Está na altura de falar sobre anorexia no desporto

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Os altos níveis de exigência, sobretudo em desportos estéticos como a ginástica ou a dança, aumentam o risco de perturbações alimentares.

Cuidar da alimentação e estar atento ao peso são preocupações normais de qualquer jovem atleta de competição. Mas os altos níveis de exigência, sobretudo nos desportos estéticos, como ginástica ou dança, podem ter um efeito perverso, demonstrado pelos estudos: a pressão aumenta o risco de perturbações alimentares. Na procura de uma melhor performance, o controlo do corpo torna-se uma obsessão.

Ana (nome fictício) tinha 15 anos quando decidiu «levar o desporto mais a sério». Já tinha experimentado ginástica, praticava natação de competição e entusiasmou-se com o surf. Fez dois campeonatos regionais, queria obter patrocínios, competir ao mais alto nível. Aluna excelente, tinha 1,73 metros e nunca teve excesso de peso, mas a timidez e os fatos de treino não faziam dela a jovem mais popular do liceu. «Queria destacar-me pelos resultados desportivos.» Ser melhor no surf tornou-se uma obsessão. Ana acreditava que «com esforço e obstinação podia chegar onde quisesse», e estava determinada a prová-lo.

Não saía à noite, não cometia excessos e, tudo somado, treinava 10 a 12 horas por semana. Mas tinha de fazer mais. «Eu não me achava gorda, a questão não era a performance. Os resultados não chegavam e, como tudo o resto já estava tão controlado, concentrei-me na alimentação.» Começou por cortar os doces, eliminou as gorduras. Viveu momentaneamente a ilusão de que «a dieta saudável estava a resultar». Depois, reduziu os hidratos de carbono e foi diminuindo as quantidades, progressivamente. Até ao momento em que, seis meses depois, no consultório da psiquiatra Dulce Bouça, especialista na área das perturbações do comportamento alimentar (PCA), recebeu a confirmação de um diagnóstico que demorou a interiorizar: anorexia nervosa. Em cerca de um ano, passou dos 65 para os 47 quilos.

Sete anos mais tarde, depois de ano e meio de acompanhamento e um longo processo de recuperação, a estudante de Engenharia – que agora vai ao ginásio e surfa por prazer – reconhece que houve um conjunto de situações a desencadear a doença. A ambição da competição foi um escape. «Nunca encontramos apenas um elemento isolado que possa explicar a anorexia, há questões genéticas, caraterísticas familiares, individuais… Mas o desporto de competição é, de facto, considerado um fator de risco», diz Cláudia Cabido, pedopsiquiatra no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

«É importante que a família, os treinadores, os professores conheçam a doença e possam agir como agentes de prevenção», sublinha Cláudia Cabido.

«Identificar comportamentos de risco quando a doença ainda não está completamente instalada permite um diagnóstico precoce e um tratamento mais célere», acrescenta Rita Rodrigues, pedopsiquiatra no mesmo hospital.

Um dos estudos mais sólidos – realizado pela Universidade de Educação Física e Desporto da Noruega, com uma amostra superior a três mil indivíduos – mostra que a prevalência de perturbações do comportamento alimentar é duas vezes mais elevada entre os atletas (vinte por cento contra os nove por cento encontrados na população geral). E alerta para outra conclusão: o risco é significativamente superior nos desportos estéticos, onde a prevalência encontrada foi de 42 por cento.

Anorexia no desporto

«Há um consenso quanto ao facto de o maior risco existir em modalidades como a dança, a ginástica, a natação sincronizada ou a patinagem artística — onde a aparência física é considerada fundamental e se exigem corpos magros. Sobretudo ao nível da alta competição ou profissional», confirma Rita Francisco, psicóloga e professora na Universidade Católica, que dedicou o doutoramento à questão das perturbações do comportamento alimentar em adolescentes praticantes de dança e ginástica, em diferentes níveis.

