Viagem ao universo do bondage e do sadomasoquismo

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A história do bondage e do sadomasoquismo é tão antiga como a humanidade [artigo originalmente publicado em fevereiro de 2015].

Quando num fim de semana de São Valentim estreou a versão cinematográfica de As Cinquenta Sombras de Grey, mergulhámos no universo do bondage e do sadomasoquismo. Hoje, em dia de estreia da sequela – As Cinquenta Sombras Mais Negras – recuperamos esse trabalho, publicado há dois anos. A saga promete recolocar no mapa o imaginário amoroso sadomasoquista. Mas será que livros e filme são um espelho fiel da realidade BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo)? Conheça a origem, as regras – sim, há regras – e os segredos do universo bondage e S&M.

O escritor e provocador militante Oscar Wilde gostava de dizer: «Tudo no mundo é sobre se­xo exceto o próprio sexo. O sexo é sobre po­der.» Numa entrevista concedida há dias à revista Variety, outro britânico, o ator Jamie Dornan, protagonista da aguardadíssima adaptação para cinema do best-seller As Cin­quenta Sombras de Grey, mostrou-se satisfeito por não ter de se exibir em nu frontal pelos ecrãs de todo o mundo. «Uso uma proteção minúscula cor de pele. Quer dizer, minúscula não! Tem de tapar imenso.»

A única coisa minúscula na versão cinematográfica de As Cin­quenta Sombras de Grey é o protetor pélvico de Jamie Dornan. Com perto de 450 mil exemplares vendidos em Portugal (a Lua de Pa­pel lançou a 33.ª edição a 27 de janeiro), a trilogia escrita por E.L. James, uma desconhecida produtora de TV e fanática da saga Cre­púsculo, As Cinquenta Sombras de Grey foi originalmente criada co­mo fan fiction, uma variante das aventuras da inocente Bella e do vampiro Edward e ultrapassou os cem milhões de exemplares à es­cala global. Mantém-se há mais de dois anos no ranking do The New York Times e permanece nos tops em cinquenta países, desde o lan­çamento, em finais de 2011. Com estreia prevista em Portugal pa­ra a próxima quinta-feira, o filme, baseado no primeiro volume da trilogia e dirigido por nova britânica, Sam Taylor-Johnson, com Dornan e Dakota Johnson (a filha de 24 anos de Melanie Griffith e do canastrão Don Johnson) como par principal, aproveita o fim de semana do Dia dos Namorados e promete ser um dos mais vis­tos de 2015, tornando-se assim o primeiro blockbuster dirigido ao público feminino em muitos anos. A longa-metragem guarda uma segunda promessa: reforçar a entrada do BDSM (Bondage, Disci­plina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) no main­stream após a eclosão literária de 2012 – por agora, vai no bom ca­minho: o trailer da fita, com cem milhões de visualizações online na primeira semana, é já o mais visto da história do cinema.

Sendo o BDSM um acrónimo com apenas duas décadas, a histó­ria do bondage e do sadomasoquismo (S&M) é quase tão antiga co­mo a humanidade. Como Oscar Wilde lembraria, é uma história de poder. E nenhuma prática sexual é sinónimo mais indelével de poder do que o BDSM. Mas será As Cinquenta Sombras de Grey um legítimo representante do universo sadomaso?

É verdade que o facto de a trilogia ser escrita com os pés poderá agradar aos fetichistas (abundam as frases do género «a minha deusa interior está a fazer a dança dos sete véus»). E os li­vros provocaram uma explosão na procura de objetos kinky e de brinquedos sexuais S&M, sobretudo nos EUA. Da Good Vibra­tions de São Francisco à Babeland de Nova Iorque, as sex shops e cadeias de produtos eróticos viram as suas vendas crescer entre 40 e 65 por cento nos meses seguintes ao lançamento do primeiro volume. Certos itens – como as algemas ou as gravatas cinzentas, iguais às que o protagonista, o jovem bilionário Chris­tian Grey, utiliza para prender a heroína, Anastasia Steele – es­gotaram em várias zonas do país. As bolas vaginais – também conhecidas como smart balls ou bolas de gueixa –, que Anasta­sia introduz na vagina a dado momento, a conselho de Grey, pa­ra estimular os músculos da zona pélvica e assim melhorar o or­gasmo, têm sido um enorme sucesso: num ano, a Fun Factory, um dos maiores distribuidores do especioso brinquedo, teve de au­mentar a produção em 350 por cento, obrigando a empresa ale­mã que as fabrica a retomar os turnos da noite para corresponder à procura (a firma de lingerie nacional Alalunga, com sede na Rua Jorge Castilho, em Lisboa, oferece uma secção de produtos ofi­ciais As 50 Sombras de Grey e disponibiliza smart balls de silicone por 24,90 euros). As vendas de outros produtos, como chicotes de cores brilhantes ou camisas-de-forças ao estilo Harry Houdini, dispararam mesmo 500 por cento nas vendas, enquanto a Plea­sure Chest, uma cadeia norte-americana de brinquedos sexuais, fez sucesso com o workshop Fifty Shades of Pleasure, em que ensi­na a utilizar os vários objetos lúdicos que dão colorido à trilogia.

