperar um estatuto prestigiado.

O vinho não é para ficarmos inconscientes. O vinho em Portugal e no Sul da Europa é alimento. É para ser aplicado à nossa gastronomia. Faz parte. Era o energético dos nossos antepassados. Era o líquido menos contaminado (a água canalizada chegou tarde a muitas zonas do país). Quem bebe em excesso perde o melhor lado do vinho.

Nunca o vinho lhe serviu de apoio, de tábua de salvação?
Em estado de tristeza não consigo beber vinho. Só água. O vinho é celebração.

Fale-me de momentos de celebração.
Quando acabei o curso, no meu casamento, quando nasceram os meus três filhos e os meus netos, o vinho esteve sempre connosco. No meu casamento, em Águeda, bebeu-se um vinho das Caves São João, colheita de 1963, o ano do meu nascimento. E quando nasceu a minha filha, o meu primeiro descendente, escolhemos um vinho do Porto.

Como descreve a garrafeira pessoal?
Estranha, eclética. Compro por impulso. Durante muito tempo, comprei vinhos do ano de 63 a pensar na festa dos meus 50 anos. Tenho vinhos do ano de nascimento dos meus filhos. Todas as garrafas estão lá por um motivo particular. Quando um produtor me diz que certo vinho vai durar vinte anos, compro vinte garrafas e bebo uma por ano para ver a evolução, mais prazer pessoal do que profissional. Depois também compro tendo em conta o gosto da minha mulher. Sejam vinhos meus ou da concorrência. Aos meus filhos, gosto por vezes de os provocar com um ou outro vinho.

Fale-nos agora deste negócio.
O Grupo Lusovini tem duas ou três caraterísticas muito importantes. Antes de mais, na sua constituição. Diz a minha experiência que formar uma sociedade com base apenas na amizade raramente funciona. Neste projeto, todos nós – nove administradores, seis dos quais executivos – nos conhecemos enquanto profissionais e só depois ficámos amigos. Essa é uma grande mais-valia. Tendo em conta que somos uma PME e temos recursos muito limitados – e ainda que pessoalmente ache sempre que posso fazer melhor – levantar em sete anos um projeto como a Lusovini é algo de muito bom.

É a alma da empresa?
Os meus colegas dizem que sim, mas não tenho a certeza de que seja verdade. Se alguma coisa me distingue, se alguma coisa sei fazer a mais do que eles, é pensar e projetar a longo prazo. Julgo ser esse um dos segredos do sucesso das empresas. Aquilo que lhes permite não adormecer ou engordar. Talvez por serem mais novos do que eu, os meus colegas, ainda não conseguem fazer isso. Contudo, são excecionais técnicos e exímios gestores.

Dentro desta empresa sou só Casimiro e apesar de presidente do conselho de administração ganho exatamente o mesmo que os restantes executivos.

Não é o primeiro projeto que levanta do nada. Em 1990 criou a Dão Sul.
Esse projeto começou com dez mil litros de vinho e o meu objetivo de chegar a líder de mercado na zona do Dão. Basta dizer que então, 1995, tínhamos apenas trinta mil garrafas vendidas enquanto o líder vendia mais de quatro milhões. Mas cá está a minha urgência de pensar sempre à la longue, pelo menos a vinte anos. De resto, em 1992, propus na Dão Sul que durante precisamente vinte anos não se remunerava o capital – perdi logo alguns sócios [risos].

Não vou perguntar se atingiu a meta, mas quando atingiu a meta.

[Risos] Em 2006 tornámo-nos líderes. E, estranhamente, não foi assim tão difícil. Sou até capaz de dizer que foi fácil e não só por mérito nosso. A concorrência descuidou-se um bocado e subestimou o rapazito que eu era na altura. É engraçado, na década de 1990, os produtores do Dão consideravam-me um «achadiço», que nesta zona significa o que vem de fora, no meu caso de Águeda. Um achadiço com uma filosofia diferente, ainda por cima. Porque eu pegava no trator, ia para o campo, podava as videiras, carregava o carro, ia vender ao mercado, trabalhos considerados desprestigiantes num produtor mas que, para mim, não eram. Não eram e não são.

