OPINIÃO

António Raminhos: «Provavelmente tenho a mesma idade mental que as minhas filhas»

Humorista lançou livro «As Marias», inspirado nas aventuras que tem com as três filhas: Maria Rita, Maria Inês e Maria Leonor.
António Raminhos

Maria Rita, Maria Inês e Maria Leonor, de cinco, três e 1 ano, respetivamente, são filhas de António Raminhos e, sem sequer imaginarem, já fizeram rir milhões de portugueses. Há dois anos que o pai partilha nas redes sociais vídeos que faz com as crianças. Vídeos esses que incluem não só técnicas para irritá-las como as mais diversas judiarias.

Depois do sucesso dessas brincadeiras ter dado origem a um projeto de comédia stand up que percorreu o país de norte a sul e a um programa de rádio, o humorista decidiu pegar nas maiores dúvidas de pais que recebe através das redes sociais e responder-lhes através de um livro bem divertido: «As Marias».

Por que razão as suas três filhas se chamam Maria?

A primeira ficou Maria Rita porque gostávamos do nome. A segunda ficou Maria Inês porque vi logo ali uma oportunidade de negócio que podia explorar no futuro, até mesmo para elas quando forem adultas e quiserem abrir um negócio: restaurante das irmãs Marias ou loja de brinquedos das Marias. Dá para uma data de coisas. Quando a Maria Rita nasceu só tínhamos um nome e era de rapaz, João Maria, que é o mesmo nome de alguém que foi muito especial para mim e já não está cá. Agora ficava mal uma chamar-se Maria Rita, a outra Maria Inês e a terceira ficar Mafalda.

Ainda quer tentar ter um rapaz?

Não, já chega. Mas isto começa a tornar-se um hábito, um vício de querer estar a passar sempre pelos mesmos dramas com as crianças. Às vezes pergunto à minha mulher o que ela pensa de termos mais um, ela diz que sim mas que não será com ela, de certeza.

O projeto das Marias começou com vídeos no YouTube. Seguiu-se um espetáculo de stand-up que percorreu o país de norte a sul e depois um programa de rádio.

Comecei a pensar no que poderia fazer com os vídeos e lembrei-me de criar uma palestra motivacional – ou desmotivacional, depende da perspetiva – para quem quer ser pai e acabámos por criar um espetáculo de stand up que é a história da minha vida, desde os anos 1980 até à altura em que me tornei pai. Dou uma data de conselhos e conto peripécias e aventuras que temos quando somos pais. Na rádio as Marias não têm nada a ver com o espetáculo nem com os vídeos. Esclareço dúvidas aos pais, a pessoas que me enviam questões, ansiedades e alguns desgostos. Pego nisso tudo e depois digo merda, basicamente.

E é isso que faz também com o livro…

O livro é isso, é um livro de autoajuda. Sou o Gustavo Santos da parentalidade, estou a ajudar os casais a decidirem se vão ter filhos ou não.

Já alguém lhe disse que, depois de ouvir as histórias que o Raminhos conta, decidiu não ter filhos?

Sim, mas geralmente é no gozo. Quando queres ser pai queres mesmo sê-lo, por mais pessoas que te digam o contrário ou pais desesperados que vejas. Pensam que os dramas só acontecem com os outros e que com eles vai correr tudo bem.

Lembra-se do primeiro vídeo que fez com as Marias?

Estava com as duas mais velhas, a pequenina ainda não tinha nascido. A minha mulher tínhamos deixado sozinhos, estávamos a brincar ao jogo da cadeira e eu atazanava-lhes a cabeça. Lembrei-me de pôr aquele vídeo na Internet e teve um grande impacto. A partir daí comecei a publicar mais vídeos e a criar um conceito.

Recentemente entrevistei o Miguel Raposo, que geria as suas redes sociais na altura, e ele contou-me que no início tinha receio de que, ao publicar esse tipo de vídeos, o Raminhos acabasse por ser mal interpretado…

E fui mal interpretado muitas vezes. Fazia-me confusão as pessoas não perceberem aquilo que estava a fazer, sobretudo porque não conhecem a relação que tenho com as minhas filhas. Mas mesmo tempo recebi muitas mensagens em que me diziam que gostavam de ter tido com os filhos e pais a mesma relação que tenho com as minhas filhas, que gostavam de vir a ser assim ou que as brincadeiras que tínhamos lhes recordavam a infância deles. Essas mensagens todas que recebi foram muito mais importantes do que as outras. Neste momento já não ligo, não quero saber.

Já se arrependeu de publicar algum vídeo?

Sim, houve um vídeo que publiquei e acabei por retirá-lo porque várias pessoas me aconselharam a fazê-lo, dizia coisas demasiado abusadas. Numa certa idade, as crianças falam muito do xixi e do cocó e nós tínhamos ou jogo em que a Maria Rita dizia: «Vou comer vomitado de gato com cocó de cavalo.» Levei aquilo para outro nível e acharam melhor eu não divulgar aquele vídeo.

