OPINIÃO

66 por cento das crianças carregam peso a mais nas mochilas

Lucas Martins tem sete anos, pesa 27 quilos e vai para a escola com uma mochila de três. Pedro Farinha, 13 anos, carrega diariamente 7,3 quilos em material escolar, ainda que pese apenas 48. Joana Pereira, dez anos e 43 quilos, tem dias em que leva para a escola 6 quilos. Estes são três exemplos que ultrapassam os 10 por cento de peso relativamente à massa corporal recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Fomos falar com especialistas sobre o assunto, à procura das respostas de que os pais precisam.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Leonardo Negrão/Global Imagens

Lucas, Pedro e Joana são um pouco mais velhos que os filhos de José Wallenstein, António, de dois anos, e Lara, de cinco. Foi a pensar neles que o ator decidiu avançar com a petição contra o peso excessivo das mochilas escolares em Portugal que apresentou ao Parlamento em fevereiro deste ano e que está, de momento, ao cuidado da Comissão Parlamentar de Educação e Saúde. De forma peremtória, o ator defende que não quer que os filhos sejam «burros de carga enquanto estudam» e que este é «um problema claro de saúde pública».

Reunir as 48 mil assinaturas não foi difícil tendo em conta que este tema tem vindo a ser discutido há algum tempo. Entre eles estão médicos fisiatras, a Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, a Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação, a Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral e a Confederação Nacional das Associações de Pais.

Os signatários sugerem um conjunto de medidas para legislação imediata que podem ajudar a reduzir o peso das mochilas. Pode ler-se no documento que deve existir «a obrigatoriedade de as escolas pesarem as mochilas das crianças semanalmente, de forma a avaliarem se os pais estão conscientes desta problemática e se fazem a sua parte no sentido de minimizar o peso que os filhos carregam.» Para tal, «cada sala de aula deverá contemplar uma balança digital, algo que já é comum em muitas escolas, devendo ser vistoriada anualmente.»

Já existem escolas que disponibilizam cacifos há algum tempo mas o documento apela à necessidade de reforçar a ideia de que todas as escolas, públicas ou privadas, devem ter a opção para os alunos deixarem cadernos, livros ou o material escolar sem terem de os levar para casa.

A produção dos livros também deve ser revista. Uma das medidas sugere que estes sejam produzidos com papel mais fino e «divididos em fascículos retiráveis segundo os três períodos do ano», lê-se. A petição cita um estudo da DECO, e 2003, com 360 crianças do 5.º e 6.º anos, em 14 escolas públicas e privadas que concluiu que 53 por cento dos alunos transportavam mochilas acima dos 10 por cento defendidos pela OMS.

O total de alunos que leva às costas mais de 20% do peso corporal aumentou: em 2003 era de 45% e atualmente chega aos 16%.

Passados 14 anos, em 2017, a Deco repete o estudo e as conclusões são ainda mais alarmantes. Em seis escolas, públicas e privadas, foram pesadas 174 crianças e as respetivas mochilas. 66% carregava mais quilos que os aconselháveis 10 por cento. O total de alunos que leva às costas mais de 20% do peso corporal também aumentou: em 2003 era de 45% e atualmente chega aos 16%.

Em 2015, a Spine Matters, uma associação sem fins lucrativos focada no estudo da coluna vertebral, realizou um outro estudo relacionado com o tema numa escola em Lisboa, envolvendo 110 crianças, no sentido de avaliar as raquialgias (dores na coluna vertebral) em crianças no ambiente escolar. Vários parâmetros foram avaliados nomeadamente o peso das mochilas, a relação mochila/peso, o número de livros por mochila, o tipo de mochila/trolley, posicionamento nas costas, queixas de dores, comunicação aos encarregados de educação, consulta por especialista ou prática de exercício físico.

Luís Teixeira, médico ortopedista e presidente da direção da Spine Matters confessa que o resultado foi alarmante: «em apenas 23 por cento das crianças, o peso das mochilas era inferior aos 10 por cento do peso da massa corporal e em 33 por cento este valor era superior a 15 por cento.

