OPINIÃO

Fuga de gás em Alfama: a família que escapou por pouco

A 13 de Agosto, o mundo do jornalista e escritor brasileiro Álvaro Filho explodiu. Um vazamento de gás, seguido de uma, duas, três explosões, abalaram as grossas paredes do número 59A da Rua dos Remédios, em Alfama, onde morava. Crónica de uma tragédia anunciada.

Meu mundo caiu: um breve manual de como explodir sonhos e um prédio em Alfama

Texto de Álvaro Filho Fotografias de Líbia Florentino

No último dia 13 de Agosto, no que parecia ser um corriqueiro domingo ensolarado em Lisboa, nosso mundo explodiu. Literalmente. Um vazamento de gás, seguido de uma, duas, três explosões, abalaram as grossas paredes do número 59A da Rua dos Remédios, em Alfama, e fizeram os pisos desabar em cascata, do quarto para o terceiro, do terceiro ao segundo, até repousarem em chamas sobre o primeiro andar. O nosso andar.

Centenas de quilos de entulho fumegante rapidamente soterraram nossa vida lisboeta, construída em quase um ano de convivência harmoniosa e afetiva com a cidade e o país que escolhemos para viver durante meu doutoramento.

Não estávamos lá, eu, Líbia e os meninos, Arthur e Mathias. Felizmente, escapamos intactos, por sorte ou intervenção divina, mas certamente não por obra das autoridades, das empresas de energia e gás, dos Bombeiros, da Junta de Santa Maria Maior e, consequentemente, da Câmara Municipal de Lisboa.

De certa forma, era uma tragédia anunciada, alertada e, sobretudo, possível de ser evitada. Há meses, os bombeiros dedicavam idas regulares ao número 59A.

De certa forma, era uma tragédia anunciada, alertada e, sobretudo, possível de ser evitada. Há meses, os bombeiros dedicavam idas regulares ao número 59A. Para o menor, Mathias, de dois anos, as luzes da sirene a girar no caminhão vermelho sob a nossa janela indicavam a presença da Patrulha Pata na vizinhança. Para nós, de perigo.

O motivo das visitas dos Sapadores era a recorrente fumaça, acompanhada de um odor forte de gás, que emanavam de uma espécie de tampa vazada, situada bem em frente à sede local da Junta. Com as mãos na cintura, os bombeiros acompanhavam os funcionários da EDP a remexerem o local. Para os técnicos da companhia de eletricidade, a fumaça era fruto de um curto-circuito e o cheiro, da borracha dos cabos derretidos. Os bombeiros pareciam concordar.

Tudo muito estranho ao nosso olhar de estrangeiros residentes numa cidade familiar, mas ao mesmo tempo com cultura diferente. Mas se a Junta e os bombeiros não pareciam preocupados, então poderíamos ficar tranquilos, certo? Errado, como se veria. A cena se repetiu outras vezes como num incómodo déjà vu. Inclusive durante os Santos Populares, a principal festa de Lisboa, uma espécie de Carnaval daqui, com dezenas de grelhas acesas na rua e milhares de pessoas passando para lá e para cá, fantasiadas e felizes.

O cheiro de sardinha encobria o odor de gás, que mesmo assim aproveitada uma lufada maior de vento para dar o ar de sua graça. Alertamos a uns funcionários da EDP que faziam um reparo próximo.

O cheiro de sardinha encobria o odor de gás, que mesmo assim aproveitada uma lufada maior de vento para dar o ar de sua graça. Alertamos a uns funcionários da EDP que faziam um reparo próximo. Houve anotação num papel, mas não apareceram por lá. À essa altura, a EDP já havia encoberto a tampa vazada e transferido os cabos para uma caixa instalada na parede da Junta. Parecia mais prático do que abrir o chão a cada retorno.

No fatídico domingo, 13 de agosto, a cena se repetiu pela última vez. E cobrou o preço da negligência. Novamente, os técnicos da EDP estavam no local a mexerem na caixa. Repetiram o mantra que não era gás, mas os cabos elétricos derretidos em curto. O odor era tão forte que pessoas a passarem em frente ao 59A tocavam a nossa campanhia, alertando-nos. Mostraram mais consideração e cuidados que os bombeiros, chamados por nós por volta do meio-dia.

O caminhão vermelho da Patrulha Pata estacionou em frente ao prédio, observado com excitação por Mathias, nos braços da mãe. Os sapadores entraram no hall. O primeiro deles voltou decidido: «É gás». Mas pouco depois, mudaram de ideia, convencidos pelos operários da companhia elétrica. «Podem retornar, estão seguros», disseram.

Não só voltamos, como tentamos viver de forma natural o domingo. No prédio que explodiria poucas horas depois por vazamento de gás, acendi o fogão e fiz o almoço.

Não só voltamos, como tentamos viver de forma natural o domingo. No prédio que explodiria poucas horas depois por vazamento de gás, acendi o fogão e fiz o almoço. Preparei frango, pasta, legumes e salmão. As chamas acesas para fritar, cozer e assar a refeição, sem saber do risco de flambar a mim mesmo e as pessoas que amo.

