Nos bastidores das Nações Unidas

ONU, Nova Iorque

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A residência oficial do Secretário-Geral, a coleção de arte, o edifício de Le Corbusier e Niemeyer, os filmes e as séries rodadas no centro da diplomacia mundial, os discursos que mudaram a história. Uma geografia, de cimento e sonho, da nova morada de António Guterres.

A CASA
A partir de 1 de janeiro, António Guterres viverá na residência oficial do secretário-geral da ONU, um edifício de cinco andares e cerca de 1300 metros quadrados avaliado entre 49 e 52 milhões de dólares (46 a 49 milhões de euros). A casa fica no número três de Sutton Place, na esquina com a Rua 57, cerca de dez minutos a pé até à sede da organização.

O edifício foi renovado recentemente, um projeto que custou cinco milhões de dólares e que inclui, por exemplo, um novo sistema de aquecimento, ar condicionado e uma cozinha onde podem ser preparados os jantares protocolares em que Guterres terá de ser o anfitrião. A casa, com vista para o East River e um jardim que se estende até à margem do rio, foi construída pela filha do banqueiro J. P. Morgan em 1921, quando parte das elites de Nova Iorque deixaram a Quinta Avenida e transformam os dois blocos de Sutton Place numa das moradas mais exclusivas da cidade.

Décadas mais tarde, foi oferecida à ONU e desde 1971, ano em que o austríaco Kurt Waldheim se mudou para lá, que é a residência oficial do mais importante diplomata do mundo.

OS RESTAURANTES
A sede tem sete cantinas – a principal, no primeiro piso, senta centenas de pessoas e tem comida de todo o mundo –, mas muitos funcionários usam os restaurantes ao peso na rua para almoçar. Os embaixadores, quando têm uma reunião importante, optam pelo Cipriani, um restaurante italiano, o Alcala, de comida espanhola, ou o The Palm, uma casa especializada em bifes.

A SEDE
Com a torre de 39 andares e um longo edifício central com cúpula, a sede é produto da colaboração do suíço-francês Le Corbusier com o brasileiro Oscar Niemeyer. Ambos enviaram projetos para o concurso internacional lançado pela organização e as ideias dos dois foram depois reunidas num desenho final.

A organização chegou a imaginar a construção de uma nova cidade para acolher a sede e houve quem propusesse a instalação num navio gigante em alto-mar, mas os planos foram abandonados devido aos custos. Várias cidades mundiais esperaram acolher a sede da nova organização, mas Nova Iorque acabou por ser ganhar, depois de John D. Rockefeller, Jr., filho do magnata do petróleo, doar os fundos necessários para a compra do terreno junto ao East River, que até então acolhia um matadouro.

A construção decorreu de 1948 a 1952 e nesses anos as principais reuniões aconteceram em cidades como Paris e Londres. A sede foi renovada a tempo do 70.º aniversário da ONU, em 2016, um projeto que custou dois mil milhões de euros.

NA MEMÓRIA POPULAR
Uma organização como a ONU, utópica na sua inspiração e propósito, sempre estimulou a imaginação popular. Logo depois da inauguração da sede, em 1952, o espaço acolheu as rodagens do filme The Glass Wall, de Maxwell Shane.

Cinco anos mais tarde, Alfred Hitchcock não obteve autorização para lá filmar Intriga Internacional. A cena em que se vê Cary Grant a aproximar-se da entrada foi capturada por uma câmara oculta e as cenas de interiores tiveram cenários e efeitos especiais. O filme de James Bond Vive e Deixa Morrer, o primeiro com Roger Moore no papel de 007, abre com uma cena em que um embaixador é assassinado dentro do edifício-sede da ONU.

Mais recentemente, Nicole Kidman foi protagonista de dois filmes rodados na organização: O Pacificador, com George Clooney, em 1997, e A Intérprete, de 2005, em que a personagem da atriz, uma tradutora, ouve inadvertidamente o plano para eliminar um ditador africano. A oitava temporada de 24 (com Kiefer Sutherland), quando terroristas planeiam assassinar um chefe-de-estado do Médio Oriente que se prepara para assinar um acordo histórico com o presidente dos Estados Unidos, foi ali filmada.

UM PAÍS À PARTE
A sede da ONU, bem como os escritórios em Genebra, Viena e Nairobi, é considerada uma zona «extraterritorial», o que significa que muito do que se passa no seu interior responde a leis diferentes do país que a acolhe. O edifício tem as suas próprias forças de segurança, corpo de bombeiros e até um posto de correios com uma coleção de selos, podendo os visitantes mandar cartas com remetente «United Nations».

O Delegates Lounge é um dos poucos locais nos Estados Unidos em que um jovem com mais de 18 anos e menos de 21 pode legalmente beber uma bebida com álcool. Os trabalhadores da organização também estão isentos de pagar impostos sobre o seu salário.

Muitos dos funcionários gozam de imunidade diplomática. Em 2005, o secretário-geral Kofi Annan levantou a imunidade a Benon Sevan, Aleksandr Yakovlev e Vladimir Kuznetsov, num escândalo de desvio de fundos relacionado com o programa Petróleo por Comida. Sevan acabou por fugir para o Chipre, mas Yakovlev e Kuznetsov foram julgados por corrupção e lavagem de dinheiro.

