OPINIÃO

No Porto, há uma escovaria que produz como há cem anos

Na Rua de Belomonte, no centro histórico do Porto, há noventa anos que se fazem escovas à mão. É o único sÍtio em Portugal onde ainda se fazem. Na loja-oficina de Rui Rodrigues há peças únicas com crina de cavalo, pelo de cabra, cerda de porco, fibra de cato mexicano. Escovas para lavar queijos, cogumelos, fruta, para dar brilho ao ouro, aos sapatos, à roupa, Coça-gatos, escovilhões, escovas industriais. A herança é respeitada à letra mas a modernidade já ali entrou para espevitar o negócio.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografias Pedro Granadeiro/Global Imagens

A Escovaria de Belomonte, na porta 34 da Rua de Belomonte, no Porto, acima do Douro e a dois passos da Ribeira, fabrica escovas à maneira tradicional: à mão, com agulha que cose com linha pequenos montes de pelo em buracos cravados na madeira e no metal. São pelos de cabra e de javali, de crina e rabo-­­de-cavalo, cerda de porco e uma fibra que sai de dentro de um cato mexicano e que é utilizada para escovas de lavar louça e de polir a cera dos móveis. A matéria-prima é importada. Os pelos saem da Europa, vão para a China para serem tratados e depois espalham-se pelos clientes em várias partes do mundo.

Rui Rodrigues é um deles. Recebe os pelos na pequena e antiga escovaria e trabalha-os à mão. São escovas para limpar sapatos e roupa, para lavar queijos, cogumelos e fruta, para dar brilho ao ouro, para maquinaria da indústria do calçado, do têxtil, da madeira, da fundição. Escovas para o banho, escovas esfoliantes e coça-gatos com pelo em arco para os bichos se roçarem e deixarem cair a penugem que não interessa. Vassouras só se fazem por encomenda com indicações precisas, ao gosto do cliente, com preços que podem chegar aos oitenta euros.

Rui sabe o peso da responsabilidade, a herança que nasceu com o avô da sua mulher, António da Silva, que começou a fazer vassouras em Massarelos, no Porto, logo que acabou a quarta classe. Fazia-as em casa e vendia-as aos vizinhos. Em 1950, mudou-se para a pequena Rua de Belomonte, onde permanece a loja-oficina, junto ao Largo de São Domingos, 33 metros quadrados com chão de cimento, maquinaria antiga, paredes que perdem tinta aqui e acolá.

Rui Rodrigues tem uma certeza e uma dúvida. «Tenho a certeza que somos a única escovaria em Portugal a trabalhar de forma manual. Dizem que somos também a única na Península Ibérica, mas não sei se é verdade.»

O comerciante de 52 anos tem uma certeza e uma dúvida. «Tenho a certeza que somos a única escovaria em Portugal a trabalhar de forma manual, a encher as escovas à mão. Dizem que somos também a única na Península Ibérica, mas não sei se é verdade.» A dúvida não lhe tira o sono. Recentemente a escovaria entrou no grupo das 37 lojas históricas protegidas pela Câmara do Porto. O proprietário espera vê-la estampada nos mapas turísticos da cidade.

Rui molda pedaços de madeira, separa montes de pelo, atende telefonemas, anota numa folha o que tem de ser feito, organiza encomendas. «Compramos o material, cortamo-lo, damos-lhe uma forma.» Utiliza sempre o plural para falar do negócio de família que tem exatamente noventa anos e que já vai na terceira geração, a passar para a quarta. Com respeito pelo passado, mas com os olhos postos no futuro, atento ao mercado. Há uma inversão em marcha para tentar fabricar mais escovas de uso pessoal e doméstico, e não tanto escovas para máquinas industriais. «Queremos vender escovas mais elaboradas, com muita qualidade, para fora.»

O Facebook e o Instagram tornaram-se ferramentas usadas frequentemente pelo único filho, que há quatro anos decidiu fazer um interregno nos estudos depois de terminar um curso técnico de Design no secundário e inteirar-se do negócio. Ali ficou.

Captar o público mais jovem é uma das estratégias de Sérgio, o filho, e daí a presença nas redes sociais. «Gostávamos de pôr a escovaria a trabalhar ao lado de grandes marcas de roupa.»

Quando era miúdo, Sérgio, 24 anos, brincava na escovaria do avô Fernando Silva, filho de António Silva que entretanto tomara conta do negócio. Da madeira, o avô fazia-lhe espadas. E, de vez em quando, tinha de ser refreado para não distrair os funcionários, no tempo em que ali trabalhavam cinco pessoas. «Tenho muitas ideias, agora preciso concretizá-las.»

É ele que atende turistas estrangeiros em inglês e também enche escovas à mão. «Vim ajudar o meu pai, comecei a gostar da arte e da organização da empresa e da marca. Trato da imagem, da publicidade, idealizo as escovas, mas também as sei encher. O meu pai chegou com as suas ideias frescas e vamos subindo. Quero dar o salto com ele.»