Desde o início dos anos 1990 que os romances eróticos, maioritariamente dedicados ao público feminino, vendiam bem, assegurando um público fiel no respetivo nicho (há quem lhes chame «porno para mamãs», consumido por mães de família e donas de casa suburbanas). A diferença decisiva é que As Cinquen­ta Sombras de Grey conseguiu entrar para a cultura pop global, e is­so aconteceu muito graças ao «pacote discreto»: capas sóbrias e elegantes na edição em papel (uma gravata no chiaroscuro ou um par de algemas em fundo deep blue, no lugar dos habituais jovens musculosos prostrados face a trintonas de peito mais do que ge­neroso), suscetíveis de serem folheadas em público; e parte subs­tancial das vendas em e-book, com os Kindles ou iPads a reforça­rem o conforto e o anonimato. Mas será que As Cinquenta Sombras de Grey podem envergonhar quem quer que seja? Ou melhor: tra­duzirão os livros e o filme a realidade dos praticantes de BDSM?

A resposta às duas perguntas parece ser um rotundo «não». Em primeiro lugar, a trilogia (e, por arrasto, a longa-metragem, que foi cortada e retocada de maneira a receber uma classificação etária que permita a entrada a menores, assim aumentando os números de bilheteira) é mais um conto de fadas do que um mer­gulho nos prazeres e perversões S&M. Há 41 cenas de sexo no pri­meiro livro, mas a que chamaria logo a atenção dos BDSMers (as­sim se chamam os adeptos da especialidade), quando Christian Grey pergunta a Anastasia Steele se esta está com o período e, ato contínuo, lhe puxa o fiozinho azul, arrancando-lhe à má fila o tampão da vagina, nunca esteve sequer nos planos de filmagem. As Cinquenta Sombras de Grey é a história do amor tempes­tuoso mas com final idílico (spoiler: o par casa-se, tem filhotes e vive feliz para sempre) entre uma rapariguinha casta até às orelhas – aos 22 anos, é virgem, nunca se masturbou e jamais beijou um homem… – e um jovem charmoso mas de segredos sombrios (es­tão as ver as semelhanças com Crepúsculo)? Portanto: As Cinquen­ta Sombras não passa de uma história da carochinha em adapta­ção soft-core ao imaginário BDSM. A comparação entre a trilogia e os grandes clássicos literários do sadomasoquismo (do precur­sor Fanny Hill, escrito no século xviii, em que a heroína fica devota do sexo anal ao fim de meia dúzia de horas em Londres, ao His­tória de O, de 1954, pela jornalista francesa Anne Desclos, cujas sevícias infligidas à fotógrafa protagonista incluem ferros em brasa e uma educação como escrava sexual de certa matilha de homens num castelo nos arredores de Paris) é o mesmo que co­locar lado a lado o conto da Gata Borralheira e o Justine do Mar­quês de Sade.

