OPINIÃO

As incríveis imagens do veterinário que fotografa as gentes do campo

Jorge Bacelar é veterinário e fotógrafo amador. Tira retratos que parecem pinturas a agricultores em cozinhas e currais, fotografias com rugas e mãos de trabalho, animais do campo, frutos da terra. As imagens do doutor da Murtosa que quer enaltecer as suas gentes já ganharam vários prémios pelo mundo.

Texto Sara Dias Oliveira

A panela está ao lume numa fogueira e o fumo enche a pequena cozinha de paredes pretas, móvel antigo de madeira ao canto, mesa frente à janela, chão de cimento. É sábado, ainda não são dez da manhã, e Silvina Oliveira, 66 anos, prepara a sopa. Jorge Bacelar, o veterinário dos seus animais, chega. Desta vez não veio tratar do gado que ela ainda tem.

É fim de semana e ele não traz a mala de médico. Traz uma câmara fotográfica Sony A7 comprada em segunda mão por 700 euros. Ao fim de semana, o veterinário Jorge Bacelar transforma­‑se em fotógrafo e apanha com a câmara os agricultores de cujos bichos trata e que conhece há mais de vinte anos dos campos da Murtosa e de Estarreja.

Talvez seja essa relação longínqua e cumplicidade que proporciona a naturalidade dos retratos que tira, quase pinturas, de gente de mãos inchadas de trabalho, unhas pretas, rugas que vincam as peles, rostos queimados pelo sol. E vacas, cabras, galinhas, perus, cães, gatos.

Jorge Bacelar com Manuel Tavares, o Manel «Chupeta», em Salreu, Estarreja.

«O doutor tem jeito para isto», diz Silvina enquanto descasca batatas e Jorge Bacelar lhe tira fotografias, estudando a luz, acompanhando­‑lhe os gestos. Os olhos azuis de Silvina entram pela máquina. «No início, achei um bocado estranho o doutor querer tirar fotos, mas é um trabalho bem feito.»

Silvina está de galochas até aos joelhos, casaco por cima de uma bata. Não tem fotografias antigas, nem sequer do seu casamento, mas agora faz poses para imagens que correm o mundo.

Um retrato dela, tirado na sua cozinha com uma galinha poedeira ao colo, ganhou um prémio internacional. Silvina ri­‑se quando se fala nessa imagem. Meio envergonhada, meio orgulhosa. No momento do clique, quase não respira. Cumpre as indicações do fotógrafo ali tão perto. Jorge mostra­‑lhe as imagens, pergunta­‑lhe se gosta. E ela, envergonhada, diz­‑lhe que sim.

Não sabe ler nem escrever – «era muito pequena e já cortava junco à gadanha», recorda. Mas sabe o que é uma boa fotografia.

A filha vem espreitar a sessão fotográfica. O veterinário está sentado no cimento da cozinha à procura de outro ângulo. Maria, os filhos, o irmão, o pai e a mãe têm retratos dele. «O doutor não faz fotografias, faz pinturas. É mágica, as fotos têm vida.»

Jorge Bacelar tem 51 anos. Vive na Torreira, Murtosa, com vista para a ria de Aveiro. Nasceu com 7 meses, em Figueira de Castelo Rodrigo, onde o pai, juiz, estava colocado nessa altura. Estudou Veterinária na Universidade de Trás­‑os­‑Montes e Alto Douro, em Vila Real, estagiou seis meses no departamento de cirurgia da Universidade de Saragoça, em Espanha, e a atividade profissional levou­‑o até à Murtosa. Primeiro na cooperativa agrícola local, até fechar, e há oito anos como veterinário na Proleite, em Oliveira de Azeméis.


Foi na ria de Aveiro que nasceu a paixão pela imagem. E pelo vídeo. Fazia filmes­‑entrevistas com os pescadores, agricultores, moliceiros e mariscadores da ria para o Ribeirinhas TV, um canal da região.

«Acordava cedinho, sentava­‑me na beira da ria, filmava e ia para casa editar o vídeo.» Um dia, o fotógrafo António Tedim, da Maia, chegou para fotografar a apanha de junco para os moliceiros.

O veterinário pediu para ir com ele. E aí nasceu a paixão que já não o largou. Comprou uma Sony A7 com uma das lentes mais baratas do mercado. Foi a sua primeira máquina fotográfica, antes de avariar, há ano e meio, e de ser substituída por outra em segunda mão.

Não tem qualquer formação em fotografia, apesar dos prémios internacionais (ver caixa) e dos convites para participar em exposições e conferências. «É tudo intuitivo, tenho noções de composição, fui sentindo e fui aprendendo.»

Foi estudando e percebendo as perspetivas que lhe despertavam mais curiosidade. Afinando aqui e acolá e com a perceção de que a sua fotografia é única. «A minha fotografia é um jogo de luz. E a luz funciona como uma torneira de água.» Apesar de parecerem pinturas, não há retoques nas imagens. Nem tratamentos. São como são. Tira, elimina as que não estão bem, guarda as melhores.

«Se começamos a mexer, estouramos a foto. A lente pode ajudar, mas o nosso olhar é o mais importante. As nossas lentes são os nossos pés, a proximidade, a relação que temos com as pessoas», diz.