Captar o público mais jovem é uma das suas estratégias e, por isso, a presença nas redes sociais. «Gostávamos de pôr a escovaria a trabalhar ao lado de grandes marcas de roupa.» Sérgio sonha alto, com Louis Vuitton ou Givenchy. «Temos de ir ao encontro deles, a Paris, a Milão, apresentar o nosso produto.» Um catálogo com os objetos da escovaria também faz parte dos planos. «É um orgulho ver a nossa marca crescer, quanto maior a marca, melhor. Ainda não chegámos onde queríamos, mas havemos de lá chegar.»

A ligação entre o antigo e o moderno é evidente na loja-oficina. À entrada, alguns produtos estão expostos numa mesa de pedra de mármore e num armário de madeira.

As escovas nunca foram feitas de outra forma, sempre à mão. Agora por três pessoas. Rui, o filho e Fátima Fonseca – e em junho e julho por Luís Guedes, estagiário do Instituto das Arte e da Imagem de Vila Nova de Gaia, com o 9º ano acabadinho de fazer, e que ali estava a encher escovas para máquinas têxteis. Ninguém está parado. «Todos fazemos um bocadinho de tudo», diz Rui.

Fátima Fonseca conhece os cantos à casa, entrou ali com 16 anos, leva 39 anos com o primeiro e único emprego da vida. Está tudo na sua cabeça: o mês em que Rui tomou conta do negócio, o ano em que Sérgio entrou ali para trabalhar, todas as técnicas de uma escova manual, o momento em que uma senhora do Alasca entrou na loja e comprou escovas para lavar copos.

Hoje é dia de tratar dos escovilhões com aros de metal que limpam tubagens e fazer mais algumas escovas para máquinas de roupa. Crina preta de cavalo em cima da mesa, agulha na mão, separa os pelos rapidamente, como se os contasse mentalmente. E cose-os à mão também. As ideias novas não a assustam. «A indústria ocupa muito tempo de trabalho, mas há sempre coisas novas, escovas novas que nos fazem pensar.» Nada que não se consiga fazer. «Embora façamos tudo à mão, a Fatinha é a nossa máquina», diz Sérgio a brincar.

A ligação entre o antigo e o moderno é evidente na loja-oficina. À entrada, alguns produtos estão expostos numa mesa de pedra de mármore e num armário de madeira. Há um outro armário dos tempos do fundador, com objetos mais antigos. Ao fundo, a oficina com algumas máquinas de outra era. Loja e oficina confundem-se, muitos clientes entram na loja e só param na oficina.

Rui não tem medo da concorrência porque acredita na qualidade do que faz. «Não há qualquer problema em fazerem o mesmo que eu, só me obriga a ser melhor».

Rui Rodrigues tomou conta da escovaria há dez anos, ao início com a mulher, Olinda, neta do fundador, que entretanto saiu para trabalhar noutro sítio. Há dez anos que a escovaria anda a mudar, mantendo sempre o fabrico manual. De uma produção virada exclusivamente para a indústria, sobretudo escovas para máquinas têxteis ou de calçado, a oferta começa a diversificar-se. «Peguei nesse saber e comecei a dar outras formas, nova roupagem.»

Recuperou as escovas com ar antigo para calçado e roupa, com estilo vintage, e acrescentou outros produtos. Todos feitos à mão e, por isso, peças únicas. E as encomendas vão chegando, mais para o mercado interno, menos para fora. São escovas para roupa para um hotel português oferecer aos clientes, escovas de dentes com cabo de madeira para uma empresa japonesa, escovas para limpar estofos de automóveis para França, escovas para lavar cogumelos, queijos ou fruta. São escovas de ourives que mergulham na água e limpam ouro e metais preciosos. O negócio está equilibrado.

Ser persistente ajuda-o a seguir o rumo que traçou. Não tem medo da concorrência porque acredita na qualidade do que faz. «Não há qualquer problema em fazerem o mesmo que eu, só me obriga a ser melhor». Natural de Miragaia, trabalhou como aplicador de cortiça, estabeleceu-se por conta própria na decoração de interiores, onde fazia de tudo um pouco, dos tetos aos pavimentos e à pintura, obras chave na mão. Até que entrou na escovaria já o sogro tinha morrido e não quis fechar a porta. «Sempre gostei de trabalhar a madeira e juntei o útil ao agradável.»

A VASSOURA DE HARRY POTTER?

Será que J.K. Rowling, a escritora britânica que deu vida a Harry Potter, se inspirou nas antigas vassouras de piaçaba da Escovaria de Belomonte para o veículo voador do feiticeiro? A história corre em blogues, há turistas que entram na escovaria com essa ideia na cabeça. É uma espécie de mito que Rui Rodrigues nunca confirmou. Nunca se cruzou com a autora, nunca aprofundou o assunto. Pelo sim, pelo não, fez uma vassoura à Harry Potter que colocou à entrada da escovaria em cima de um espelho como objeto de decoração que não está à venda. «Disseram–me que no tempo do meu sogro, a senhora Rowling esteve cá na loja duas vezes, quando morava no Porto, mas não sei se é verdade que se tenha inspirado nas nossas vassouras.»

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