A sua mulher sempre achou piada aos vídeos?

A minha mulher é a editora, é ela que aprova os conteúdos, decide se vão ou não ser publicados nas redes sociais. Já no stand up é assim, mostro-lhe as piadas e ela filtra.

Ela acaba por ter um papel fundamental neste projeto…

Sim, até porque fez as filhas, sozinho não conseguia. Digamos que isto é uma empresa com dois sócios maioritários.

Costuma mostrar os vídeos às suas filhas antes de os publicar?

Antes de publicar, não. Elas só veem os vídeos publicados, mas já reagem muito melhor do que reagiam. No início a Maria Rita ficava um bocadinho danada, neste momento acha piada. Estou a planear entrar num novo registo que passa por preparar vídeos com elas para lixar a irmã mais nova ou a mãe. A Maria Rita quer continuar a fazer parte, mas nos bastidores, fez esta série durante muito tempo. Elas são descontraídas e acham piada, estão a cumprir aquilo que eu esperava. Comecei a fazer os vídeos para elas ficarem com uma espécie de arquivo da infância delas, que é algo que eu e muitas pessoas da minha geração não têm. É engraçado porque elas veem os vídeos e já acham piada, gostam de se ver quando eram pequeninas, como reagiam, como suava a voz delas. Esse, para mim, era o principal objetivo.

A própria Maria Leonor já vai interagindo com a câmara…

Sim, porque não sabe. Se for como as outras, quando tiver consciência da coisa não vai interagir nada.

O que mudou em si depois de ter sido pai?

Não notei grande diferença, continuo a ser a mesma pessoa, às vezes mais chato do que elas. Provavelmente tenho a mesma idade mental que as minhas filhas. A única coisa que mudou é que agora me faz mais confusão ouvir certas coisas que se passam com crianças. A parentalidade deu-me outro nível de sensibilidade, mas isso não me impede de fazer piadas mais agressivas com crianças ou sobre crianças, isso é transversal a todos os pais.

Está sempre nesse modo piada todos os dias?
Depende, há dias em que estou mais em baixo e me dá para fazer mais piadas e outros em que estou cansado e não me apetece fazer nada. É como em qualquer profissão. Costumo dizer que é preciso haver tragédia na vida para haver comédia, alguém que tenha uma vida perfeita não tem nada com que brincar. É na adversidade e nos dias mais chatos que se faz comédia, até como forma de fugir desse registo.

Como faz nos dias em que está em baixo e, ainda assim, tem o compromisso de fazer os outros rir?

Tenho de trabalhar, é assim a vida. Alguns dos momentos mais criativos que tenho, seja a escrever textos ou a falar, surgem em alturas em que estou mais em baixo porque canalizo a energia para isso, para não estar sempre a pensar em porcaria.

Quando a Maria Inês nasceu a Maria Rita sentiu ciúmes. Como é que vocês, enquanto pais, lidaram com esta situação?

Agora é a Maria Inês que tem ciúmes das outras duas, chama-se efeito sanduíche: o irmão do meio é esborrachado no meio dos outros dois. Tentamos fugir disso, mas é um dado adquirido. O irmão do meio é sempre o mais traumatizado e a Maria Inês faz muitos dramas, geralmente sem sentido nenhum. Tanto eu como a minha mulher temos irmãs do meio e sabemos que elas sofrem sempre um bocadinho. Estamos a tentar que não lhe aconteça o mesmo.

Neste livro fala de soluções infalíveis para 73 dilemas do dia-a-dia das famílias. Qual foi o dilema mais complicado de resolver?

Há um que me incomoda sempre muito: dormir na cama dos pais. Aconteceu-me hoje. Acordei às 4h00, não me conseguia mexer e não estava a perceber porquê. Era porque tinha a Maria Rita do meu lado e a Maria Inês estava do lado da minha mulher. As festas de aniversário também são sempre um drama horrível, odeio festas com crianças e não só tenho de fazer as das minhas como tenho de ir às dos outros. Isto é engraçado porque felizmente há um conjunto de pais que partilham das mesmas ideias que eu e sentem que a parentalidade não tem de ser vivida com angústia, privação de determinadas coisas ou rigidez. As minhas filhas nunca me faltaram ao respeito e eu estou sempre a brincar com elas. Há um vídeo em que a Maria Rita me dá uma chapada e muitas pessoas ficaram chocadas. Disseram: “Alguma vez deixava a minha filha bater-me?” Ela bateu-me mas sei porque razão ela me está a bater e como me está a bater. Mais do que a intensidade da chapada é importante a intensidade das palavras e sei perfeitamente que ela estava a br
incar tal como ela sabe perfeitamente quando estou a brincar ou a falar a sério.

