OPINIÃO

Bela Gil: a polémica chef saudável do Brasil

Um programa de culinária na televisão brasileira, um canal de sucesso no YouTube, três livros de receitas best-sellers do outro lado do Atlântico (um deles editado agora em portugal), milhares de seguidores na internet. Defensora de um modo de vida saudável, com algumas opções polémicas, a chef Bela Gil, filha do cantor Gilberto Gil, é muito mais do que o seu apelido famoso.

Texto Ana Patrícia Cardoso | Fotografia Gonçalo Villaverde/Global Imagens (Bela Gil foi fotografada na sede da Fruta Feia, no Intendente)

De passagem pelo Algarve, pela primeira vez, Bela Gil almoçou peixe acabado de pescar, junto ao mar. «Que delícia, meu deus!» Aos 29 anos, a baiana de Salvador, chef e apresentadora de televisão está em Portugal para apresentar o livro de receitas Bela Cozinha (o segundo dos três que já publicou), um best-seller no Brasil. Por estes dias, tem aproveitado para conhecer o país e render-se à cozinha portuguesa.

Defensora de uma alimentação saudável aliada a um estilo de vida cada vez mais sustentável, Bela rejeita rótulos. «Muita gente me pergunta se sou vegetariana. Não sou. Se estou aqui em Portugal e posso comer um peixe fresco, eu acho que é bem melhor do que comer hambúrguer de soja, não é?»

Alimentar-se bem está-lhe nos genes. Bela cresceu numa família grande (é a sétima dos oitos filhos de Gilberto Gil) e lá em casa a alimentação é sempre cuidada, maioritariamente macrobiótica. «Sempre comemos bem, muito incentivados pelo meu pai.» Aos 15 anos, começou a praticar yoga e «naturalmente, o corpo foi rejeitando os alimentos processados».

O programa Bela Cozinha estreou-se em 2014, com convidados famosos, especialistas da área de nutrição e, claro, muitas receitas saudáveis. Jamie Oliver foi um dos ilustres, num programa em 2015.

Desde cedo percebeu como a comida pode influenciar o humor e a energia. Com 18 anos, partiu para Nova Iorque com o namorado (e atual marido) João Paulo Demasi para estudar inglês. Apaixonou-se rapidamente pela cidade (ia ficar seis meses, acabou por ficar oito anos), mas encontrou um entrave. «Para me alimentar de forma saudável e dentro do meu orçamento, percebi que tinha de aprender a fazer comida. Foi por necessidade mesmo que comecei a ir para a cozinha.» E essa necessidade virou aprendizagem profissional com um curso de Culinária Natural no Natural Gourmet Institute e uma licenciatura em Ciência e Nutrição no Hunter College.

A partir daí, começou a dar aulas em casa e uma amiga filmou um desses encontros. Foi o passaporte para o programa no canal GNT. «Na altura, estranhei um pouco, sempre fui tímida. Mas a verdade é que quando estás a falar de algo que entendes, a timidez vai desaparecendo.» Voltar para o Brasil para gravar acabou por ser a escolha natural. «Gosto do ritmo do Rio de Janeiro, é mais calmo e descontraído.»

Bela diz que «a polémica da melancia grelhada deve ter sido a maior, até hoje. Surgiu num churrasco nos Estados Unidos. Muita gente não gostou, mas houve quem me dissesse que era incrível.»

O programa Bela Cozinha estreou-se em 2014, com convidados famosos, especialistas da área de nutrição e, claro, muitas receitas saudáveis. Jamie Oliver foi um dos ilustres, num programa em 2015. «Gosto muito dele, tem feito mudanças importantes. Olho para o Jamie penso que se ele consegue mudar cabeças, talvez eu também consiga.»

Por um lado, a popularidade da chef foi aumentando – ganhou até o prémio Carioca do Ano 2015 pelo trabalho desenvolvido na área da alimentação saudável –, mas, por outro, também tem sido alvo de críticas constantes e a internet não se cansa dos memes sobre algumas dicas de Bela.