O BAIRRO
Acolher a sede da ONU, segundo um estudo da Câmara de Nova Iorque, tem um impacto económico anual de 3,5 mil milhões de euros na cidade – o mesmo valor que a EDP estima atingir em volume de negócios neste ano. São 25 mil postos de trabalho, diretos e indiretos, e dezenas de milhares de visitantes que participam em reuniões e cimeiras durante todo o ano.

Toda esta atividade alimenta hotéis, restaurantes e condomínios. Nas ruas junto à sede da organização, o que mais se destaca é a quantidade de sapateiros e lavandarias: ninguém quer que uma nódoa na camisa ou um sapato por engraxar estrague a reunião de uma vida.

As 16 mil pessoas que a ONU emprega diretamente vivem sobretudo em Tudor City, um grande empreendimento do início do século XX que foi o primeiro arranha-céus residencial do mundo, ou em Murray Hill, conhecido pela comunidade indiana. A maioria dos embaixadores vive em Midtown East ou em Upper East Side, como o embaixador português Álvaro Mendonça e Moura.

A SALA DA ASSEMBLEIA-GERAL
É nesta sala que os representantes dos 193 Estados membros se reúnem para tomar as decisões mais importantes e que os chefes de Estado discursam no encontro anual da organização, que acontece todos os meses no final do verão. Foi aqui que Guterres foi confirmado como secretário-geral e que prestou juramento sob a Carta das Nações Unidas.

Para sublinhar o caráter internacional do organismo, o espaço não inclui nenhuma peça de arte oferecida por um país. Tem dois murais abstratos do artista Fernand Leger, oferecidos por um anónimo, e que o presidente americano Harry S. Truman disse não compreender. «Parecem-me ovos mexidos», disse, em 1952.

O púlpito onde são feitos os discursos, construído com serpentinite italiana do Vale de Aosta, também já foi criticado. «Os azulejos baratos de mármore na ONU sempre me aborreceram. Posso substituir por grandes, lindas peças de mármore se me pedirem», escreveu no Twitter, em 2012, Donald J. Trump.

A sala foi ampliada nos anos 1980 para acolher os novos países membros (na altura da fundação eram apenas 51) e hoje pode receber 1800 pessoas. O ponto central é um painel de folha de ouro, com 23 metros de altura, recentemente substituído devido a danos causados por várias décadas em que foi permitido fumar no espaço.

De todas as salas onde se realizam encontros no edifício, esta é a única com símbolo da organização: um mapa do mundo, visto a partir do Polo Norte, enquadrado por ramos de oliveira.

A ARTE
A ONU acolhe uma extensa coleção de arte, doada pelos países membros, que pode ser admirada por todos os visitantes. Na rua, o revólver gigante, de bronze, atado num nó, foi feito a pedido de Yoko Ono, depois da morte de John Lennon, por um amigo do casal, o sueco Carl Fredrik Reuterswärd.

No jardim, além de uma parte do Muro de Berlim, encontra-se o sino da paz do Japão, que foi oferecido em 1952, quando o país ainda não era membro da ONU, e que é apenas tocado duas vezes ao ano: no equinócio de inverno e no início da reunião anual da Assembleia Geral, cerimónia presidida pelo secretário-geral.

À entrada do edifício, há a parede com os retratos dos oito homens que lideraram a organização, tapeçarias de seda «oferecidas pela República Islâmica do Irão» – o país já está a preparar o de António Guterres.

No interior, há um vitral oferecido por Marc Chagall, dois quadros do brasileiro Candido Portinari intitulados Guerra e Paz, com 10 por 14 metros, e o mosaico Regra de Ouro, oferecido pelos EUA no 40.º aniversário da ONU baseado num quadro de Norman Rockwell.

À entrada da Sala de Jantar dos Delegados, onde o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa organizou na semana passada uma recepção de homenagem a António Guterres depois do seu juramento, há um painel de azulejos que representa Lisboa no século XVI, da autoria de Susana Bretes, que foi oferecido por Portugal em 1996.


OS MOMENTOS HISTÓRICOS

Em 1960, Fidel Castro fez o segundo discurso mais longo na organização (com quatro horas e 29 minutos, atrás do discurso de oito horas do indiano Krishna Menon, que colapsou a meio e terminou a intervenção monitorizado por um médico). O cubano atacou o «governo imperialista» dos EUA, chamou ao presidente John F. Kennedy «um analfabeto e ignorante milionário» e queixou-se do «degradante e humilhante tratamento» que teve em Nova Iorque, incluindo ser expulso do hotel.

Em 1960, o primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev usou o seu sapato, durante um debate, para bater na mesa em protesto contra as acusações de que os países da Europa de Leste não tinham liberdade sob o domínio soviético.

Yasser Arafat, enquanto líder da Organização para a Libertação da Palestina, tornou-se em 1972 o primeiro representante de uma organização externa a discursar na Assembleia Geral. «Vim hoje trazer um ramo de oliveira e a arma de um combatente da liberdade. Não deixem que o ramo de oliveira caia da minha mão», disse aos Estados membros.

O venezuelano Hugo Chávez chamou o americano George W. Bush de «diabo» e o líder líbio Muammar Kadhafi, num discurso em 2009, disse que não reconhecia o documento fundador da ONU – e rasgou a Carta das Nações Unidas.

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