OPINIÃO

Angola, Portugal e um coração partido

Isabel Batata Doce foi a Angola para completar a sua história. Ficou com o coração entre dois países e duas famílias.

Se há coisa que distingue o bom jornalismo do puro sensacionalismo são as zonas cinzentas. Na vida real, muito pouco é a preto e branco, as pessoas não são boas ou más, e um bom repórter sabe perder-se em muito mais do que 50 matizes que o cinzento toma. Como diz, bem, o Ricardo J. Rodrigues, se a história de Isabel Batata Doce que faz capa da edição de hoje fosse um livro ninguém acreditaria que era real.

E o que mais impressiona, nela, são as zonas de cinzento e várias leituras que tem, e teve. Ao Ricardo levaram algum tempo a apreender, e a todos nós torcem-nos os sentimentos. Em traços breves: esta é a história de uma menina negra que, com dois anos, foi encontrada numa clareira no mato angolano por um pelotão português, na Guerra Colonial, levada para o quartel, onde foi tratada – gostava imenso de batata doce, razão pela qual lhe chamaram assim –, a mulher de oficial afeiçoou-se tanto a ela que a trouxe para Portugal e «adotou-a».

A primeira leitura da história foi feita pelo regime, colonialista, para mostrar a «humanidade» dos soldados – o seu batismo apareceu nas primeiras páginas do Diário de Notícias. A segunda leitura foi feita pela própria Isabel quando, adolescente, se revoltou por não saber quem era a família de sangue. A terceira foi feita pelos angolanos que a viram como mais uma de os portugueses a roubarem um dos «deles».

Algures no meio está a verdade desta história. Uma verdade que a NOTÍCIAS MAGAZINE ajudou a desatar, quando levou Isabel a Angola a visitar a sua família entretanto reencontrada – com o repto e apoio da Angonabeiro e o apoio da Taag, às quais agradecemos.

Isabel chegou a Angola e chorou. Chorou, chorou, chorou. Porque sabia, e como diz bem o Ricardo, que ali estava o seu destino – tanto quanto um destino pode ter passado, presente e futuro. «E se eles não são boas pessoas?», perguntava-se antes de conhecer os familiares, com medo de que os seus idealismos de anos caíssem por terra.

Nesta viagem Isabel teve em confronto o seu passado e aquilo que poderia ter sido. Gostou de umas partes – de a família ser afetuosa e comovente e nunca ter parado de a procurar. De outras teve medo – da terra perdida onde o pai vivia, no mato. E, no final, percebeu que afinal o tradeoff não foi assim tão mau. Que ter vindo para Portugal ter-lhe-á mudado a vida, provavelmente para melhor. E bem presente está o facto de não ter morrido, nomeadamente durante a guerra, ou mais tarde, numa das afeções que matou os familiares mais próximos.

Mas, claro, Angola, país forte e emocionante, calou fundo em Isabel, que vive em Lisboa, na Madragoa, onde tem um restaurante e domina a cozinha. Mal chegou, já tem saudades. Há uma parte do coração dela que está apaziguada, outra mais arreliada que nunca. Terá o destino dos que vivem uma vida incompleta, porque feita de várias geografias. Nunca voltará a sentir-se em casa em lado nenhum, apesar de se sentir em casa em todo o lado.