De forma paradoxal, há um ponto G em que a comunidade BDSM está de acordo: há uma violência não consentida, um abu­so psicológico, uma ausência de regras no retrato do relaciona­mento sadomasoquista entre Christian Grey e Anastasia Steele que nada tem que ver com a realidade dessas práticas. Os termos do affair entre a estudante universitária virgem e o empresário de Seattle, instruído no bondage pela melhor amiga da mãe, viola os três mandamentos nucleares do BDSM: «Safe, Sane and Consen­sual» («Seguro, São e Consensual»). O amor S&M de Grey e Steele é mais abusivo do que consentido. A National Domestic Violen­ce Hotline dos EUA fez questão de alertar para o facto, chaman­do ao livro «As Cinquenta Sombras de Abuso» e recordando que Grey agride verbalmente Steele em frente a terceiros e exerce violência sexual sem consentimento dela – há um contrato prévio de práticas admissíveis entre ambos, mas que ela demora eterni­dades a assinar, e que ele entretanto viola, controlando todos os movimentos da amada. Ora, os praticantes de bondage e S&M fazem questão de acertar todas as alíneas de um contrato, longa­mente discutido, de atitudes e ações a tomar entre dominador(a) e submisso(a) (também se podem chamar top e bottom).

O mútuo consentimento, o estreitar da confiança e a segurança são pilares da arena BDSM. Entre outros mecanismos prévios, há uma senha de emergência que é utilizada pelo bottom para parar, ou diminuir a intensidade, da sessão. Essa palavra-passe pode ter vários níveis; se for uma cor, por exemplo, o ver­melho será para interromper imediatamente, o amarelo para continuar com precaução e o verde para aferir que tudo perma­nece OK. Ninguém deverá amarrar-se sozinho, convém existir uma folga em relação à pele e é necessário mudar-se de posição a cada 30 minutos para que o corpo não se ressinta. É também exi­gido um cuidadoso período de aprendizagem antes da utilização de «brinquedos» como algemas de dedos, grilhões, camisas-de-forças, coleiras, mordaças, vendas, correntes, chibatas, cadea­dos ou eletroejaculadores (só estes últimos justificariam outro texto). Não se utilizam algemas de metal, antes de couro, para proteger os pulsos. Já as cordas de seda são consideradas pouco seguras – por estranho que pareça, a dor não é o objetivo máximo das sessões sadomasoquistas, mas sim o prazer inerente a todo o ritual. Claro que, como em todos os comportamentos relacio­nados com sexo, há zonas borderline, e existem fãs mais hardcore.

Habituado à visão cavernosa de uma dominatrix de chicote em punho, e do seu escravo preso a uma cruz de Santo André, pron­to a levar com cera a arder no peito bojudo, o espectador curioso do fenómeno S&M ignora que, de acordo com os dados disponí­veis, cerca de metade dos adeptos de BDSM nos países analisados são casais que praticam entre si. Em Portugal, segundo uma das raras análises sociológicas do tema, Comunidade BDSM em Por­tugal: Estudo Exploratório, por Patrícia Pascoal e Rui Henriques, de 2006, 47 por cento do total dos inquiridos são casados, tendo o cônjuge por parceiro. Para o maior organismo dos EUA dedica­do à sexualidade, o Instituto Kinsey, os praticantes de BDSM têm perfis psicológicos iguais aos da restante população, e há uma percentagem crescente de médicos e psiquiatras na comunidade internacional em campanha há mais de uma década para reti­rar o BDSM da classificação dos comportamentos patológicos – o movimento Revise F65, referente às parafilias no manual da Organização Mundial de Saúde –, apelando à revisão do DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Men­tais), que considera o BDSM uma doença. Todos os países nórdi­cos já o fizeram, mas grande parte da Europa Central, a Europa do Sul e os EUA resistem.

Na sua tese de mestrado de 2011, Para Além da Dor: Fantasias de Prazer, Poder e Entrega, Um Estudo sobre BDSM, a psicóloga Ana Mafalda Ventura Mota, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, defende que a grande an­gústia desta comunidade em Portugal não advém de qualquer das suas práticas, mas antes do juízo médico e social sobre elas. A rei­vindicação é ajudada pela presença milenar, e comum, de feti­ches e fantasias S&M em várias áreas fundamentais da história humana, da religião às estruturas militares, da arte à moda.

A flagelação era um elemento importante nos rituais religiosos da antiga Esparta, ligados ao culto da deusa Artemisa, em que os ado­lescentes eram chicoteados em cerimónias orientadas por sacer­dotes, e as privações em estilo bondage ajudavam ao treino militar. A agressão com intuitos eróticos remonta ao Satíricon de Petrónio, no século vi a.C., e cem anos mais tarde existem registos de chicota­das como jogo sexual entre as elites do povo etrusco. No século i a.C., o sexto livro das Sátiras, do poeta romano Décimo Júnio Juvenal, evoca e aprecia comportamentos sadomasoquistas. Alguns dos mais antigos textos escritos, provenientes da Suméria, referem-se a sessões de dominação associadas ao culto da deusa Inanna, a ir­mã do deus-sol Utu. As provações físicas e flagelações atravessam também boa parte dos rituais de passagem à puberdade em cultu­ras tão diversas como as de certas tribos índias da América do Nor­te ou dos nativos de ilhas da Polinésia.