«A polémica da melancia grelhada deve ter sido a maior, até hoje. Surgiu num churrasco nos Estados Unidos. Muita gente não gostou, mas houve quem me dissesse que era incrível.» É preciso ter humor para encarar as críticas e saber diferenciar as abordagens. «É normal as pessoas criticarem o que não conhecem. Eu não levo a mal nada disso, até me divirto.»

Preocupada com a alimentação desregulada dos brasileiros, Bela não tem receio – tem até vontade – de iniciar essa discussão. «Come-se muito mal. Ainda é “legal” dar refrigerantes para as crianças. Eu já vi darem pelo biberon. Faz-se muito isso. Imaginem as crianças a crescer assim.» Mãe de dois filhos – Flor, com 8 anos, e Nino com 1 –, a alimentação infantil é uma preocupação constante da apresentadora. «Ainda existe um estigma grande de que a comida saudável não tem sabor, é cara e é a mesma coisa.»

Para Bela, que adora um bom arroz com feijão, este preconceito está longe de ser realidade. «O que eu menos como é salada. Vario nos pratos e não é assim tão caro quanto as pessoas pensam. Basta fazer um planeamento para a semana. Não se pode ter preguiça para comer bem.»

Bela bebeu a própria placenta num batido de frutas preparado pela doula. «Nos Estados Unidos é muito comum, alguns estudos indicam mesmo que ingerir a placenta diminui o risco de depressão pós-parto, tem muito ferro. Falar disso é uma forma também de pôr as pessoas a pensar fora da sua zona de conforto.»

Além do programa no GNT, criou um canal do YouTube (Canal da Bela) onde «tem mais liberdade» para falar sobre o seu estilo de vida. Dá dicas de higiene, limpeza e saúde, uma partilha que afirma não ser planeada de antemão. «Os vídeos acontecem ao ritmo das minhas próprias descobertas.» Sem radicalizar, a baiana defende que «todo o consumo pessoal e doméstico é consciente: a pasta de dentes, por exemplo, é feita de curcuma e óleo de coco. E também faço o meu próprio desodorizante e o champô.»

Um dos momentos mais comentados do seu percurso foi a publicação no YouTube do parto do filho mais novo. Em casa, com uma parteira, a doula, o marido e a filha, Bela deu à luz numa piscina insuflável. «Foi um momento mágico, uma consagração da natureza. Foi também um parto incrivelmente simples, sem complicações.» Divulgar um momento tão pessoal serviu para alertar o Brasil para a questão das cesarianas. «Temos uma das maiores taxas de cesarianas do mundo. É assustador. O nosso corpo está preparado para dar à luz, é um ato natural da mulher, e eu quis mostrar isso mesmo.»

Mas não ficou por aí. Bela bebeu a própria placenta num batido de frutas preparado pela doula. «Nos Estados Unidos é muito comum, alguns estudos indicam mesmo que ingerir a placenta diminui o risco de depressão pós-parto, tem muito ferro. Falar disso é uma forma também de pôr as pessoas a pensar fora da sua zona de conforto.»

Há quem use as suas dicas e já note as diferenças. «No meio das críticas, tenho pessoas que vêm falar comigo e dizem que, no início, não acreditavam, mas que agora estão mais saudáveis, com mais energia e mais conscientes. É uma ótima recompensa.»

Polémicas à parte, uma das caçulas do clã Gil é a cozinheira de serviço lá de casa. «Todos me chamam para cozinhar. Meus pais sempre me ligam para ir fazer a feijoada vegetariana. Como é bom ter a família reunida e aquele cheiro gostoso do feijão ao lume.» Dá um pouquinho de água na boca, não dá?

IMPARÁVEL

Workaholic assumida, Bela Gil tem muitas vezes de pôr um travão em si mesma. «Estou sempre a pensar no trabalho», confessa. Tem o programa Bela Cozinha, no GNT, o Canal da Bela no YouTube e lançou três livros: Bela Cozinha – as Receitas, Bela Cozinha 2 (o único editado em Portugal) e Bela Cozinha – Ingredientes do Brasil 3. Além de assinar a carta nos restaurantes Da Bela, em dois hotéis do Rio de Janeiro, também dá palestras e workshops pelo país sobre culinária. Recentemente, a marca de roupa Cantão criou uma coleção muito marcada pelas estampas.

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