Saiu em 2009. O que correu mal?
Precisava de mais de cinquenta por cento do capital e fiz uma proposta de compra. Em resultado, e por ação de alguns sócios, acabei por ficar sem funções. Não me despediram, mas fiquei «sem pasta» e isso eu não podia aceitar. Disse à minha mulher que preferia dar as ações a continuar na empresa. Foi um momento muito marcante na minha vida empresarial. Até porque me permitiu criar a Lusovini.

Como reage à deslealdade?
Fico descontrolado. Acredito nas pessoas e, portanto, não aceito traições ou deslealdades. Não sei viver a olhar por cima do ombro.

Começar de novo aos 45 anos. Nessa idade já custa?
É o momento certo. Para a maior parte das pessoas, é o tempo certo para iniciar uma carreira empresarial. Sobretudo, quis fazer uma coisa diferente. Um projeto igual ao anterior, nunca. Teve o seu momento.

Que modelo de negócio é então este?
Enquanto técnicos e enólogos, pensamos sobretudo na produção, esquecendo o mercado. Nesta empresa acontece exatamente o contrário. Juntámos os produtores nacionais e vendemos para todo o mundo os seus produtos, em regime de exclusividade. Só iniciámos a produção quando criámos uma estrutura de mercado externo.

Como convenceu os produtores?
Antes de mais, pagando a tempo e horas, o que foi muito importante. No projeto anterior, os produtores viam-me como concorrente feroz. Neste caso, passava a aliado. De forma surpreendente e imediata, consideraram que valia a pena juntarem-se a nós. Até porque a crise começava a sentir-se no mercado nacional.

Dizem que é implacável a negociar.
É verdade. Mas nunca deixei de cumprir o acordado, escrito ou não. Dessa credibilidade não abdico em momento algum.

O que o diferencia de outros distribuidores?
As nossas condições: o produtor não pode aprovar/engarrafar um vinho, mudar a sua imagem ou estilo sem nos ouvir primeiro. Temos de concordar.

O mercado pede um determinado tipo de vinho que não está produzido. Como se resolve o problema?
Criando a nossa própria produção, sobretudo porque os produtores nem sempre reagem a tempo às necessidades do mercado. Há clientes internacionais que ao fim de meses de dúvidas decidem de um dia para o outro que querem um contentor. A produção própria permite-nos dar essa resposta em 24 horas.

Quantas garrafas vendem por ano?
Estamos perto de atingir os dois milhões de garrafas comercializadas, entre produção própria e a dos nossos produtores. Exportamos setenta por cento do nosso negócio.

E os valores financeiros?
Nunca falo de números. Nunca disse um valor financeiro.

Para quantos países exporta?
Para 35 países, mas sobretudo para os cinco onde temos empresas: Angola , Moçambique, Brasil, EUA e China. Atenção – exportação é uma coisa; internacionalização é outra. Na internacionalização vendemos serviço. E isso faz toda a diferença.

Está em mercados muito diferentes. Um vinho para o mercado angolano não serve, provavelmente, para o mercado chinês. É assim?
Angola é único país do mundo onde, perante a mesma qualidade e preço, os cidadãos escolhem sempre o vinho português. Não conheço nenhum outro mercado onde isso aconteça. E não é apenas com o vinho. O angolano gosta genuinamente dos produtos portugueses. O mercado chinês está ainda numa fase embrionária.

Os franceses continuam imbatíveis?
A imagem, sim. É outro campeonato e vai ser assim por muito tempo. O mesmo acontece com os vinhos italianos. E como o mercado aceita não há nada a fazer.

Os italianos são peritos a potenciar o que que é deles. Veja-se o exemplo da aguardente bagaceira: em Portugal é vista como produto para alcoólicos, em Itália é a alma do vinho, um subproduto vendido como luxo.

Ou seja, há uma aposta nas marcas. Dizem os franceses que na construção de uma marca só custam os primeiros cem anos. Pois é , mas quantas empresas de capital português têm cem anos? Uma ou duas.

Ajuda muito à França e à Itália terem internacionalizado as respetivas gastronomias, não?
Esse é o fator-chave do sucesso dos vinhos no mercado externo. Os bons restaurantes portugueses no mundo são tão importantes quanto as embaixadas portuguesas.

Nas provas cegas conseguimos batê-los?
Batemos franceses e italianos. Quando provados às cegas, e seja qual for o segmento, os vinhos portugueses batem-se de igual para igual e ganham muitas vezes. Em provas à vista não temos hipóteses. É uma questão de prestígio.

