OPINIÃO

Anne Geddes: a encantadora de bebés

Todas as mães acham os seus bebés os mais bonitos do mundo e, segundo Anne Geddes, têm toda a razão. Pioneira no mundo a retratar recém-nascidos como pequenos seres fantásticos, pelos quais é conhecida (e reconhecida) a nível internacional, a fotógrafa australiana revelou à NM o porquê de andar a fotografá-los há 30 anos. E de não querer outra coisa.

Texto Ana Pago

A primeira palavra que vem à cabeça de Anne Geddes, quando pensa em bebés, é recomeço. Todos são lindos aos olhos da fotógrafa australiana de 60 anos. Levezinhos e minúsculos, a dormir placidamente. Se há coisa perfeita neste mundo de loucos são eles, com dedinhos roliços a segurarem os nossos, enrolados como pequenos caracóis.

«Fico doente ao ver os conflitos na Síria e a fome em África, crianças apanhadas na violência de adultos que deviam protegê-las», desabafa a pioneira mundial em retrato de recém-nascidos, conhecida pelas fotos de bebés em vasos, casulos, folhas de couve. «O poeta Pablo Neruda dizia que nem cortando todas as flores se impede a primavera e, para mim, cada recém-nascido representa justamente isso. O milagre da vida.»

Não existe melhor razão do que essa, segundo ela, para continuar a fotografá-los ao fim de 30 anos de prática, em vez de paisagens, comida ou moda. «Se fazemos algo com o coração só pode sair bem», disse à Notícias Magazine numa vinda a Lisboa no âmbito do Dia Mundial da Meningite (a 24 de abril), associada à campanha Win for Meningitis, de alerta aos pais para as possíveis sequelas devastadoras e a importância de vacinarem os filhos.

«Para esta campanha da farmacêutica GSK fotografei seis atletas paralímpicos que sobreviveram à meningite, entre os quais o português Lenine Cunha, com bebés ao colo para reforçar a mensagem da vacina como prevenção», conta. Antes, já Anne Geddes tinha fotografado outros 15 sobreviventes da doença para a sua série de imagens Protecting Our Tomorrows: crianças sem braços, sem pernas, todavia perfeitas.

A fotógrafa Anne Geddes esteve em Portugal no fim de abril no âmbito do Dia Mundial da Meningite, associada à campanha Win for Miningitis, com a qual colabora. [Fotografia de António Pedro Santos/Global Imagens]
«Foi incrível, isto. Incrível e poderoso de um modo que não sei explicar.» Enquanto mãe, pensava no facto de aquelas crianças especiais, impedidas pelo corpo de correrem na rua, serem tão maravilhosas como qualquer outra criança.

«Também cogitava se seria boa a cuidar, como estas famílias, caso fossem as minhas filhas no lugar dos filhos delas. As mães acham sempre que os seus bebés são os mais lindos do mundo, os mais perfeitos e mais amados, e na verdade têm razão.» Ela própria seria incapaz de desejar filhas melhores do que a sua Stephanie, de 33 anos, e Kelly, de 30, ambas fotógrafas de têmpera como a mãe (a mais velha trabalha inclusive com Anne, como produtora). «Lembra-se de há pouco lhe falar em milagres da vida? Elas duas são os meus.»

E sim, claro que as fotografou muito desde que nasceram, antes mesmo de se tornar uma celebridade. Como podia não o fazer? «Tenho poucas fotos minhas em bebé, nenhuma das quais de grande qualidade, e sempre pensei que seria fabuloso as minhas filhas crescerem com memórias de um tempo em que eram anjos», explica Anne.

«Eu não faço um bebé parecer borboleta, ou tartaruga, ou joaninha. Os bebés são, de facto, essas criaturas imaginárias em torno das quais tudo gira», diz Anne Geddes.

Se há prazer em retratar recém-nascidos é esse de deixar recordações que lhes devolvam, em adultos, o sentido de quem eram no passado. Outro é contar histórias únicas de seres incomparáveis: «Eu não faço um bebé parecer borboleta, ou tartaruga, ou joaninha. Os bebés são, de facto, essas criaturas imaginárias em torno das quais tudo gira», conta a fotógrafa, fascinada pela natureza em transformação.