O ano de escolaridade «mais pesado» é o 7.º, que ultrapassa os restantes com uma média de 7,5 livros por mochila.

O estudo levantou ainda uma outra questão muito importante: a comunicação entre pais e filhos. «37 por cento das crianças envolvidas no estudo referiram ter com alguma frequência dores nas costas mas apenas 20 por cento o tinha comunicado aos pais ou professores. Destes, apenas 14 por cento foram observados por um médico em consulta», garante o ortopedista. Este é apenas o primeiro de um conjunto de 20 estudos que a associação pretende levar a cabo em estabelecimentos escolares por todo o país.

Na escola, as crianças estão sujeitas a uma pressão diária constante, com várias disciplinas por dia, trabalhos de grupo e para fazer em casa e ainda atividades extracurriculares. Não deveriam estar os pais mais vigilantes em relação ao assunto? Jorge Ascensão, da Confap, defende que os pais estão atentos, mas que «em alguns casos não percebem o problema, no momento, já que as consequências não são visíveis de imediato. Os pais são parte da sociedade. Uma sociedade que de certa forma está conformada como se tudo ou quase tudo fosse uma fatalidade dos tempos. Uma sociedade alheada da defesa dos seus direitos coletivos. Daí que esta petição faça todo o sentido.»

Sujeitar crianças, em fase de crescimento, a um excesso diário de peso que pode causar dores e provocar acidentes parece merecer o repúdio da comunidade médica. No entanto, existem vozes divergentes em relação ao efeito direto do peso nas deformidades da coluna vertebral. Jorge Seabra, Ortopedista Infantil e ex-Diretor do Serviço de Ortopedia do Hospital Pediátrico de Coimbra receia que, em termos científicos, o assunto não esteja bem esclarecido e que, por isso, se façam generalizações erradas.

O ortopedista Jorge Seabra garante que «não existem atualmente estudos científicos que nos permitam concluir que o peso das mochilas esteja na base ou contribua para o agravamento de deformidades escolióticas da coluna vertebral».

O ortopedista infantil não nega que carregar um valor exagerado às costas causa dor e cansaço, muito pelo contrário, é um fator de preocupação que deve ser discutido. Mas há uma consequência que parece ficar sempre de fora da discussão: «os acidentes nas crianças acontecem muitas vezes por causa da distribuição errada do peso pelo corpo. Ninguém fala disso, mas é uma das principais causas de lesões infantis», concluí.

Luís Teixeira corrobora que realmente «não existem atualmente estudos científicos que nos permitam concluir que o peso das mochilas esteja na base ou contribua para o agravamento de deformidades escolióticas da coluna vertebral» e acrescenta ainda que «existe uma enorme dificuldade em conseguir efetuar estudos comparativos incluindo crianças em idade escolar e conseguindo fazer o seu seguimento até à idade adulta mais avançada.»

Se a legislação pode obrigar editoras e escolas a ter um papel mais ativo na diminuição da carga física para os alunos, a sensibilização da sociedade para a problemática é o verdadeiro desafio, segundo Paulo Pereira, neurocirurgião e coordenador da campanha «Olhe Pelas Suas Costas», uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral, em parceria com sociedades e associações médicas e científicas nacionais, algumas delas signatárias da petição, que alerta para problemas relacionados com a coluna vertebral. O neurocirurgião ainda não assinou a petição e tem dúvidas se algumas medidas serão aplicáveis, mas apoia a iniciativa e aplaude que «se inicie um debate consciente na Assembleia da República».

Lucas, Pedro e Joana têm alguns anos de estudo pela frente. Ainda vão carregar muitos livros, encher alguns cadernos, terminar folhas de exercícios, colecionar dossiers, trocar algumas vezes de mochila. Esta é a realidade de qualquer criança que faz a escolaridade obrigatória, no ensino público ou no privado. Mas à custa de que implicações físicas?

Ana Patrícia Cardoso
Leonardo Negrão/Global Imagens * Produção: Rute Cruz