Desde o século xii que se acumulam referências a amantes presos e/ou chicoteados para suscitarem o prazer erótico dos en­volvidos – alguns historiadores consideram o culto de provação e do sofrimento associado ao amor cortês medieval como precur­sor, em forma e substância, do BDSM. Até o ofício de dominatrix remonta ao século xvi, e há gravuras britânicas de flagelação em atmosfera de gozo sexual desde, pelo menos, 1590.

A oriente, tudo pia ainda mais doloroso. O bondage e as fanta­sias S&M estão no coração fetichista de várias culturas orientais. O célebre Kamasutra, a obra-prima erótica da literatura sânscrita, criada pelo filósofo indiano Vatsiaiana no século iv a.C., refere o pra­zer de quatro tipos de agressões durante o sexo, descrevendo as zo­nas do corpo mais apropriadas para tais «pancadinhas de amor», regras de segurança incluídas (tal como os códigos de conduta do BDSM contemporâneo). O Ananga Ranga – ou Barco no Mar do Amor –, um tratado hindu sobre sexualidade, compilado nos séculos xv e xvi, destina-se aos casais que queiram preservar o seu amor com anima­ção e variedade q. b. no leito, evitando assim aborrecimentos como o adultério (o livro foi traduzido para inglês no século xix pelo explo­rador britânico Richard Burton, mas a mulher deste, talvez não con­cordando com o arrojo da tradução, queimou-o). Para tanto, entre os dez capítulos enunciados, destaca-se um sobre «prazeres exter­nos que precedem o prazer interno: abraços, beijos, rasgões, mordi­delas, puxões de cabelo, nalgadas, etc.». No Japão, o bondage é uma verdadeira instituição nacional desde finais do século xix. A moda­lidade pratica-se com cordas de juta, cânhamo ou linho e chama-se kinbaku («amarração firme»). O pintor Seiu Ito, nascido em Tóquio em 1882, apreciador do teatro kabuki (de onde a imobilidade por cor­das terá extraído parte do cenário ritualista) e estudioso das tortu­ras praticadas durante o período Edo, entre 1603 e 1868, foi o mais re­putado entre os seus difusores modernos.

Já em meados do século xx, o kinbaku foi ganhando adeptos na moda e na arte contemporâneas, alastrando-se aos manga e anime (os desenhos animados e BD nipónicos). Um dos seus maiores representantes é hoje o fotógrafo Nobuyoshi Araki, com trabalho presente na Tate britânica e no Museu de Arte Con­temporânea de São Francisco, ele que já fotografou Bjork ou Lady Gaga (Madonna também é fã, basta rever Erotica ou algumas das tournées da cantora). A família BDSM nacional pode ficar orgu­lhosa do seu papel involuntário no kinbaku: o nó lais de guia por­tuguês, utilizado no resgate de náufragos, é uma das estrelas da arte japonesa de amarrar com requinte.

Apesar de tantas tradições e heranças, o BDSM continua a lu­tar para fugir do gueto sexual, social e psiquiátrico em que per­manece. Tanto em Portugal como à escala planetária, as esparsas investigações e sondagens sugerem um clube pequeno de baixa frequência. Num inquérito patrocinado pela Playboy em 1983, con­cluiu-se que entre 5 e 10 por cento dos norte-americanos se terão envolvido ocasionalmente em atos sexuais relacionados com o BDSM. Uma década mais tarde, o Janus Report on Sexual Behavior inquiriu três mil cidadãos dos EUA, constatando que 14 por cento dos homens e 11 por cento das mulheres já tinham experimentado práticas sadomasoquistas. Porém, num estudo do ano passado so­bre a frequência de busca na internet do acrónimo BDSM, verifi­cou-se que o termo é raramente procurado, com os austríacos (1,87 por cento) e os alemães (1,67 por cento) no topo da lista – os portu­gueses surgiam mesmo ao fundo da tabela, com 0,36 por cento.

