Catarina Pires Catarina Pires

As mulheres não têm tomates

Há uns dias, a caminho de casa, o rádio do carro anunciava a descoberta de sete novos planetas mais ou menos do tamanho do nosso, em órbita de uma estrela vizinha, a uns meros 40 anos-luz da Terra, e que poderão ter água e vida e temperaturas a que o ser humano sobreviveria. Simples cogitações, não há ainda como saber, mas lá atrás, a Rita e o João já faziam a festa. «Mãe, qualquer dia, podemos viajar para estes planetas.» Não são bebés. Têm 10 e 12 anos. O meu «claro que sim», que se pretendia efusivo, saiu angustiado. A noção de que talvez o tempo das nossas vidas não chegue para isso assombrou-me. Mas para eles tudo é possível. E isso é tão bom. E tão necessário.

Para Ida B. Wells também não terão existido impossíveis, apesar dos muros erguidos pelo mundo em que nasceu. Esta mulher – que conheci pelo The New York Times, através de um artigo que recordava o dia de 1895 em que o seu casamento foi notícia na primeira página daquele jornal – não pertencia a uma família branca da alta sociedade norte-americana. Era negra, os seus pais tinham sido escravos e só um ano depois do seu nascimento foi abolida a escravatura nos EUA, por Abraham Lincoln, em 1863. Mas o seu casamento, aos 33 anos, com o advogado Ferdinand Lee Barnett, teve honras de primeira página. Porquê? Porque Ida ultrapassou os limites.

Ao descobri-la, senti aquele formigueiro que sinto sempre perante histórias de gente de coragem que desafia o sistema, o poder e a injustiça. Nos finais do século XIX, numa sociedade em que os negros e as mulheres eram tidos, e tratados, como inferiores, uma mulher, negra, Ida B. Wells, estudou, fez-se professora e jornalista, lutou pelos direitos das mulheres e pelos direitos civis – trinta anos antes do nascimento de Rosa Parks, recusou-se a dar o seu lugar no comboio, foi expulsa, levou a companhia de caminhos de ferro a tribunal, perdeu, ganhou, voltou a perder, mas não se calou – e fez da denúncia dos linchamentos de que muitos negros eram vítimas a sua causa, em reportagens, conferências, livros. Tentaram calá-la. Não conseguiram.

O mundo evoluiu – evolui – graças às mulheres e homens de coragem, que lutaram e lutam. Todos os dias. Onde e quando é preciso. Mas terá evoluído o suficiente? Daqui a três dias assinala-se o Dia Internacional da Mulher. O facto de ainda ser preciso assinalá-lo, não apenas como celebração das conquistas, mas também como chamada de atenção para o que, apesar destas, ainda está por conquistar, é sinal de que não. Pior. Talvez esteja a regredir. O país de Ida B. Wells é apenas um dos maus exemplos: cento e vinte e tal anos depois dela, tem um presidente que ergue muros, coarta liberdades e incita o racismo e o machismo, perante a incredulidade de uns e a bonomia de outros.

No dia 8 de março, por favor, não ofereçam flores. Ofereçam luta, ofereçam educação, ofereçam legislação, ofereçam liberdade, ofereçam democracia, ofereçam justiça, ofereçam igualdade de oportunidades, façam o que for preciso para tornar efetiva a igualdade entre homens e mulheres, ainda antes de conseguirmos chegar a um dos novos sete planetas. E contem comigo para isso.

De caminho, outro favor: não voltem a usar como elogio a expressão «é uma mulher de tomates». Por tomates entenda-se testículos. As mulheres não têm. É da anatomia. E, no entanto, é comum dizer-se de uma mulher com coragem, determinação, força, que tem tomates. Não tem. Tem coragem, determinação, força. Os homens, por seu lado, têm todos tomates, mas só alguns é que têm o resto. Talvez já fosse tempo de atualizarmos também as metáforas.

[Publicado na edição em papel da Notícias Magazine de 5 de março de 2017]