A ela cabe-lhe apreender o sentido de mistério de cada um para fazer as fotos por que é mundialmente reconhecida. «Vejo hoje fotógrafos agarrados a um género que iniciei há 30 anos, valorizado agora como não era no meu tempo, e sinto que o meu trabalho ainda é diferente do deles», constata.

Retratar bebés é-lhe tão natural como respirar – duas coisas que tenciona fazer com empenho até morrer. Não precisa de mais nada. Não quer mais nada. Não se imagina a fazer mais nada. «É realmente muito simples: estou onde quero estar o resto da minha vida.» Ter tido uma infância difícil num rancho em Queensland, Austrália, sempre pendurada nas árvores e nos cavalos, só contribuiu para a tornar inventiva, indomável e ótima a perceber os efeitos da luz nas coisas.

«Sou a terceira de cinco filhas, entalada entre as minhas irmãs mais velhas, Susan e Kaye, e as duas mais novas, Sally e Helen. Quando não estava com elas a nadar ou agarrada aos bichos, via as fotos da Life Magazine, a National Geographic, e sonhava em poder eternizar assim um instante na vida de alguém.» Sentia-se mais próxima das pessoas no papel do que do pai, autoritário e distante, incapaz de um elogio (e se Anne tentava impressioná-lo!).

A mãe, de alma citadina, largou tudo para se casar e ter as suas cinco raparigas contra a vontade da família. Nunca se adaptou, porém: depois de o sogro insistir que deviam ser eles a gerir o rancho, foi desaparecendo aos poucos dentro de si mesma. É também por ela que Anne diz todos os dias «amo-te» às duas filhas e ao marido, Kel.

Anne já trabalhara em turismo na Nova Zelândia, criara e vendera a sua própria loja de roupa, fora secretária numa estação de TV australiana em Brisbane, trabalhara em publicidade. Aos 25 anos pôs um anúncio no supermercado e lançou-se a fotografar as crianças de amigos e vizinhos.

«Sabe que era dele a câmara com que comecei aos 25 anos?», pergunta a fotógrafa, sorrindo ao recordar a velhinha Pentax K1000. Estava então a viver em Hong Kong com Kel, que aceitou um emprego na área da programação televisiva e se mudou com ela em 1982 (por lá casaram no ano seguinte).

Anne já trabalhara em turismo na Nova Zelândia – aos 17 anos, entre paisagens que a inspiraram a fotografar. Criara e vendera a sua própria loja de roupa – Daddy Long Legs. Fora secretária numa estação de TV australiana em Brisbane, onde conheceu Kel aos 22 anos. Aos 25, sem nada em mente após largar o anterior emprego em publicidade para ir para Hong Kong, pôs um anúncio no supermercado e lançou-se a fotografar as crianças de amigos e vizinhos. Tinha um portfólio generoso ao regressarem à Austrália (Sydney) dois anos depois.

Aos 60 anos, a australiana que cresceu num rancho de Queenslanda cumpriu um remoto desejo de Ano Novo: ser uma fotógrafa reconhecida internacionalmente.

«A Stephanie nasceu em abril de 1984 e a experiência de ser mãe tornou-me mais sensível às mulheres que vinham ter comigo para lhes fotografar os filhos», conta. O que lhe faltava em técnica, equipamento ou confiança – aprender tudo por tentativa e erro não ajudava –, compensava largamente com a sua visão única do que seria um bom retrato.

«Lembro-me de anunciar na passagem desse ano, entre amigos, que ainda viria a ser a fotógrafa de bebés mais conhecida do mundo, veja só!» A família partiu entretanto para Melbourne (Kelly já na barriga da mãe) e Anne pôde improvisar um estúdio no barracão ao fundo do jardim onde se sentia como peixe na água – nunca gostou muito de fotografar nas casas das pessoas. «Preciso de ser eu a controlar o ambiente, a luz. A primeira vez que o fiz foi como se todas estas peças soltas encaixassem finalmente.»