A pressão externa
As estatísticas não surpreendem a nutricionista Luísa Trindade, do Hospital Lusíadas Porto. A questão é-lhe demasiado familiar. Não esquece a menina de 9 anos que há uns anos lhe confessou, entre lágrimas, que não conseguia comer. Maria (nome fictício) tinha-se iniciado na ginástica acrobática e todos lhe anteviam enorme sucesso na competição, mas a mensagem chegava-lhe do treinador com um sublinhado: não podia engordar. «A mãe apercebeu-se de que ela não comia, chorava muito, estava sempre com medo de aumentar de peso. Existia uma anorexia nervosa já instalada a pedir uma abordagem multidisciplinar.»

«A pressão para a magreza, enquanto regra implícita e enquanto regra explícita, transmitida por professores e treinadores, foi o fator de risco mais importante no estudo que fiz com os atletas portugueses», confirma a investigadora Rita Francisco.

«Mas bailarinas e ginastas, que não apenas os de alta competição, também podem ser igualmente alvo de pressões que facilitam o desenvolvimento desses comportamento.»

Tiago Camacho, médico da Federação Portuguesa de Ginástica, explica que «os atletas da seleção têm acompanhamento nutricional, mas nos níveis de competição inferiores essas questões ficam muito ao nível dos clubes». E Miguel Lucas, psicólogo e preparador mental de atletas, reconhece que «há muito pouca formação» nesta área. A comunicação violenta reforça o fracasso, quer o objetivo seja perder peso ou outro. «Muitos atletas não são ensinados a competir. Associam o seu valor desportivo ao seu valor pessoal.»

Existem caraterísticas individuais, como o perfeccionismo, a persistência, a tolerância ao esforço físico – essenciais no desporto de competição – que são também traços de personalidade de quem sofre de anorexia nervosa. Mas a pressão social é uma realidade transversal. «Culturalmente, a mensagem é fortíssima», explica a psiquiatra Dulce Bouça. «A magreza é associada ao sucesso, a uma maior capacidade de controlar a mente e o corpo. Na anorexia, a gordura é uma metáfora, a pessoa quer ser mais forte, mais segura, mais capaz, mais controlada.»

Agir pela prevenção
Perseguir um objetivo desportivo ou profissional implica ter cuidado com a alimentação, fazer sacrifícios, e é fácil os primeiros sinais de perturbações do comportamento alimentar passarem despercebidos. Mas o isolamento e a obsessão com o peso devem sempre merecer atenção. A nutricionista Luísa Trindade deixa ainda outro alerta: «Anorexia significa perda de apetite e pode existir sem sofrimento psicológico, mas com falências físicas.»

O caso de Teresa (nome fictício), que aos 16 anos está a estudar numa reputada academia de bailado da Europa, é paradigmático. «Ela estava com 48,5 quilos e sabia que não podia passar dos 45. A mãe estava preocupada com essa exigência e pediu-me ajuda», conta a nutricionista. Na escola, o pequeno-almoço tinha fruta, aveia e leite, mas o almoço era tomate com mozzarella e o jantar uma sopa. Os resultados da dieta altamente restritiva eram já visíveis em Teresa: nunca tinha tido menstruação, o cabelo estava fraco, as unhas quebradiças. «Tratava-se de uma anorexia consciente e induzida», acusa especialista.

Um contexto de alto risco que só não teve consequências psicológicas graves porque em causa estava uma personalidade pouco influenciável e uma mãe preocupada que a levou a iniciar um processo de acompanhamento com dieta, análises regulares e o recurso a suplementos vitamínicos.

Dulce Bouça é também perentória: «A atenção dos pais aos primeiros sinais de uma perturbação alimentar é fundamental.»

ESTÁ NA HORA DE FALAR SOBRE ISSO!
Terminou ontem, 5 de março, a Semana de Sensibilização para as Perturbações do Comportamento Alimentar do Reino Unido, lançada com o slogan «Está na hora de falar sobre isso!». Em Portugal, não existe um dia nacional, mas a ONU pondera a criação de um Dia Mundial da Luta contra os Distúrbios Alimentares para 2 de junho.

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