OPINIÃO

Cães perigosos que atacam pessoas: abater ou não abater?

Mais um ataque de um cão a uma criança, nova divisão entre quem apela ao abate e os que rejeitam a ideia. Carolina Azevedo tem um cão e uma filha de 16 meses e não tem dúvidas: abateria o animal caso este fosse violento. Rita Fernandes, cuja filha foi mordida na cara pelo dálmata da família, garante que nunca defenderia a morte de um cão, nem os de raça perigosa.

Texto Catarina Guerreiro Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens e José Manuel Ribeiro/Global Imagens

Carolina Azevedo [na fotografia à direita] tem uma filha de 16 meses e um cão de três anos, cruzado de pit bull com labrador, o Buddha. «Vivo com o coração nas mãos», admite, explicando que o cão é filho da sua antiga cadela, uma pit bull, que morreu há cerca de um mês com cancro. Apesar de ter passado a ter mais receio desde que foi mãe, nunca ponderou desistir dos cães. «Não consegui separar-me deles.»

A cadela estava com ela há 13 anos e era tratada como família. Faz o mesmo com este mais novo, a quem dá, garante, todo o «carinho e atenção». No entanto, diz, caso atacasse de forma violenta a sua filha ou outra criança, não hesitaria: «Abatia-o.» Por considerar que, tendo em conta a forma como trata o cão, não faz sentido ele mostrar um comportamento tão agressivo. «Então, era porque não haveria nada a fazer.»

Mas para Rita Fernandes [na fotografia à esquerda], dona de dois cães, um dálmata e um rafeiro, isso é incompreensível. «Não há cães maus. Há sempre uma razão para serem agressivos», acredita. E conta que a filha, quando tinha dois anos, foi «vítima» do dálmata da família.

Como dona de um cão potencialmente perigoso, Carolina diz não ter dúvidas de que a forma como os donos tratam os cães é decisiva para o seu comportamento.

«A cadela apenas se defendeu. A minha filha andava a pisá-la e ela teve um ato impulsivo», conta Rita, lembrando que a Bubble mordeu a cara da Leonor e esta teve de ser cosida. Ainda hoje, três anos depois, nota-se uma «pequeníssima» marca na cara da criança, agora com 5 anos. Rita garante, porém, que a filha ultrapassou o episódio e adora a Bubble. E adianta que mesmo que o seu cão fosse de uma raça potencialmente perigosa – como os pit bull, os rottweiler, os cães de fila brasileiros ou os dogue argentinos, entre outros – nunca o abateria.

«Mesmo que um cão desses atacasse a minha filha, acho que nunca defenderia o abate, mas sim a sua recuperação, a reabilitação», diz Rita Fernandes. E sublinha que é sempre um veterinário que tem de decidir se deve ou não haver abate.

A solução passa por treinar os cães com especialistas. «A minha cadela logo com quatro meses começou um treino de um ano com um treinador, pois os dálmatas são pouco obedientes.»

Carolina, por seu lado, garante que o principal treino «tem de ser em casa». Todos os dias, durante cinco a dez minutos, senta-se, põe a filha entre as pernas e as duas brincam com o cão. A bebé dá-lhe festas, pão e beijinhos e o Buddha rebola-se com os seus 50 quilos. «Não se deve esconder a criança do cão. Deve-se dar a conhecer como membro da família. Até para o caso de, se um dia se cruzarem, sem vigilância, não haver nenhum azar.»

Rita considera que a maior responsabilidade recai sobre os donos: «Os donos é que são culpados porque não tratam corretamente os cães ou não cumprem as regras, como usarem açaimes e trelas.»

Como dona de um cão potencialmente perigoso, diz não ter dúvidas de que a forma como os donos tratam os cães é decisiva para o seu comportamento. «Muitos são negligentes com os animais», diz. Para ela, uma coisa é morder, outra atacar.

Certo é que, perante a força e as características destes animais, muitas vezes os donos são irresponsáveis. «Deixar estes cães em casa à solta, quando há crianças, pode ser um comportamento de risco.»

Nisso, Rita está de acordo. «Os donos é que são culpados porque não tratam corretamente os cães ou não cumprem as regras, como usarem açaimes e trelas.» E recorda um dos últimos casos conhecidos, em Matosinhos, há duas semanas, onde um homem passeava um rottweiler sem trela e sem açaime e este atacou uma criança de 4 anos.

Rita acha que os cães «refletem muitas vezes a personalidade dos donos». Além disso, defende, nem todas as pessoas têm capacidade para ter animais de raças potencialmente perigosas. «Não basta não terem cadastro, como diz a lei. Eu até podia gostar, mas não tenho disponibilidade nem energia e por isso não tenho.»

Rita Fernandes é advogada e presidente da assembleia geral da Associação Patinhas da Rua, que ajuda animais e da qual é cofundadora. Tem 39 anos e é ainda dona de um restaurante e catering. É contra o abate de cães potencialmente perigosos. Carolina Azevedo é administrativa numa empresa de telecomunicações, depois de ser mãe criou uma marca de roupa de criança feita à mão, que vende pela internet. Tem 33 anos e desde que nasceu que tem cães. É a favor do abate de cães potencialmente perigosos.