Kelly nasceu em outubro de 1986 e eles mudaram-se para Auckland, Nova Zelândia, onde uma revista local publicou a célebre foto de Gemma – uma menina vestida com um tutu que Anne fizera no seu estúdio em Melbourne. De repente, havia interesse num tipo de retrato que não obrigava as crianças a posarem para a câmara com carinhas entediadas e fatos de ir à missa. «Isto aconteceu em 1988. A tal resolução de Ano Novo, feita quatro anos antes, estava a compor-se», brinca a fotógrafa australiana.

«Lembro-me de anunciar na passagem desse ano, entre amigos, que ainda viria a ser a fotógrafa de bebés mais conhecida do mundo, veja só!»

Hoje, ela mesma se sente uma das suas criaturinhas encantadas, a morar em Nova Iorque com Kel, perto de Stephanie (apenas a filha mais nova continua ainda longe, casada com um arquiteto de Sydney). Encontrou por fim a estrela perdida da sua infância.

«Acabei de lançar o livro Small World, da Taschen, uma retrospetiva de grande formato com fotos inéditas, e estou a desenvolver uma linha de joias com motivos naturais e pérolas», adianta, entusiasmada. As pérolas, para Anne, representam os bebés: orgânicas, com um período de gestação natural, nenhuma igual a outra. Fazia sentido dedicar-lhes atenção agora. Tem ainda o projeto Baby, Look at You Now no Instagram, em que procura seguir o rasto a bebés que fotografou: Danyon, o coelhinho da Páscoa agora com 23 anos, a estudar saúde pública. Erin, a fada do cogumelo vermelho formada em ciência ambiental e biologia. Ou Maneesha, a prematura que pesava menos de um quilo em 1993 e se fez fotógrafa. «Certas coisas na vida são realmente mágicas», diz. Acreditar no que apregoa é a alma do seu negócio.

Anne Geddes nunca está parada e tem abraçado várias causas ao longo da sua vida e carreira.

Uma mulher de muitas causas

Filantropia: Convicta de que devemos proteger e cuidar de todas as crianças, Anne é a primeira a passar à ação. Em 1998 fundou com o marido a Geddes Philantropic Trust, ajudando a financiar causas importantes como a vacinação de crianças no mundo, a prevenção do abuso infantil, a luta contra o cancro em crianças e a proteção de grávidas para evitar que os seus bebés nasçam prematuros. É esta a sua missão pessoal. Um trabalho de amor.

Prémio: Pouco depois de a sua filha mais nova nascer, em outubro de 1986, Anne soube que o laboratório fotográfico onde costumava ir estava a organizar um concurso de retratos entre os seus clientes. Nunca pensou ter hipóteses, mas acabou por participar com uma foto
da filha mais velha, Stephanie, vestida de ténis e jardineiras, com as mãozinhas nos bolsos. Ficou em segundo lugar.

Gemma: Em 1988, quando já vivia em Auckland, uma revista local publicou a foto de Gemma, uma menina gorducha a usar um tutu de bailarina que Anne fizera no seu estúdio caseiro em Melbourne. Numa súbita reviravolta do destino, as pessoas começaram a interessar-se por um tipo de retrato de crianças muito diferente do que se fazia na altura. Anne soube que tinha de continuar a trilhar o seu caminho aberto a pulso.

Casamentos: Também por esta altura, Anne Geddes quis experimentar a fotografia de casamento antes de excluir de vez essa possibilidade, mas correu tudo mal: no primeiro esqueceu-se de pôr o rolo na máquina; no segundo a câmara enrolou-se no véu da noiva; no terceiro ainda não entregara as fotos e já os noivos se tinham separado. Não teve dúvidas ao escolher especializar-se em bebés.

Energia: Se é difícil a uma criança confiar num adulto desconhecido, o trabalho de Anne ganha pressão acrescida quando esse laço tem de surgir rápida e instintivamente para criar
os retratos de sonho que as famílias esperam levar dos seus filhos. É preciso foco, energia, paixão. Ouvir os pais dizerem que a personalidade da criança está toda na imagem é aquilo que a faz continuar.

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