Como se conquista prestígio?
Desde logo, aumentando o preço. Quanto mais caros mais respeitados, mas falta-nos coragem. Se por cada garrafa que vendemos no mercado internacional fizéssemos chegar ao produtor mais cinquenta cêntimos (valor médio), em dez anos o vinho português tornava-se um dos mais prestigiados do mundo. Estamos a falar de 50 cêntimos, valor médio.

Que dizem as associações do setor?
Associações temos muitas, assinam-se acordos, mas não valem nada. Dou mais exemplos: os Porto têm um caminho imenso pela frente. Ou o vinho da Madeira, remetido para os molhos culinários quando é um vinho único no mundo, com uma acidez e um iodado raros. Deviam valer muito mais, deviam ser vendidos como raridades. Mas falta-nos coragem.

Na negociação é implacável. E perante o risco?
Se não estiver confortável, prefiro perder um negócio. E prefiro sempre negócios fracionados. Coisas imediatas raramente correm bem.

Já algum lhe correu muito mal?
Em 1998, na Dão Sul. Perdi quase vinte mil contos [cem mil euros] com um importador português. Meti-me no carro e fui a França, à procura dele, completamente fora de mim.

Leva os problemas para casa?
Nunca. Com uma exceção, há uns anos, quando uma marca, sem qualquer razão, interpôs contra a Dão Sul uma providência cautelar. Fui para casa decidir se deveria ou não acatar. Decidi acatar. Mas também decidi que gastaria o que fosse preciso para reagir judicialmente, porque a providência era injusta. Mais tarde, através de um acordo, passámos a maior acionista dessa empresa. Quando estou convicto, vou até ao fim.

De quem herdou esse feitio?
Não sei. Os meus irmãos não são assim. Apesar de todo o respeito que os meus pais sempre me mereceram, nunca abdiquei de lhes dizer o que achava, nunca fiquei calado. Lembro-me de ser assim com 5 ou 6 anos. Sempre que não concordava, dizia-o. E gosto que os meus filhos façam o mesmo. Acho mesmo que se tivesse nascido mais cedo teria tido problemas na ditadura.

Os meus pais achavam que eu era um revolucionário. Não aceito de mão beijada um raciocínio só porque sim. Curioso, só em 2012, na morte do meu pai, percebi o quanto ele compreendia a minha irreverência. Talvez mesmo se revisse nela e em mim. Sou, talvez, o que ele não pôde ser, até por ter perdido o pai muito cedo, o que lhe trouxe, muito cedo, muitas responsabilidades.

Como é que o vinho entra na família?
O lado paterno tinha terras e uma indústria de cerâmicas (telhas). O meu pai era mais industrial do que agricultor. A minha mãe, sim, era o motor da exploração agrícola da casa – carne, batatas, milho. Era uma família com terras, que investiu tudo na atividade agrícola. Não passavam fome, mas não lhes chegava ter comida.

Foi por isso que o avô Regateiro emigrou?
Tenho um apreço enorme por esse meu avô. Morreu muito cedo, no Caramulo, com tuberculose. É verdade, não lhe chegava ter comida. Quis sair do cliché e da miséria que se vivia em Portugal – foi primeiro para França, para ver como se fazia vinho. Passou por Paris, viu as floristas e teve uma ideia: foi para o Brasil vender vinho e flores.

Herdou dele a vontade de fazer diferente?
Talvez. Mas também do meu pai. O meu pai e o meu avô, que não conheci, são figuras fortes na minha vida. Em 1989, quando tomei a decisão de seguir a carreira de empresário, segui uma máxima do meu pai: «Se queres conseguir alguma coisa na vida, trabalha para ti, não para os outros.» Deixei o meu emprego numa cooperativa frutícola de Mangualde onde fui o primeiro licenciado, para ser empresário. É um marco decisivo e uma marca obrigatória no meu trajeto.