Em seguida, houve banhos com os chuveiros acionados por eletricidade. O mais novo tirou a sesta habitual da tarde no quarto que seria o mais afetado com a sequência de explosões e desabamentos, o único dos cómodos de onde não foi possível se recuperar praticamente nada, sepultando brinquedos, varinhas de Harry Potter, livros, roupas, equipamentos eletrónicos, material escolar e memória.

Fui o primeiro a sair, por volta das três da tarde. Devo minha vida aos HMB, uma banda de soul portuguesa que estará no Brasil no próximo Rock and Rio.

Fui o primeiro a sair, por volta das três da tarde. Devo minha vida aos HMB, uma banda de soul portuguesa que estará no Brasil no próximo Rock and Rio. Como também sou jornalista, estava a fazer uma matéria para o Notícias Magazine, a registrar a rotina do grupo numa igreja no Cacém. Ouvi atento ao vocalista do grupo, Héber Marques, agradecer a Deus por abrir e também fechar portas. Agora, mais do que nunca, faz sentido para mim.

O mais velho, Arthur, saiu às cinco da tarde para encontrar a filha de um casal amigo e organizar o aniversário do pai dela. Líbia e Mathias deixaram o número 59A por volta das sete da noite, com o mesmo destino. Ela ainda relutou em acordar o caçula, pois é sempre bom deixá-los dormir o suficiente. Aquele domingo foi uma exceção,

Na saída do prédio, havia os funcionários da GALP a cavar. Finalmente, concluíram o óbvio. No segundo andar, o vizinho fumava um cigarro enquanto abriam o chão, sem ser alertado sobre o perigo. O casal de alemães hospedado no quarto andar estava prestes a retornar do dia típico de um turista.

Com Mathias no colo, Líbia perguntou aos técnicos se havia perigo. «Sempre há, não é. É gás», respondeu um deles, de forma evasiva. Ela ainda quis saber se era preciso ter cuidado pois o caçula havia inalado gás a tarde toda. A resposta foi que se ela estivesse incomodada, voltasse para casa e fechasse a janela. E assim se abraçasse com a morte junto ao filho.

Ainda bem que Líbia nunca foi de ouvir as pessoas.

Dez, quinze, vinte minutos no máximo depois, o quarto andar explodiu. O impacto expandiu as paredes do prédio, tão grossas que o funcionário da NOS havia usado uns meses antes uma broca de 60 centímetros para furá-la ao instalar o disco da TV. Dias depois do incêndio, a arquiteta da Câmara disse que houve uma rotação de 45 graus na parede do último andar. Não sei o que isso quer dizer, mas me impressionou. A parte de trás do número 59A se abriu como acontece à tampa de uma lata de sardinha. Os imóveis ao lado e em frente foram danificados com a explosão.

Incrédulos, assistimos ao nosso mundo ruir. Ficamos sem casa, sem lar, sem roupas, mas ficamos. Se as autoridades em Lisboa falharam em nos proteger, não faltou proteção dos nossos amigos, especialmente dos portugueses.

Soubemos de tudo pela rede social, já no aniversário de Walter – o que só comprova o que todos já sabem: ter bons amigos pode salvar a sua vida. Rapidamente, voltamos ao local. Incrédulos, assistimos ao nosso mundo ruir. Ficamos sem casa, sem lar, sem roupas, mas ficamos. Se as autoridades em Lisboa falharam em nos proteger, não faltou proteção dos nossos amigos, especialmente dos portugueses, da senhora que faz a limpeza dos AirBnB em Alfama que clandestinamente nos alojou na noite da tragédia, sem consultar a proprietária do imóvel, a dezenas de pessoas que pouco ou nem nos conheciam que ofereceram um teto, um colchão, roupas e, o mais importante, afeto. O que nos faz ter a certeza, mais do que nunca, que fizemos a escolha certa em estar aqui.

Nossa Pequena Pompeia foi susto, pânico, desespero e alívio. É agora memória, uma cicatriz na vida da gente. Estamos agora bem alojados, graças à atenção do senhorio. Passamos por tudo ilesos, mas não incólumes. O mais velho, em plena adolescência, viu espinhas a estourar no rosto e aftas na boca. O mais novo brinca em sussurros sobre o fogo que entrou sem ser convidado em casa. Eu e Líbia fingimos sermos fortes.

A tragédia, porém, também é escudo. Se sobrevivemos a isso, nada mais nos pode ferir. Para o jornalista, um dia de viver na pele o que passa com quem se costuma entrevistar. Para o escritor, a certeza de que a arte não pode imitar a vida, nunca. A realidade tem texturas, cores e sons peculiares. Sem falar no odor. Até hoje, apesar de vários banhos e da roupa nova, o cheiro de fumaça me acompanha. Talvez porque não o sinto com o olfato.

Mas com o coração.

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