No maior inquérito sobre sexualidade realizado neste século em Portugal, levado a cabo pela GfK em parceria com o jornal Ex­presso, o universo BDSM quase não é abordado (o facto de Dia­na Chaves ser a figura pública mais erótica para os inquiridos de­monstra bem as tendências e os gostos da amostra). Ainda assim, é possível saber-se que 65,6 por cento dos portugueses nunca vi­sitou sequer uma sex shop, 83,4 por cento das mulheres nunca se masturbaram à frente do seu parceiro (contra 65,9 por cento dos homens) e apenas 12,3 por cento das mulheres (e 7,4 por cento dos homens) possuem um brinquedo sexual. Mais: 63,4 por cen­to do total nunca viu pornografia. Dos que já viram, apenas 1,5 por cento confessou ter assistido a sexo sadomasoquista. Quan­to aos praticantes, o cenário é ainda mais desértico: 0,3 por cen­to dos inquiridos e inquiridas. Existe, porém, uma leve esperan­ça para o BDSM local: 4,1 por cento «nunca experimentou mas quer fazê-lo».

Mesmo nas práticas S&M, os portugueses são prudentes e con­servadores. Segundo a investigação de Patrícia Pascoal e Rui Henriques já citada, 82 por cento das nossas actividades de bon­dage, disciplina e sadomasoquismo é feita em casa, com apenas 6 por cento em hotéis, clubes e festas. 71 por cento dos BDSMers portugueses são heterossexuais de nível económico médio-alto, com habilitações superiores mas, de acordo com a te­se de mestrado Para Além da Dor, da psicóloga Ana Mafalda Ven­tura Mota, isso não dispensou o clássico instinto luso das «capeli­nhas»: «Há imensas guerras, o que a torna uma comunidade fragmentada, com pequenos grupos a disputar popularidade.»

Para os adeptos do BDSM, os que nunca praticaram bondage ou domínio/submissão são classificados de «baunilha». Ironica­mente, talvez o filme de As Cinquenta Sombras de Grey, a versão baunilha do seu mundo e palavra-passe do BDSM rumo ao main­stream, lhes permita festejar o Dia dos Namorados de 2016 de chi­cote em punho em qualquer espaço público do país.

 

FESTA!
Ao contrário das aparências, as grandes festas e clubes mundiais de BDSM abundam. Há para todos os gostos perversos e inclinações dúbias.

O Club Anti Christ, em Londres, é o maior da onda fetichista na capital inglesa. Tem várias pistas de dança, calabouços, salas para casais e livre distribuição de preservativos e lenços de papel. Mais célebre entre as casas londrinas especializa­das em fetiches, o Torture Garden tem fama mundial com os seus espetáculos. Por lá já passaram a rainha contemporânea do burles­co S&M, Dita von Teese, e voyeurs como Jean-Paul Gautier ou Boy George.

O Festival of Sins, em Cam­den, um distrito do centro-norte de Londres, é uma entrada recente no léxico da especialidade. Trata-se de um bom clube para iniciados, dos que receiam masmorras e nudez frontal, sem a obrigatoriedade do látex como dress code.

O The Green Door de Las Vegas, considerado o maior clube de swing dos EUA, tem uma sala só para exibicio­nistas e voyeurs, a Shadow Box, e zonas temáticas com nomes significativos como Pussy Whipped Dungeon. Em Nova Iorque, as spanking parties do Paddles, um clu­be BDSM muito popular, são «obrigatórias» (realizam-se no primeiro sábado de cada mês e incluem um «leilão de escravos»). O Folsom Street Fair de São Francisco é o mais reputado festival kinky do mundo, atraindo 400 mil visitantes todos os anos, em setembro (tem uma forte componente gay).

Paris, se bem que ofereça como especialidade os clu­bes privados de sexo (Domi­nique Strauss-Kahn, diretor do FMI que se demitiu na sequência de um escândalo sexual, era habitué de um deles, o Les Chandelles) e os clubs échangistes (as casas de troca de casais, são mais de 400), permite uma visita ao Keller’s Club, na Bastilha; mas atenção: trata-se de um hard cruising club, de registo gay extremo.

Em Portugal, as festas BDSM mais populares são as The Gathering Parties.