Tinha 26 anos, já estava casado, já tinha uma filha. Arriscou.
Muito. Estava formado em Engenharia de Produção Agrícola e, com os fundos comunitários, criei uma empresa de formação, outra de projetos, uma outra ligada à agricultura. Era um empreendedor de risco. Por cada mil contos que o meu pai me desse, comprometi-me a investir mais cinco mil. Ainda antes de me despedir, comprei então uma pequena propriedade em Mangualde, um estabelecimento imobiliário que ainda tenho hoje. Por essa altura, vi um terreno em Nelas, uma vinha, que me agradou. Fui ao banco, pedi cinco mil contos mas depois de uma conversa com a minha mulher, que sempre foi muito sensata, decidi não arriscar.

Fui ao banco desistir do pedido já ele estava deferido, sem sequer me pedirem aval. Bastou-lhes como garantia o meu ordenado (65 contos) e do da minha mulher (35). Achei que era um sinal e decidi, nesse momento, mudar de vida. Sempre com o fascínio da viticultura.

Como reagiu a sua mulher?
Apesar de podermos pensar nisto ou naquilo de maneira diferente, tomadas as decisões somos cúmplices. Recordo sempre o dia em que a minha namorada me lançou o desafio: «E se casássemos?» E eu respondi: «Olha, boa ideia. Eu estudo ainda mas tu já trabalhas.» Assámos um leitão, comunicámos a decisão à família e mantemos até hoje essa mesma cumplicidade.

Vinte e oito anos após ter largado o emprego e mudado de vida, quais são os objetivos pessoais?
Transformar as empresas que temos espalhadas pelo mundo, nomeadamente a dos EUA, em embaixadoras do vinho e da cultura portuguesa. Da gastronomia à ourivesaria tradicional. Por isso, fazemos anualmente um Wine Tour. Os franceses e os italianos fazem-nos há décadas. Portugal é um dos países com maior património vitícola genético, os nosso cientistas batem-se com os melhores do mundo. É um objetivo que tenciono cumprir. Outro é criar uma marca que ultrapasse o produto, mas esse ainda estou longe de atingir. Mas não desisto. Tenho pena que os portugueses tenham dificuldade em acreditar neles próprios.

Onde se vê daqui a dez anos?
A Lusovini é recente, sete anos, no vinho, não são nada. Quando vejo as metas serem cumpridas, costumo dizer que algo falhou no planeamento. Que deixámos a fasquia demasiado baixa. Comprámos agora uma propriedade que vai ser um exemplo, mas só daqui a dez anos. Ou vou plantar uma vinha cuja vida útil terá mais 50 ou 60 anos de atividade. Se calhar, já não é para mim.

Os filhos vão seguir-lhe as pisadas?
Está clarificado com os meus filhos que cada um faz o que entender e lhe der prazer. Quero-os autónomos em relação aos pais.

A agricultura está muito relacionada com a transmissão dos bens. O que o leva a investir em projetos a 50 ou 60 anos, sem certezas de que terá sucessores de sangue?
O projeto em si e a minha realização pessoal. Com os meus filhos é simples: nem eles tiram os cursos que eu gostaria que tirassem, nem eu exerço a minha atividade a pensar neles. Planto pelo prazer de plantar. Aos meus filhos quero deixar apenas conhecimento.

Tem 53 anos. Quantas vindimas já fez?
Centenas. Houve anos em que fiz duas ou três por mês, nomeadamente no Brasil.

A vindima é a hora da verdade. Como lida com essa angústia?
A adrenalina é tanta que perco sete a oito quilos por vindima. O nosso investimento está todo ali.

Já perdeu muitas colheitas?
Várias. Das de 1991 e 93 não lancei uma única garrafa. O padrão era inferior ao traçado. E em 2002 eliminei uma boa parte da colheita. Todos os anos elimino. Mas também já fiz vinhos que muitos criticaram e que deram certo.

Quando há 24 anos lancei o espumante Cabriz disseram que era o pior espumante do mundo, não bastava ser de Portugal… Hoje, sozinho, vende mais do que todos os outros espumantes do Dão.

É possível fazer bom vinho sem grandes conhecimentos?
Acidentalmente. Com regularidade, não. A regularidade exige conhecimento muito elevado. Se algo evoluiu nos últimos trinta anos, foi o conhecimento e a sabedoria na viticultura e na enologia.

Considera-se sobretudo vinhateiro?
Exatamente, eu sou um viticultor. A vinha é o local onde me sinto realizado. Mesmo que eu não precisasse de trabalhar, para a vinha iria sempre.

