OPINIÃO

O homem que paga as promessas dos outros

Há 15 anos que Carlos Gil paga as promessas dos outros. A troco de dinheiro. «É um serviço que presto ao próximo.» Por estes dias, está novamente a caminho de Fátima a pé – desta vez são 120 quilómetros – para cumprir um voto feito por outra pessoa. A Igreja, naturalmente, não vê isto com bons olhos.

Texto Paula Sofia Luz Fotografia Paulo Spranger/Global Imagens

Por estes dias, Carlos Gil deverá estar na estrada. Terá saído de Mafra (terra natal do autor da promessa) no dia 5 de maio, mochila às costas, pouca coisa lá dentro, apoiado no bordão que foi buscar a casa dos pais. Os dois filhos, adultos, ficam como sempre na casa da família, na pequena aldeia de Murches, no concelho de Cascais. É lá que vive o pagador de promessas.

Carlos Alberto Barbudo Gil, 53 anos, vendedor de casas, profissão que completa com esta prestação de serviços – como lhe chama – cobra 2500 euros para ir a Fátima a pé. Por menos que isso reza o terço ou acende velas no santuário mariano. «É a honra de servir os outros. É assim que olho para o serviço que presto», diz ele, desenvoltura no falar, convicção para repartir.

A história começa há cerca de 15 anos, depois de um esgotamento nervoso que o fez repensar a vida. Já era empenhado na paróquia, já participava no coro e na catequese, mas foi a impossibilidade alheia que, garante, o «empurrou» para a primeira peregrinação a Fátima.

Carlos Gil, 53 anos, pagador de promessas
Carlos Gil, 53 anos, pagador de promessas

«Não sei explicar, foi um ímpeto», diz ao longo da conversa, recuando ao tempo em que a família «não entendia o que estava a fazer». Carlos diz-se crente desde novo, da infância em Luanda à adolescência em Portugal, que a família de retornados percorreu de lés a lés. Terá sido uma reportagem da agência Reuters sobre ele, publicada no jornal inglês The Guardian, que desencadeou tudo: «Os telefonemas, os e-mails, eu não sabia o que se estava a passar.»

Contactam-no para peregrinar todo o tipo de pessoas, a maioria nunca chega a conhecer. Fazem-no porque «estão impossibilitadas, de alguma forma, pela distância ou razões de saúde ou outro motivo qualquer», de cumprir o que prometeram a Nossa Senhora de Fátima.

Foi assim que profissionalizou o serviço. Contactam-no para peregrinar todo o tipo de pessoas, a maioria nunca chega a conhecer. Fazem-no porque «estão impossibilitadas, de alguma forma, pela distância ou razões de saúde ou outro motivo qualquer», de cumprir o que prometeram a Nossa Senhora de Fátima ou outra figura religiosa qualquer. Pagam-lhe antecipadamente, por transferência bancária, e segue uma espécie de código de conduta que o impede de falar sobre os clientes, a quem prefere chamar «beneméritos».

À medida que se foi tornando conhecido, cresceu esse universo. Tal como a desconfiança. «Estou habituado aos julgamentos que as pessoas fazem, lido bem com isso. Não me conhecem, nunca estiveram comigo. Se estivessem, perceberiam que não sou um charlatão.

Sobre o pagamento de promessas por terceiros, «o Santuário de Fátima nada tem a dizer», diz a porta-voz, Carmo Rodeia, que remete para um comunicado oficial a propósito das reportagens no Natal de 2016: «Tendo surgido na comunicação social referências a um alegado envolvimento do Santuário de Fátima em ações de caráter comercial que pretendem garantir o cumprimento de promessas religiosas, esclarece-se que o Santuário de Fátima nada tem que ver com qualquer campanha desta natureza, e que repudia veementemente este tipo de iniciativas».

Cada peregrinação que faz é diferente. O pagador de promessas não é capaz de contabilizar quantas caminhadas já fez. Vai sozinho, desta vez, como na maioria, pronto para uma caminhada que dura sete dias

O vigário-geral da Diocese de Leiria-Fátima reporta para uma posição assumida em editorial do jornal Presente (órgão oficial da diocese) relativamente às promessas: «Se as pessoas fazem sacrifícios físicos, orações e ofertas a Nossa Senhora, com um espírito e intenção comercial, no sentido de “dou-te isto para que me concedas aquilo”, então é provável que fiquem dececionadas por não serem atendidas. As expressões de fé têm de ser verdadeiras e nunca um negócio nem pretexto para o comércio entre os homens.»

Carlos Gil não se preocupa muito com isso. Cada peregrinação que faz é diferente. O pagador de promessas não é capaz de contabilizar quantas caminhadas já fez. Vai sozinho, desta vez, como na maioria, pronto para uma caminhada que normalmente dura sete dias. «Outro serviço que presto é acompanhar a pessoa que quer peregrinar. O valor é o mesmo: 2500 euros.»

Cobra 2500 euros pelo serviço. «Achei que era justo. Ao princípio era em dólares, mais tarde é que passou a ser euros. Porque o serviço é vocacionado para o mundo lusófono, sobretudo para quem está longe.»

E como é que chegou a esse valor? «Não sei dizer. Achei que era justo. Ao princípio era em dólares, mais tarde é que passou a ser euros. Porque o serviço é vocacionado para o mundo lusófono, sobretudo para quem está longe.» Nunca chega a conhecer, de facto, a maioria desses clientes. Outros conhece após a peregrinação. «Falo sempre sobre o meu serviço, mas sobre os beneméritos não falo.»

Faz apenas duas ou três peregrinações por ano. Chama-lhe «o padrão», o que não quer dizer que o número não possa crescer. Esclarece, à partida, que cada peregrinação diz respeito «apenas a uma pessoa. Por isso, muitas vezes, o difícil é escolher. Quando são peregrinações muito requisitadas, decido-me pelo que me contactar primeiro».

Depois desta que se avizinha, a Fátima, prepara-se para outra, no Brasil, à Senhora da Aparecida, onde os fiéis comemoram os trezentos anos da aparição. «Nesse caso são valores diferentes», que o pagador de promessas prefere não revelar. Diz apenas que o percurso e o custo será semelhante a outra peregrinação que já fez, em Angola, de Luanda à Nossa Senhora de Muxima.»

Por estes dias está a caminho, come e dorme «onde Deus quiser». Se for sozinho (em vez de acompanhar alguém em peregrinação, outro serviço que presta) não tem «nada marcado. Nem quarto nem restaurante, nada». «Não é postura de mendigo, é postura de entrega», esclarece. E apesar de dedicar parte da vida a pagar as promessas dos outros, nunca prometeu nada em nome pessoal. «Dentro da minha linha de pensamento e devoção, acredito que com o divino não se negoceia.»


VELAS À DISTÂNCIA DE UM CLIQUE

A empresa Vive Fátima também cobra por serviços relacionados com promessas em Fátima: coloca velas e flores junto da imagem de Nossa Senhora, num serviço encomendado online. Os clientes podem escolher entre colocar uma rosa branca ou uma vela grande. Por cada serviço paga cinco euros. «Garantimos que o seu desejo é concretizado na sexta-feira seguinte ao do dia em que o serviço é solicitado, em total solenidade e privacidade», lê-se no site Vive Fátima. Em dezembro, o Santuário repudiou «este tipo de iniciativas», num comunicado de resposta a várias reportagens sobre a empresa, por estes dias empenhada a levar ao cabo a TVFátima. O administrador da empresa, Luís Pedro Martins, garante que não se trata de «pagar promessas de ninguém, mas sim prestar um serviço que muitos santuários marianos fazem, como Lourdes, por exemplo».

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.