Houve algum momento que o levasse a pensar que não era um bom pai?

Sim, muitos. Às vezes, sem querer, levanto a voz quando estou mais cansado. Quando a Maria Rita era mais pequenina e estava muito nervosa por começar a escola eu acordo quando ela está a fazer uma birra descomunal ao meu lado, tento acalmá-la e ela, de repente, manda-me uma chapada a sério. Em reação, levando a minha mão e devolvo-lhe a chapada. Foi a única vez em que lhe bati e vou arrepender-me para o resto da vida. Ela ficou muito assustada, não com a força mas com a atitude que eu nunca tinha tido. Há muitas coisas de que nos arrependemos, mas um pai que tenta dar sempre o seu melhor não se pode arrepender daquilo que faz.
O prefácio do seu livro é escrito pela atriz Cobie Smulders, da famosa série ‘How I Met Your Mother’. Como se conheceram?

Foi através do Miguel Belo, que é meu agente e uma das pessoas responsáveis pela Comic Con Portugal. Ela esteve na Comic Con, tive oportunidade de conhecê-la, jantar com ela e passámos a noite a falar dos nossos filhos, as minhas filhas e os filhos dela. Mostrei-lhe os vídeos e ela gostou genuinamente. Mais tarde o Miguel Belo lembrou-se de que era boa ideia convidá-la para fazer parte do livro pela relação curiosa que tivemos e pelo facto de ela ter achado piada aos vídeos. Mais tarde encontrei-a em Nova Iorque, ela continuou a falar-me de outros vídeos que entretanto tinha visto e foi aí que ela me entregou o prefácio. Está muito giro.

Sendo este livro um conjunto de questões que as pessoas te têm vindo a colocar nas redes sociais, qual foi a mais estranha?

Deixou o capítulo da ejaculação precoce completamente em branco.

Isso foi ideia dos editores. Geralmente no trabalho arranjo sempre pessoas que batem pior do que eu.

O livro tem uma aplicação que faz a ligação entre o papel e o digital.
Essa aplicação serve para ler os desenhos que estão no livro e remete também para vídeos que já foram publicados ou que são exclusivos para o livro, estão só nessa aplicação e em mais nenhum lado.

Como estão as pessoas a reagir a este livro?

Muitas pessoas me têm dito que vão comprar exatamente por causa das dúvidas que surgem na parentalidade. Espero que ninguém siga o que está aqui escrito porque não me vou responsabilizar por nada. O livro serve para dar na cabeça dos putos quando eles estiverem aos berros e precisarem de acalmar um bocadinho. É sobretudo para passarem um bom bocado.

Há pessoas que não pensam sequer em ter filhos mas querem ler o teu livro.

Claro, porque é muita parvoíce. Quem tem filhos vai ver que a maioria das experiências pelas quais vão passar são exatamente assim. Quem não tem são pessoas que estão de fora mas vão rir-se na mesma.
Há várias partes do livro em que fala do amor entre pais e filhos. Qual foi a maior prova de amor que as suas filhas lhe deram?

A Maria Rita faz-me sempre muitos desenhos e escreve-me pequenas histórias. Tal como eu não tenho vergonha de mostrar o amor que tenho pelas minhas filhas, e digo-lhes várias vezes que as amo e adoro, elas fazem exatamente o mesmo comigo.

Um dos pais do livro está muito preocupado com o drama da muda das fraldas. Também passou por isso?

É horrível e estou a passar por isso outra vez, mas faz parte. Um pai tem de mudar fraldas, é um ótimo contracetivo porque, a partir desse momento, não vai querer ter mais filhos.

E das mães diz que acompanha o seu trabalho há muito mas nem sabe por que razão o faz.

Lá está, primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Mas também se fala de coisas mais sérias, como a carga horária das crianças.

Tenho a felicidade de viver no campo. A partir das 17h00 começo a ficar muito nervoso, sinto que elas já deviam estar em casa e vou buscá-las por volta dessa hora. Agora já estou um bocadinho mais descontraído porque sei que estão a divertir-se na escola, mas tento passar o máximo de tempo possível com elas. Felizmente andam em escolas que não lhes mandam muitos trabalhos de casa, que geralmente são para os pais. É importante elas terem tempo para serem crianças.

Quando vão de férias, os casais devem deixar as crianças com os avós ou levá-las também?

Que marquem duas semanas de férias, uma para eles e para as crianças e outra só para eles. Vim agora de uma semana de férias com as miúdas e ao segundo dia já estava a contar os que me faltavam para vir embora. Não é por maldade, obviamente, mas é muito cansativo, principalmente quando queremos fazer tudo o que elas querem. Esta semana ainda estou a sentir o peso das férias. Ou então lembrem-se: se querem ter férias, não tenham filhos.