Se lhe pedissem o Ronaldo do vinhos portugueses, qual escolhia?
O Mateus Rosé. Se se produzissem em Portugal vinte marcas como o Mateus Rosé, os produtores poderiam receber por cada garrafa vendida mais um euro. Era uma festa. Seria maravilhoso para o vinho português.

Vive-se bem do vinho?
A atividade é inviável económica e financeiramente se os produtores continuarem a pensar apenas na produção e não na construção da marca. Quem não apostar na marca não paga o negócio.

Como é um dia seu?
Durmo apenas as horas que o meu organismo dita. Acordo sempre antes das seis da manhã e levanto-me. A essa hora já a China almoça. Já tenho os colegas da China a bombar. Depois, ao almoço, relaxo, mudo completamente de agulha. Acaba o almoço e volto ao registo trabalho. Se for lanchar, retomo em segundos o registo «conhaque».

Aos 15 anos decidiu ser agrónomo e foi, a seu pedido, para a Escola Agrícola de Santo Tirso. Que expetativas levava?
Aos 15 anos, decidi mudar de vida. Decidi que queria ser o melhor aluno da turma. Desatei a estudar mas, de cada vez que tinha uma boa nota, os professores da escola de Oliveira do Bairro, descrentes, acusavam-me de ter copiado. Eu não admitia a acusação, respondia-lhes e, portanto, andava marcado. Pensava mudar para Águeda quando descobri a escola de Santo Tirso. Visitei-a com o meu irmão e acabei por ficar em regime de internato. «Não duras aqui três meses», disse-me o meu irmão. Até por isso, concentrei-me de tal maneira, foi tal a obsessão, que fui mesmo o melhor aluno da minha turma.

Como é que os seus pais reagiram à mudança?
Os meus pais achavam que tinham um filho revolucionário e, por isso, não compreendiam bem o que fui fazer para Santo Tirso, nem qual seria o meu futuro. «Tu achas que vai dar alguma coisa?», perguntou-me o meu pai muitas vezes, desconfiado. Mas quando viram o esmero com que construí em casa, ainda aluno, a primeira estufa – e colheram tomates em pleno inverno –, ficaram orgulhosos. E eu, fascinado. Aquela seria mesmo a minha vida.

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VINHOS COM HISTÓRIAS E FAMÍLIA

Quantas garrafas tem na sua garrafeira pessoal?
Quatro ou cinco mil. Não são assim tantas.

O que leva alguém a comprar algo de que poderá não vir a usufruir?
É uma lógica emocional. O meu filho mais novo, o Manuel, vai fazer 16 anos. Não por acaso, o meu primeiro vinho do Porto, como produtor, tem precisamente 16 anos. No ano em que nasceu a minha neta, além dos vinhos que produzo, comprei vinhos do Porto daquele ano. Ou seja, compro vinho não tanto para beber mas para património histórico da minha família. Sei que um dia aquele vinho será tema de conversa. Como não fumo e pouco vou à bola, a minha extravagância é comprar vinhos que um dia possam ser tema de união e conversas em ambiente familiar. Que contem uma história.

Conte a história de um dos seus vinhos.
Os vinhos não são apenas meus. Sou um defensor de uma cultura de sociedade, até porque sou daqueles que não conseguem trabalhar sozinhos. Mais: sozinho sou muito incompetente. Dito isto, uma história. Há uma que se destaca. Começa no dia em que percebi que o meu pai não iria durar muito tempo e decidi lançar os vinhos Regateiro. Fiz então, o mais depressa que pude, um vinho da colheita de 2009. Era, claro, o vinho possível.

De tal forma que um dos jornalistas do setor convidados para a apresentação me disse: «Esperava mais de si e não entendo uma homenagem ao seu pai com um vinho destes.» Respondi que para mim era o vinho mais valioso porque o meu pai estava ainda ali fisicamente e como eu previra, não tivera tempo de provar outro Regateiro. Sei bem quanto o meu pai ficou orgulhoso.

Regateiro, apelido do avô que nem o filho nem o neto herdaram.
Daí ter escolhido o nome. A intenção é ligar de novo a família a esse apelido, um apelido que estava perdido. E, talvez por isso, a família tenha sido tão compreensiva quando me cedeu as vinhas. Esse vinho – que enologicamente não será o melhor – é o vinho mais marcante da minha vida.

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