Em 2013, fez a primeira exposição individual que ainda hoje está na Junta de Freguesia de Veiros, em Estarreja. Chama­‑se Identidade e tem fotos a preto e branco das gentes da terra. Entre março e maio, Jorge esteve na Casa da Cultura de Estarreja com a exposição A Nossa Gente.

O dia de inauguração não mais sairá da sua cabeça: muitos dos seus modelos estiveram presentes. «Foi como se as minhas gentes saíssem das fotos e caminhassem por ali.»

Essa gente a quem de semana trata dos bichos e ao fim de semana é modelo da sua máquina comprada em segunda mão. Essa gente amiga que já faz parte da sua família. Carro na estrada, curvas e contracurvas, um beco sem saída, só passa um carro, aí vai Jorge para mais uma sessão. Estaciona o carro e volta a tirar a máquina fotográfica. Maria de Lurdes Garrido, 76 anos, espera­‑o.

Dali a pouco estará no curral junto à sua toura de seis meses e logo a seguir com um peru ao colo perto de uma janela de uma velha cozinha que já não usa. Acha piada às sessões de fotografias do médico dos animais. No final, sacode as costas do veterinário que se sujou ao encostar­‑se às paredes.

«A minha fotografia é um jogo
de luz. E a luz funciona como uma torneira de água.» Apesar de parecerem pinturas,
não há retoques nas imagens. Nem tratamentos. São como são. Tira, elimina as que não estão bem, guarda as melhores.

Maria de Lurdes e o marido António Augusto têm muitos animais em casa, vacas, codornizes, pombos, vitelos, cães. A Ti Lurdes, como lhe chamam, tem uma vida de trabalho nas costas. Apesar de tudo, é senhora de sorriso fácil e já está habituada a posar para as fotografias do veterinário. «Chega­‑te um bocado mais para cá por causa da luz», pede­‑lhe o médico, num tutear que mostra proximidade.

Jorge Bacelar não esconde o orgulho dessas relações de confiança e as suas fotografias têm um objetivo. «Eu quero enaltecer as minhas gentes. Esta gente trabalha do nascer ao pôr do Sol e não tem o devido reconhecimento. O corpo é castigado de manhã à noite com o trabalho.» O que sai da sua máquina é uma forma de homenagem. E Ti Lurdes jamais esquecerá aquele dia em que o veterinário Jorge atendeu o seu telefonema às duas da manhã e se pôs­ a caminho.«Veio partejar uma vaca, é um trabalho que eu fazia, mas na altura não consegui fazer sozinha.»

O médico voltou nesse dia, à tarde, para ver se estava tudo bem. «A partir daí, ficámos amigos, fiquei­‑lhe muito grata.» Algum tempo depois, entrava nos retratos do senhor doutor.
Os retratos só são possíveis graças à relação de confiança e amizade que foi construindo ao longo de mais de vinte anos de profissão.

«Sou um médico mas sentem­‑me como amigo, quase de família. Se me veem em tronco nu ou no meio da bosta a fazer um parto, veem­‑me como um deles. Deixam­‑me fotografar porque gostam de me ver feliz. E a fotografia é um ato de amor.»

Ver fotografias dessa gente do campo em concursos internacionais, ao lado de grandes nomes da arte, em exposições, em galerias, enche­‑lhe a alma. Os retratos não têm títulos nem nomes, mas contam histórias.

«Gosto que sejam as pessoas a imaginar uma história à volta das fotografias.» Liberdade para imaginar. «As fotografias são tiradas dentro de portas, de paredes, mas esta gente, estas mãos, estas caras, existem.»

Entre os melhores do mundo

Jorge Bacelar fotografa há apenas quatro anos, mas as suas imagens têm corrido mundo, premiadas em competições internacionais. Em setembro do próximo ano irá à China receber um prémio do The Humanity Photo Awards 2017, promovido pela UNESCO, na categoria de Retratos e Costumes, onde estarão sete finalistas – seis receberão o prémio de documentário, um, o grande prémio (só na China, o veterinário saberá a distinção que trará para casa). Concorreu com 14 imagens nesta competição onde foram apresentados mais de oito mil trabalhos de 123 países. Em 2014 venceu o concurso da campanha «Juntos contra a Fome!» da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e da Agência das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. No ano seguinte recebeu um prémio da UNESCO no Nomination Award HPA. Em 2016 integrou a equipa portuguesa no World Photographic Cup e trouxe uma medalha de bronze na categoria de Reportagem. Nesse ano, recebeu mais três prémios no concurso Fotógrafo Europeu do Ano e foi selecionado como finalista no Hamdan International Photography Award, patrocinado pelo príncipe do Dubai. Em maio do ano passado, foi vencedor europeu na OIE Photo Competition. Em outubro, chegou mais uma distinção no concurso de Siena, Itália, sendo o único português premiado entre candidatos de mais de cem países. Neste verão conquistou o primeiro prémio no concurso Transversalidades: Fotografia sem Fronteiras 2017, do Centro de Estudos Ibéricos, com seis imagens das suas gentes.

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